Quarta-feira, Março 18, 2009
AVISO IMPORTANTE AOS AMIGOS LEITORES
O Maria Frô após 4 anos está de mudança. Resolvi realocar o blog no wordpress. O blogspot tem vários problemas e o último que desconfigou o blog, jogando para o final a barra lateral à direita me fez perder a paciência de vez.
Vou tentar ver se ao clicar no endereço antigo os navegantes sejam diretamente remetido para o novo, mas enquanto isso não ocorrer, troquem aí o endereço para http://mariafro.wordpress.com
Um grande abraço
Conceição Oliveira
Sábado, Março 14, 2009
O verdadeiro alvo da campanha contra Batistti são as lutas sociais brasileiras
Minha tese foi a de que o nacionalismo falou mais alto do que o jornalismo. Uma pena, mas isso não pode fazer com que esqueçamos da trajetória de Mino na imprensa brasileira.
No Le Monde Diplomatique, Giuseppe Coco publicou um ensaio contundente sobre a polêmica do caso Batistiti, recomento a leitura.
Mirar Battisti, acertar a multidão
(13/03/2009)
No dia 1º de março de 2009 faleceu em Paris, Giancarlo Santilli. Tinha 57 anos e morreu de câncer. A história de Giancarlo é exemplar para abrir mais uma pequena janela na incrível cobertura que a grande mídia brasileira está fazendo no caso de Cesare Battisti, dedicada a “sentenciá-lo” como se fosse "terrorista" – ou tentando talvez impor ao STF o ponto de vista do governo italiano. Em matéria publicada em 1º de março de 2009, O Estado de São Paulo – para citar apenas um órgão de imprensa – afirma o contrário de todas as evidências: "STF vai extraditar Battisti, se seguir rito" [1], lê-se logo no título. Não se sabe que critérios dariam tanta segurança aos jornalistas João Bosco Rabello e Felipe Recondo para afirmar tal coisa, pois o STF recusou a extradição de todos os italianos refugiados no Brasil, a partir de acusações relacionadas a eventos dos movimentos da década de 1970 [2].
O que a mídia deveria constatar, se fosse isenta, é que uma decisão diferente do STF seria uma ruptura com sua própria jurisprudência: uma ruptura que não teria explicações jurídicas, mas sim políticas. Mas lembremos das manchetes produzidas logo depois da concessão, pelo ministro Tarso Genro, de refúgio a Battisti. Falavam em "dois pesos e duas medidas" entre a decisão relativa ao “terrorista” (Battisti) e a “deportação” (inventada) dos atletas de Cuba! Está fartamente demonstrado, hoje que os atletas voltaram a Cuba porque quiseram fazê-lo. Exatamente o que se sabia, à época. Exatamente o contrário do que os jornais publicavam. O vexame e a falta de profissionalismo, aparentemente, não são suficiente para que se peça desculpas.
A hipocrisia da mídia conservadora combina-se à histeria da cruzada de um colunista e do editor de um semanário que se pretende alternativa à mídia de mercado. Já vimos em outros momento que o conhecimento deles da história política da Itália contemporânea é simplório e redutor. Mas há uma “outra” linha de argumentação capital nessa Carta. Sempre com o objetivo de defender “pela esquerda” a extradição de Battisti, Mino Carta e Walter Maierovitch recorrem sistematicamente a entrevistas ou citações dos que eles chamam de “magistrados vermelhos” italianos. A mobilização das entrevistas desses magistrados rossi se faz, em primeiro lugar, com o objetivo de confundir as tradicionais clivagens políticas e, em segundo lugar, os campos de atuação. Mistura-se luta contra o terrorismo e repressão dos crimes de colarinho branco, pelo simples fato de os ditos magistrados “vermelhos” atuarem na repressão da corrupção e/ou da máfia e outras formas do crime organizado italiano.
Superficialmente, esta confusão parece proposital e instrumental. Mas, se olharmos com mais cuidado, podemos ver que Carta e Maierovitch incorrem, de fato, num embaralhamento político e teórico.
Nesta justiça de justiceiros, os derrotados não teriam jamais qualquer direito; mas, pela ousadia de ter enfrentado o poder, a punição eterna e eternamente “atualizada”. Esse é o substrato dos argumentos de Maierovitch e Carta
Em primeiro lugar, i magistrati rossi, os “magistrados vermelhos” dos quais tanto se orgulham Mino e Walter não são problema para quem defenda o refúgio para Battisti e a anistia para os anos 1970. O problema está no fato que o cromatismo político aqui invocado é absurdo. Por que esses magistrados italianos haveriam de ser "vermelhos", se o partido de referência (o Partito Democrático, PD) não o é mais, há muito tempo? Porque, nos dizem, assim os chamam os berlusconianos. Mas então, por que os supostos "vermelhos" estão do mesmo lado de Berlusconi na perseguição dos ex-militantes dos 1970 ? A tinta pega somente de um lado? Será, para comparar com o Brasil, que o PPS de Roberto Freire [3], fiel aliado do PSDB, seria "vermelho"?
O que Mino e Walter não querem entender – ou não podem – é que a esquerda italiana sumiu do mapa; o PD é como se fosse um grande PPS. Aqueles magistrados “vermelhos” são problema – que deveria fazer avermelhar as caras – para Mino e Walter, tanto quanto são problema também os ex-comunistas que votam com os fascistas, com os "leguistas" xenófobos, e com o partido de Berlusconi (que mudou as leis para escapar à cadeia), contra os militantes da década de 1970. Por trás dos fogos de artifício e frases rápidas, e de referências a combates contra a máfia e o colarinho branco, é Walter que deve explicar (e explicar-se) essa sagrada união, com todas a promiscuidades que ela implica com os crimes do colarinho branco. A tese em que Carta Capital funda-se é simplória e historicamente insustentável: a Itália seria democrática, naqueles anos; a resistência teria sido terrorismo. Por esse tipo de justiça de justiceiros, os derrotados não teriam jamais qualquer direito, além de punição eterna e eternamente “atualizada”, pela ousadia de ter enfrentado o poder. Esse é o substrato dos argumentos de Maierovitch e Carta. Em segundo lugar, as posições de Mino e Maierovitch derivam de um outro viés, particularmente problemático e com relação ao qual o caso Battisti e um revelador eficaz.
Da mesma maneira que o fizeram os magistrados ligados ao que era a esquerda italiana, Carta e Maierovitch aplicam uma visão política fundamentalmente conservadora. Segundo eles, a Itália era e é uma democracia. Essa democracia foi perturbada pela violência do terrorismo (na década de 1970). Sua repressão permitiu a manutenção da democracia. Essa repressão não pode prever nenhum reconhecimento da revolta, nem abrir mão da perseguição (se cometidos no Brasil, os supostos crimes de Battisti já estariam prescritos).
Mino e Walter enxergam a Lei como um mecanismo acima do conflito social, algo que seria primeiro, anterior à legitimidade e à sua produção. Para eles, a “lei” tem princípios próprios: divinos. Eles acreditam mesmo que a magistratura e a “judicialização” dos direitos e da sociedade civil sejam um avanço democrático. Pensam que um dos problemas do Brasil – e, mais em geral, das democracias – seja mesmo a impunidade, a falta de um rigoroso respeito à Lei. Para eles, o vigor da Lei (a força da Lei) seria o fato do rigor da Lei.
Há três séculos, Jefferson frisou: “O espírito de resistência ao poder é tão valioso em determinadas ocasiões que eu desejo que ele seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido mesmo quando é um erro, mas isso é melhor de que não ser exercido nunca”
Ou seja, a violência, a violação dos direitos seriam sempre a conseqüência do não respeito da ordem e da Lei. Mas isso é – inclusive desde o ponto de vista liberal – completamente falso: a força da Lei está na existência de contra-poderes. A dinâmica desses contra-poderes atravessa, e ao mesmo tempo é atravessada, pela realidade que eles enfrentam. A Lei sem legitimidade e sem contraditório não é nada de mais do que a Lei da força, a efetividade que constrói sua própria e exclusiva legitimidade, legitimidade da opressão.
Esse tipo de postura ignora, por um lado, que a legitimidade da Lei está na democracia como espaço do contraditório, do conflito e, em última instância, no poder constituinte: a legitimidade capaz de construir sua própria legitimidade. O consenso que forma o alicerce da república deve necessariamente construir-se pelo reconhecimento do conflito. Algo que Thomas Jefferson explicitava nesses termos: “O espírito de resistência ao poder é tão valioso em determinadas ocasiões que eu desejo que ele seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido mesmo quando é um erro, mas isso é melhor de que não ser exercido nunca” [4].
Por outro lado, essa visão “judiciária” da transformação social é incapaz de ver que, no Brasil,lei da força sobrevive, desde sempre, dentro da força da lei. Quando o campo foi para as cidades e as transformou em metrópoles monstruosas, o crime do poder tornou-se o principal mecanismo de regulação biopolítica das populações. A violência endêmica, em todas as suas formas e, sobretudo, nas formas supostamente mais “organizadas”, constitui a face visível de um poder cujos tratos tecnocráticos nem conseguem mascarar o horrível rosto neoescravagista. A única paz que esse poder pode proporcionar é, na realidade, a paz do medo.
É exatamente o que podemos observar de maneira nítida nesses dias: o presidente do STF, Gilmar Mendes, ergue-se como defensor das liberdades dos presos nas operações da Policia Federal contra banqueiros, empresários, comerciantes (quer dizer contra uma elite que até hoje era intocada). Ao mesmo tempo ameaça com o rigor da Lei as lutas do MST. A Lei é a mesma, mas, para os ricos (banqueiros), clamam-se as garantias constitucionais ao passo que, para os pobres sem-terra, pede-se o rigor punitivo da Constituição. É por isso que um movimento de democratização não deve nunca cair na armadilha de pensar que seus problemas serão resolvidos pela magistratura, pela polícia ou, mais em geral, pela ampliação dos poderes do Estado. É por isso que a elite está sempre pronta a organizar uma CPI (quando o governo não é completamente controlado por ela) ou uma frente parlamentar contra a corrupção. A corrupção do poder (dos ricos) é usada contra toda tentativa de constituição da potência (dos pobres). A denuncia retórica da impunidade da elite (dos ricos) serve para chamar para mais punição contra os pobres.
A indecência dos que pedem “rigor” aparece clamorosamente quando lembramos os editoriais redigidos quando da prisão de Daniel Dantas. Nesses, assumiam-se com veemência posições de defesa das garantias constitucionais — e, pois, da “tibieza”...
Num país como o Brasil, marcado pelo excesso de punição e por níveis iníquos de desigualdade, esses senhores cujo poderio tem origem na vergonha da escravidão e se consolidou na não menos vergonhosa ditadura militar denunciam – por exemplo em editorial de O Globo de 28 de fevereiro de 2008) as “várias distorções existentes na Constituição de 1988)” [5]. Assim, continua o mesmo editorial, “já passou da hora de agentes públicos deixarem de ser tíbios (...)” para enfim esclarecer: “Este é o pano de fundo da correta iniciativa do presidente do STF, Gilmar Mendes, de alertar para a ilegalidade na atuação de organizações de sem-terra – MST à frente – e, em especifico, na transferência de recursos públicos para esses grupos, que vivem na semi-clandestinidade e atuam ao arrepio da lei, com a conivência dos agentes públicos”.
O ódio racista e de classe contra os pobres, e o cinismo diante de um “social” que significa miséria e violência, não são os únicos elementos indignos desse tipo de jornalismo escancaradamente anti-democrático – o mesmo que os escravocratas mobilizavam contra os abolicionistas. A indecência e a ausência de qualquer ética aparecem clamorosamente quando comparamos esse editorial com o tom dos editoriais de há alguns poucos meses, quando da prisão do banqueiro Daniel Dantas. Nesses, assumiam-se com veemência posições de defesa das garantias (e, pois, da tibieza) constitucionais.
Em julho de 2008, durante a operação Satiagraha, o mesmo Gilmar Mendes e a mesma imprensa defendiam a necessidade de a magistratura ser – para usar os termos de O Globo — “tíbia” com o banqueiro Daniel Dantas. Os editoriais de O Globo (todos no mesmo mês de julho) são ilustrativos e repetitivos: “A Polícia Federal não pode agir como policia política, acima das instituições” (dia 10); “Defesa do Direito” (é o título dia 12); “Estado Policial” (título do dia 15); “Cultura da tutela” (título do dia 16) e, enfim, no dia 17, denunciava-se “o atropelamento de direitos individuais garantidos pela Constituição (...)”. A Folha de São Paulo foi no mesmo tom. Inicialmente, tentou jogar acusações para cima do governo, tentando semear duvidas: “História das trevas: governo que se afirma paladino da República no caso Dantas é o mesmo que, em surdina, facilita e conduz fusão de teles” recita o editorial do 16 de julho de 2008. “Poder em descrédito” foi o título do editorial do 20 de julho de 2008. Já no dia 12 de setembro, o editorial da mesma Folha deixa de lado as ambigüidades e titula “Grampo controlado”. Em entrevista à Folha (em 29 de setembro de 2008), é o próprio Gilmar Mendes que faz a síntese: “no plano institucional, tenho a impressão de que há algum tempo o Brasil denuncia o descontrole dessas áreas (grampo telefônico)”. E, o que está fora de controle é “o aparato policial”.
No caso Satiagraha, a defesa do estado de direito não atrapalha, diz Gilmar Mendes, “o combate à impunidade”. Umas três semana antes, o editorial de O Globo (7 de setembro de 2008) [6] antecipava-se, ao uníssono com Gilmar: “Vinte e três anos depois a redemocratização, este é um daqueles momentos em que a sociedade se depara com os limites estabelecidos pelo estado de direito com o objetivo de protegê-la”.
Gilmar Mendes cobra e limita a operação da polícia e dos magistrados, no caso Dantas; e cobra mais inquéritos e mais repressão de polícia e magistrados contra os sem-terra. Tudo no mesmo dia e na mesma ...Folha! A força da lei é na realidade a lei da força
Estamos, plenamente, no campo do indigno: o mesmo jornal (O Globo), como já citamos, que convoca “os agentes públicos (a) deixarem de ser tíbios” [7] com as lutas sociais e mais em geral contra os pobres (os informais, as favelas, as invasões) escreveu no editorial de 7 de setembro de 2008: “Alegar que se trata de uma tibieza da legislação brasileira é não conhecer os termos de alguns desses inquéritos (está se falando da operação Satiagraha) e a visível fragilidade de certas acusações”. No combate aos movimentos e aos pobres, a propaganda da oligarquia (e de uma oposição sem projeto) acusam “as várias distorções existentes na Constituição”. Ou seja: “em nome do ’social’ relaxa-se diante da favelização, da desordem urbana generalizada, de homicídios, de agressões a preceitos constitucionais (...).” [8] Quando se trata do colarinho braço, os Torquemada da luta contra os marajás e a corrupção tem a preocupação oposta: “É preciso combater a cultura salvacionista que considera a Constituição impeditiva da moralização do poder público”.
Como isso se traduz? De maneira tão nítida quanto as afirmações da “literatura” que citamos acima. É só ler, mesmo que de forma distraída, os noticiários do 5 de março de 2009. “Mendes orienta tribunais a priorizar questão fundiária” e, na mesma página, “Juiz De Sanctis – aquele que emitiu dois mandados de prisão contra Daniel Dantas - é alvo de mais um processo administrativo” [9]. O presidente do STF, Gilmar Mendes cobra e limita a operação da polícia e dos magistrados, no caso Dantas; e cobra mais inquéritos e mais repressão de polícia e magistrados contra os sem-terra. Tudo no mesmo dia e na mesma ...Folha! A força da lei é na realidade a lei da força.
Há também uma tradução meramente jornalística dessa postura ultra-conservadora de uma elite que ainda não acertou as contas com suas origens escravocratas (apesar de ter tido a ilusão que a tecnocracia “tucana” lhe forneceria algo como um laissez passer que limpasse as mãos secularmente sujas do sangue das senzalas...). O Globo está sempre à frente: em 5 de março de 2009, podemos ver a mais nova cobertura da violência urbana. “Barbárie na Niemeyer” é a manchete, ilustrada por duas fotos em primeira página (com mais duas páginas inteiras na abertura do “caderno Rio” [10]). As fotos e os artigos falam do ferimento de um “empresário e sua namorada” por um grupo de “marginais”. No mesmo dia, a notícia do assassinato do líder de uma ocupação de terras conduzida por 200 famílias na Zona Oeste do Rio de Janeiro está relegada na página 16, na rubrica “notas”. São 19 linhas ao todo!
Na tristeza da morte de Giancarlo Santilli, temos a possibilidade de falar de um caso tão exemplar quanto o de Battisti, sem correr o risco de criar mais problemas para a vítima
A vergonha desse jornalismo é a mesma que Primo Levi tratava como a vergonha de ser um homem — ou seja de pactuar com a segregação, a desigualdade e a violência insuportável que o poder exerce para regular a população pobre. Essa vergonha se traduz no paradoxo dos que continuam presos do esquema político e mental do poder. Pensam que o combate à violência da desigualdade – ou seja, a uma violência provocada pela ausência de liberdade material e efetiva – passe pela redução da liberdade. Como dizia Spinoza, “sabemos que as guerras, o desrespeito ou a violação das leis não são atribuíveis à malvadez dos súditos, mas à má constituição do governo”. O problema não está em aumentar a autoridade do Estado, mas sim em potencializar a democracia. “Se em um Estado, escreveu Spinoza, reina mais do que num outro a malvadez, e perpetram-se mais crimes do que num outro, isso é devido com certeza ao fato que esse Estado não procurou o suficientemente a concórdia e não ordenou com sagacidade os direitos (...)”. Então, só a liberdade funda a paz e, com ela, o melhor governo. A liberdade da qual falamos é própria dinâmica da constituição: o direito à rebelião, que Jefferson escreveu na Constituição norte-americana.
E na Itália: qual paz foi imposta com a repressão dos movimentos da década de 1970, e é atualizada pelo conluio da toda a classe política na perseguição, mais de trinta anos depois, de Battisti e Giancarlo Santilli? É a paz de Gomorra [11], de uma violência social proporcional à violência do poder — ou seja, à inexistência de uma norma consensual que evite a guerra. A destruição dos direitos civis abre-se no direito de guerra. Por isso, o pensamento de um Walter Maierovitch, de um Gilmar Mendes e da mídia oligárquica se entrecruzam na cruzada contra o refugio para Battisti e na criminalização dos sem-terra: para eles, a multidão que não tem medo dá medo!
Na tristeza da morte de Giancarlo Santilli, temos a possibilidade de falar de um caso tão exemplar quanto o de Battisti, sem correr o risco de criar mais problemas para a vítima: Giancarlo foi operário da Fiat de Turim, militante da Autonomia Operária. Participou das grandes greves autônomas e das lutas contra a reestruturação, na segunda metade dos anos 1970. Giancarlo participou assim de um vasto e profundo momento de constituição da liberdade e, pois, da paz, na Itália dos 1970. Foi demitido dia 9 de outubro de , com outros 60 operários (delegados sindicais e militantes de base) da Fiat. Foi demissão política. A direção da empresa disse-o formalmente: os demitidos tiveram"que caracterizava prestações de trabalho que não atendiam os princípios da diligência, correção e boa fé e [foram demitidos] por ter tido comportamento não compatível com os princípios da convivência civil no lugares de trabalho".
A demissão daqueles 61, pela Fiat, foi investida política direta contra as organizações autônomas dos operários; foi ataque à autonomia, quer dizer, ao processo constituinte. Na demissão, foram cúmplices os principais sindicatos e o Partido Comunista Italiano. Isso aconteceu poucos meses depois de duas tragédia. Primeiro, o seqüestro e o homicídio de Aldo Moro – uma prática de luta (armada) que se declarava antagonista mas reproduzia especularmente o modo de funcionamento do Estado. Um ano depois, a demissão em massa de 40 mil operários da mesma Fiat. Já estávamos então nos anos 1980, e a ofensiva neoliberal se generalizara. O Partido Comunista e os sindicatos só sobreviveriam, dali em diante, aparelhados para participar da co-gestão do sistema de proteção do desemprego mais injusto, mais corporativo e excludente, em todos os países desenvolvidos: a Cassa Integrazione Guadagni —uma instituição herdada do fascismo, e que só protege os trabalhadores das grandes empresas industriais.
Em 1981, Giancarlo foi acusado de ser responsável moral por uma ação durante a qual um segurança da Fiat foi ferido mortalmente. Refugiou-se na França de Mitterand. Seu processo é exemplar do modo de funcionamento da justiça italiana: condenado em primeira instância a 22 anos de prisão por "concurso moral" naquele assassinato, foi depois absolvido em apelação. Mais tarde, foi novamente condenado pela Corte de Cassação (algo como o STF). Na França, onde Giancarlo viveu 29 anos de exílio, tornou-se sociólogo de muito prestígio – por suas análises da reestruturação da Fiat – e passou a trabalhar na RATP, a empresa pública do metrô de Paris. Foi diretor da linha 1, Château de Vincennes-La Défense. Quantas vezes os patrões da grande mídia brasileira, os editorialistas, Gilmar Mendes, Carta e Maierovitch terão andado em metrô, em Paris, sem saber que sua segurança e conforto estavam entregues à competência e aos saberes diligentes do operário "terrorista" Giancarlo Santilli!
[1] Em http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090301/not_imp331378,0.php
[2] O STF recusou quatro pedidos anteriores, reconhecendo cada vez com mais propriedade e lucidez a natureza política dos crimes imputados.
[3] Não por acaso, em artigo publicado na Folha de São Paulo (Tendências e Debates, 8 de Janeiro de 2009), Roberto Freire enfatiza o "esforço de reinvenção da esquerda italiana corporificado pelo Partito Democrático (PD), o herdeiro mais importante do velho PCI". Que capacidade de antecipação! Hoje, início de março de 2009, o PD vive caos total, rachado, à beira da implosão.
[4] “Carta a Abigail Adams”, apud Michael Hardt, “Thomas Jefferson, or the transition of democracy”, in “Michael Hardt presents Thomas Jefferson, The declaration of Independence, Verso, London-New York, 2007.
[5] O título é de um cinismo escancarado: “Tudo pelo ‘social’”.
[6] “País que se deseja”, deixamos de lado a questão de saber quem é o sujeito desse “se”.
[7] No citado editorial do 28 de fevereiro de 2009.
[8] Editorial O Globo, 28 de fevereiro de 2009.
[9] Folha de São Paulo, p. A8, 5 de março de 2009.
[10] P. 13-4. Nem vamos comentar o tratamento meio aprovador do espancamento dos suspeito pelos narcotraficantes da Rocinha na página 14.
[11] Estamos falando do filme-documentário sobre a violência na região de Napoli, do livro homonimo de Saviano.
Abaixo o vigilantismo na Internet
Do blog do Sérgio Amadeu:
ALERTA GERAL: SENADOR AZEREDO AUMENTA PRESSÃO PARA APROVAR SEU PROJETO DE VIOLAÇÃO DA LIBERDADE E IMPLANTAÇÃO DO VIGILANTISMO NA INTERNET

O Senador Azeredo, eleito presidente da Comissão de Relações Internacionais do Senado, no dia 4 de março, a partir de sua nova posição está pressionando o governo para apoiar a aprovação do seu projeto de criminalização da Internet na Câmara.
No dia 5 de março, o deputado conservador ligado ao PSDB, Regis de Oliveira (PSC-SP), conseguiu aprovar seu parecer favorável ao projeto do Senador Azeredo na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados. O Parecer afirma que o projeto vigilantista e violador da privacidade na rede é constitucional e clama pela sua aprovação .
O projeto de lei do Senador Azeredo quer destruir as redes abertas, impor o fim da comunicação anônima na Internet e criminalizar práticas cotidianas na rede. Abre espaço para atacar as redes P2P, como tem ocorrido em todo o mundo (veja o exemplo do julgamento do Pirate Bay). O projeto do Senador Azeredo é apoiado pela Febraban e pelos banqueiros que querem repassar para a sociedade os custos da segurança bancária.
Quem quiser se somar à luta pela liberdade e privacidade na Internet, envie um e-mail para o deputado do seu Estado pedindo que vote contra o projeto de crimes da Internet re-escrito pelo Senador Azeredo. Porcure no site da Câmara o e-mail do deputado do seu Estado: http://www2.camara.gov.br/canalinteracao/faledeputado
Leia as postagens que esclarecem os riscos dos artigos 285-A, 285-B e 22 do projeto-substitutivo do Senador Azeredo, clique aqui.
Ajude a divulgar a petição contra o projeto original do Senador Azeredo.
Terça-feira, Março 10, 2009
ENTÃO ME EXCOMUNGUE!
1) Mandando mensagens de apoio ao CISAM (Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros):
2) Assinando o abaixo assinado:
À Santa Madre Igreja
Para assinar o abaixo assinado mande uma mensagem com
seu NOME e E-MAIL para entaomeexcomungue@gmail.com
Segunda-feira, Março 09, 2009
MEDALHA CHICO MENDES DE RESISTÊNCIA para um cartunista de respeito que respeita e luta pelos direitos humanos
(Acompanhando o Latuff em outra homenagem, veja aqui. A foto é do Cartunista Bira Dantas)
O rascunho do cartum enviado pelo MSN que se tornou símbolo do ato contra a ditabranda. Que honra a minha, além de atender meu apelo, o artista ainda me mostrou o processo de sua poderosa veia criativa em prol das lutas sociais :)Arles dando seu depoimento para Andrea VG durante o Ato
Bem, tudo isso foi para partilhar com vocês a boa nova recebida pelo meu querido amigo Carlos Latuff: o Grupo Tortura Nunca Mais vai homenageá-lo com a Medalha Chico Mendes de Resistência. Esta honraria é para poucos, só grandes figuras que lutaram em prol dos direitos humanos a receberam (clique aqui para ver quem já ganhou esta medalha).
Na cartinha enviada a ele pelo Grupo Tortura Nunca Mais, que reproduzo a seguir, vejo também que outra grande figura humana de nosso país será agraciado com a respectiva medalha, o ativista negro, com mais de 90 anos de luta contra o racismo e pela valorização da negritude no Brasil: Abdias Nascimento.
45 anos depois do famigerado golpe militar que abortou tantos processos em curso em nosso país e instaurou um Estado de terror que submeteu o povo brasileiro à censura e à tortura podemos lavar a alma, pessoas decentes e talentosas são reconhecidas com prêmios que realmente importam.
Rio de Janeiro 10 de fevereiro de 2009.
Ao
Sr. Carlos Latuff
O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ criou em 1989 a Medalha Chico Mendes de Resistência para homenagear pessoas e entidades que têm se destacado nas lutas de resistência em nosso país e no cenário Latino-Americano.
Há 20 anos a Medalha Chico Mendes de Resistência acontece em todo 1º de abril no sentido de marcar para a sociedade em geral, o que foi o golpe militar de 1964 e seus inúmeros efeitos que se fazem sentir ainda hoje.
Assim, no dia 1º de abril de 2009, estaremos realizando a solenidade de entrega da Medalha Chico Mendes de Resistência e temos a imensa satisfação de convidá-lo para receber uma das Medalhas na categoria Artista.
Este ano os homenageados escolhidos pelo GTNM/RJ, em conjunto com outras entidades Comitê Chico Mendes, Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, Instituto de Defensores de Direitos Humanos (IDDH), Centro pela Justiça e Pelo Direito Internacional (CEJIL/Brasil),Partido Comunista Brasileiro(PCB), Rede Contra Violência e Justiça Global, são:
1. Abdias Nascimento.
2. Procuradores da República: Marlon Weichert e Eugênia Fávero.
3. Iná Meireles de Souza.
4. Ítalo Nogueira.
5. Sérgio Ricardo.
6. Carlos Latuff.
7. Luiza Augusta Garlippe (in memorian).
8. Aurora Nascimento Furtado (in memorian).
Rua General Polidoro, 238 s/loja Botafogo RJ CEP 22 2 80-000
Tel (21) 2286 8762, (21) 2526 2491 Tel/Fax (21) 2538 0428
E-mail:gtnm@alternex.com.br
http://www.torturanuncamais-rj.org.br/
Cobertura do ato contra a Ditabranda na TV Brasil
Aton Fon: "Hay que endurecer, pero perder lá ternura JAMÁS!"
Cada vez que eu vejo este vídeo, eu me emociono. Fon é o exemplo mais puro que conheço do "Hay que endurecer, pero perder lá ternura JAMÁS!"
Barbaramente torturado, 11 anos de sua vida ceifados pelo cárcere e Fon prossegue, lutando por Justiça Social e pelos Direitos Humanos.
Fiquei muito feliz quando ele decidiu ir ao ato em Repúdio ao Editorial da Folha de São Paulo que afirmou no dia 17/02 que o Brasil não experenciou uma Ditadura, mas uma 'ditabranda'. Ele enfrentou a dor que manifestações como estas provocam nas pessoas violentadas pelas torturas, ele mais uma vez enfrentou as feridas profundas que carrega dentro de si, porque sabia que era importante estar ali.
Agradeço imensamente ao universo por ele ter resistido à barbárie deste período horripilante da história brasileira e que espero, com a força de todos nós, ao mantermos viva na memória a idéia de que não é possível aceitar um Estado torturador, algo semelhante jamais volte a se repetir em nosso país.
Agradeço, porque pude ainda bem jovem desfrutar da convivência com este ser de muita luz e luta. Quando o conheci em fins dos anos 80, início dos anos 90 e passávamos longas horas no Lago di Garda na Vila Madá, ele cultivava violetas, pregava botões e chegou a ter relógios até mesmo no banheiro: Menina já perdi muito tempo na vida, não posso mais perder um segundo sequer. Mas o tempo de Fon, não tem nada a ver com o tempo útil capitalista, é o tempo pela vida, na luta para que todos possam saborear a dignidade.
Acho que somos a somatória dos encontros com pessoas especiais como o Fon: lúcidas, generosas, conscientes, que vêem muito longe e carregam um sabedoria imensa sobre o viver genuinamente: a vida é preciosa e, acima de tudo, deve ser vivida com dignidade.
Obrigada, meu amigo, por você ter sobrevivido e continuar fiel aos princípios de defesa da vida, da liberdade, da dignidade e de Justiça social.
Repercussão internacional sobre o ato em repúdio à Folha ditabranda
O Bluebus informa que o protesto organizado pelo Sem Mídia com adesão de algumas dezenas de entidades da sociedade civil teve repercussão internacional. Além do Global Voices (aqui o original em inglês) ter feito uma excelente matéria sobre o ato e sua cobertura online, o El mundo noticiou o ato e o editorial cínico de Otávio Frias.
Não deixe de ver também o Planeta 'Ditabranda' que agrega as notícias publicadas sobre o Ato (e consulte a imensa lista de blogs que o noticiaram, publicaram artigos críticos e que cobriram a manifestação em repúdio à Folha, especialmente o Vi o Mundo, Cidadania. com Nas retinas e o Escrevinhador).
Reproduzo as respectivas matérias abaixo e, ao longo da semana, postarei fotos e vídeos produzidos durante o ato.
Do Global Voices, matéria traduzida para o português:
Brasil: Protesto em repúdio ao uso de ditabranda pela Folha
2009-03-08 @ 16:21 EDT · Publicado originalmente por Paula Góes
Traduzido por Paula Góes · Veja o post original e também o artigo em espanhol
“(…) Mas, se as chamadas ‘ditabrandas' - caso do Brasil entre 1964 e 1985 - partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça -, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente”.
Houve um grande número de reações na blogosfera em repúdio a esse editorial, uma petição juntou mais de 7.500 assinaturas em uma semana, e nesse sábado o evento foi para o mundo offline. Blogueiros de São Paulo e de outras partes do país, sendo que alguns viajaram 20 horas de ônibus para chegar lá, fizeram uma manifestação na frente da sede do jornal. O evento foi organizado no decorrer de uma semana, por meio do propaganda boca a boca. Durante as 3 horas de protesto, os manifestantes puderam blogar ao vivo diretamente do local, graças a uma rede wi-fi com infra-estrutura com base no linux e software livre. Quando o horário de início da manifestação aproximava-se, Guto Carvalho anunciou no Twitter:
Acesse o agregador ao vivo para ver todas as reações. Um dos blogues participantes, o Economia Solidária observa a força da blogosfera:
Alguns dias atrás o google pouco acusava se pesquisado “ditabranda”, hoje já são 172.000 resultados.
Essa foi a primeira foto, tirada por gutocarvalho e publicada via TwitPic. O @joildo retuita e comenta:
“A materialização de um protesto organizado a partir da internet”
Cartazes com nomes e datas em que as pessoas foram assassinadas. Foto de gutocarvalho
A base digital improvisada em uma lanchonete. Foto de gutocarvalho
A blogosfera fala – e o papo não é nada brando
Eduardo Guimarães, um dos organizadores do protesto e a mente blogueira por trás da ONG Movimento dos Sem Mídia, postou vários artigos sobre o uso do neologismo. Em um deles, ele diz que as reações dos leitores nas outras postagens fizeram com que ele se desse conta de que não foi o único a sentir um arrepio na espinha ao ler o editorial da Folha. Ele pergunta se o editorial teria sido fruto de “Saudosismo ou projeto”:
Todos nos arrepiamos porque faz sentido, ainda que inconscientemente, entender que, quando todas as opções para retomar o poder pelas vias democráticas faltam, esses que já engendraram ditaduras, defenderam-nas e com elas colaboraram, não custa muito para terem novas idéias do tipo.
Quando se fala em imprensa golpista, muitos entendem que é porque ela tentou derrubar Lula com o escândalo do mensalão, mas não é. A razão é bem outra. A razão é a de que essa imprensa já derrubou vários presidentes no decorrer da história, alguns tendo sido “derrubados” naquele sentido que os traficantes de drogas costumam dar ao abate de seus desafetos.
Muitos blogueiros publicaram a imagem abaixo, uma charge desenhada por Latuff especialmente para o protesto mostrando Vladimir Herzog morto, bebendo caipirinha. Herzog, um acadêmico e jornalista judeu, foi torturado até a morte pelo aparato repressivo do estado em 1975. Naquela época, os militares já estavam no poder há mais de dez anos. Pinto diz:
Fixo-me na imagem. Um jornal dos que o subvencionam e já se disse “o das Diretas” logrou este impensável: subverteu um ícone dos Anos de Chumbo e o tornou objeto de escracho não contra quem o produziu, mas contra quem deveria combatê-lo antes de qualquer coisa. Compreenda-me bem. Não me incomoda o escracho em si. À memória do Vlado dano pior fizeram os milicos. Tento aceitar, embora seja difícil, que justo um jornal tenha sido a força-motriz dessa guinada semântica.
Celso Lungaretti notou que a Folha não deu a devida atenção a todas as mensagens reclamando do editorial na seção de cartas do leitor. Na primeira semana, o jornal teria dado espaço proporcional às cartas que recebeu, das quais 13% foram relacionadas ao caso “ditabranda”. Mas isso não durou até a semana seguinte:
Já na semana de 22 a 28 de fevereiro, a proporção de mensagens sobre a “ditabranda” até cresceu, para 20%. O que diminuiu foi o interesse da Folha em destacar uma discussão que se tornava cada vez mais indigesta para ela.
Portanto, dentre as 69 notas que saíram no Painel do Leitor, míseras quatro (5,8%) abordavam o assunto que, para o público do jornal, era o mais importante do período, à frente até do “Governo Lula” e da “crise econômica”, sobre os quais apenas 6,4% e 5,3% dos leitores, respectivamente, sentiram-se compelidos a escrever à Folha.
O número total de reclamações durante o período de dez dias após o 17 de fevereiro foi de 174 cartas. Apesar de não ser parte do trabalho do ombudsman analisar as opiniões publicadas nos editoriais do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva também achou que a resposta da Folha foi inaceitável já na primeira semana:
Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no “Painel do Leitor”. Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores.
A Folha perdeu pelo menos um leitor. A atitude do jornal fez Idelber Avelar tomar a decisão de cancelar a assinatura que tinha no serviço online do grupo, o UOL. Ele também confirmou a sua tese de que os funcionários da grande imprensa não têm a menor idéia sobre a importância de seus leitores, que agora podem participar e ter uma voz. Agora que a internet é a plataforma principal para protestos, “eles seguem colocando a culpa da febre no termômetro”. Ele comenta:
Todas as fontes confirmam que o impacto do episódio fez com que se batessem muitas cabeças na redação da Folha de São Paulo. Sem saber muito bem como lidar com a grande repercussão, sem ter a dignidade de se desculpar, desprovido da transparência de repensar a sua colaboração com a ditadura, o jornal embarcou numa sequência de emendas que pioraram muito um já péssimo soneto. Publicaram umas poucas linhas de Benevides e de Comparato, sem resposta injuriosa mas sem retratação. Escalaram um colunista, Fernando Barros e Silva, para “discordar” do editorial num texto cuja ênfase maior era uma bizarra comparação entre a metáfora usada por Comparato – de que o jornal deveria se desculpar ajoelhado em praça pública – e os métodos da Revolução Cultural chinesa (haja liberdades com as metáforas alheias!). O coroamento foi um post de Marcelo Coelho que afirmava que “há pelo menos 30 anos, a Folha reprova o autoritarismo”, omitindo a simples matemática de que em 1979 a Folha já tinha 15 anos de leais serviços prestados à ditadura militar.
Sugestão de leitura
Brasil: Nunca Mais - Livro que documenta as torturas que ocorriam no Brasil na época da ditadura militar, 1964-1979, preparado secretamente pela Arquidiocese de São Paulo.
No Global Voices: Brasil: Luz nos dias de escuridão da ditadura
Atualização: 08/03/2009
Na sua edição de domingo, a Folha pediu desculpas finalmente. Eles também cobriram o protesto. Mas para Antônio Melo, ainda não é o suficiente:
A pressão fez a Folha recuar. Hoje o jornal publica nota em que o diretor de Redação e herdeiro do jornal, Otavio Frias Filho, reconhece que foi um erro chamar a ditadura brasileira de ditabranda. Menos mal. No entanto, Otavinho, como é conhecido, insiste em atropelar a realidade ao fazer interpretação literal de uma carta do professor Fábio Konder Comparato, e, pior, volta a ofender o professor e a professora Maria Victória Benevides, chamando-os de “democratas de fachada”. Com isso ele consegue corrigir-se no essencial, mas, como um legítimo neocon, cai atirando. Sua expectativa com a nota é tentar transformar o mea culpa a que se viu obrigado de uma “quase derrota” em uma “quase vitória”. Erra novamente.
E os protestos contra a Folha | tiveram repercussão internacional
BRASIL | El texto provocó numerosas reclamaciones
Los lectores obligan a un diario brasileño a reconocer su error en un editorial
Efe | Sao Paulo
El diario 'Folha de Sao Paulo', el de mayor circulación en Brasil, reconoció su error en un editorial del 17 de febrero en el que llamó a la dictadura militar (1964-1985) "dictablanda", tras una protesta el último sábado de más de 300 personas ante la sede del periódico.
En un comunicado, el director de redacción del diario, Otavio Frías Filho, admitió que "el uso de la expresión 'ditabranda' (dictablanda) fue un error. El término tiene una connotación que choca y que no representa la gravedad del asunto. Todas las dictaduras son igualmente abominables".
Frías Filho, sin embargo, señaló que "desde el punto de vista histórico", la dictadura brasileña, "con toda su truculencia, fue menos represiva que sus congéneres argentina, uruguaya y chilena o que la dictadura cubana, de izquierda, con la cual simpatizan (los manifestantes)".
Varios lectores enviaron cartas de protesta, que fueron publicadas, y 'Folha' emitió una contrarrespuesta pidiendo igual actitud en la crítica a las dictaduras de izquierda.
Las protestas del sábado pedían que los responsables del artículo se retractaran "de rodillas" en una plaza pública y contaron con un memorando de repudio al editorial firmado por 7.000 personas, entre ellos intelectuales como el centenario arquitecto Oscar Niemeyer y el compositor y escritor Chico Buarque.
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Notícia publicada no Knight Center for the Journalism in The Americas da University of the Texas at Austin
JORNALISMO NAS AMERICAS
Cerca de 300 pessoas participaram no último sábado de manifestação contra a Folha de S. Paulo em frente à sede do jornal, na região central de São Paulo, informa a própria Folha. Os manifestantes protestaram contra um editorial publicado pelo jornal em 17 de fevereiro, que afirmava que a ditadura brasileira poderia ser chamada de "ditabranda" quando comparada a outros regimes militares da América Latina.
No dia seguinte à manifestação, o diretor de redação e herdeiro do jornal, Otavio Frias Filho, se desculpou pelo uso do termo em nota, embora tenha reiterado "o caráter light de nossos generais", diz o blog Midialogismo.
Leia mais sobre o protesto e veja fotos no post de Paula Góes no Global Voices.
Assista abaixo à cobertura da TV Brasil do ato contra a "ditabranda", clicando aqui
Sábado, Março 07, 2009
Mais um blog em ação: reformas do Escrevinhador chegaram ao fim
Hoje, em um dia muito especial pra blogosfera (veja aqui nosso dia de festa e protesto) Rodrigo Vianna, finalmente, terminou de assentar o piso, abriu as janelas e portas, a tinta ainda está fresca, mas a casa virtual já está pronta para receber os amigos para a festa de inauguração.
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publicada em quinta, 05/03/2009 às 01:00 e atualizado em quinta, 05/03/2009 às 01:00
(texto originalmente publicado em 21 de novembro de 2008, às 13:00)
“Salve, o navegante* negro, que tem por monumento as pedras pisadas do cais”.
Se você tem mais de 30 anos, já deve ter ouvido esses versos, na interpretação belíssima de Elis Regina.
A letra é de Aldir Blanc – um dos maiores compositores da MPB, carioca da zona norte, vascaíno, homem simples e erudito ao mesmo tempo.
Nos anos 70, Aldir Blanc (em parceria com João Bosco) fez o que nossa escola não fazia: contou a história de João Cândido, marinheiro que, em 1910, comandou a “Revolta da Chibata” - rebelião contra os castigos corporais que, em pleno século XX, ainda eram adotados pela gloriosa Marinha brasileira.
Onze anos atrás, eu era repórter na Globo do Rio. Tim Lopes era produtor. Trabalhei com ele em algumas reportagens. A mais bacana foi essa, levada ao ar em 20 de novembro de 1997: Tim descobriu que o povo da Baixada Fluminense tinha montado uma exposição sobre João Cândido, e resolvemos aproveitar o dia de Zumbi (como era chamado o 20 de novembro), pra falar de João Cândido, herói negro menos conhecido.
Tim não gostava do circuito jornalístico da zona sul. Criado no pé do Morro da Mangueira, negro, filho de militar, ele já era um jornalista consagrado naquele tempo, mas não esquecera suas origens. “Eu gosto de falar sobre o meu povo, eu gosto de matéria com o pé no chão”, ensinava ele para este paulistano branquela, durante as sessões de muito chopp no Calamares ( misto de boteco e restaurante, no Jardim Botânico, ao lado da Globo do Rio).
Vocês sabem que a turma que hoje está na direção da Globo não gosta muito de mim. E eu não gosto deles. Mas, o pessoal que cuida do site do "JN" não deve saber disso. Hoje, achei até engraçado: na primeira página do "JN", na internet, há um link pra matéria que eu fiz com o Tim Lopes há onze anos, sobre João Cândido. É aquela coisa curta, de telejornal. Ainda assim, foi uma vitória botar no ar. Na época, vibramos muito: Tim, eu e a Cristina Aragão (ótima editora que hoje cuida do “Arquivo N”, da Globo News). O link pra matéria está aqui:Dia da Consciência Negra
Confesso que fiquei emocionado quando li, hoje, uma outra notícia no jornal: Lula inaugurou um monumento a João Cândido no porto do Rio. Até hoje, o único monumento a ele, como dizia Aldir Blanc, eram as “pedras pisadas do cais”. Agora, o Almirante Negro ganhou uma estátua. O presidente da República estava lá , na Praça 15, e disse: "precisamos aprender a transformar nossos mortos em heróis". Isso não é pouco! Basta dizer que até hoje a Marinha rechaça a figura de João Cândido.
O Centro de Comunicação Social da Marinha disse ao repórter Mario Magalhães, da "Folha", que não reconhece "heroísmo nas ações daquele movimento", classificado como um "triste episódio da história do país".
Triste ou vergonhoso?
Registros da época dão conta que 2 mil marinheiros se sublevaram contra a prática de punir com chibatadas os militares considerados indisciplinados. A revolta durou 4 dias e terminou com vários mortos, incluindo alguns oficiais. Será que foi isso que a Marinha classificou como "triste"? Ou "triste" era o fato de os marinheiros serem punidos com chibatadas?
Expulso da Marinha, João Cândido terminou seus dias na pobreza; dizem que vendia peixe no cais do Rio para ganhar uns trocados. Agora, ganhou um monumento.
Representantes de nossa Armada não foram à inauguração da estátua. Isso, sim, eu acho muito triste! Mostra que mentalidade ainda comanda as Forças Armadas no Brasil. Mas, azar o dessa gente, que ainda carrega nas costas essa história vergonhosa.
João Cândido, esse carrega uma história de heroísmo e glória!
Viva o Almirante Negro! Viva Tim Lopes! Viva Aldir Blanc! Viva nossa Brava Gente Brasileira.
*a letra original falava em “almirante” negro; mas, como os tempos eram de ditadura, a censura obrigou Aldir Blanc e João Bosco a trocar “almirante” por “navegante negro”.
Neste link, você encontra a letra original, e a que foi censurada pelos militares.
Quinta-feira, Março 05, 2009
Folha de São Paulo, um jornal a serviço da ditadura
A pedido do Aton Fon, Justo produziu o vídeo acima. Veja também "É possível contar um monte de mentiras dizendo somente a verdade"
Insanidade, crueldade ou princípios cristãos? O caso da menina grávida de gêmeos aos 9 anos
Católicas pelo Direito de Decidir manifestam-se sobre o caso da menina pernambucana de nove anos, grávida por estupro de seu próprio padastro
A gestação foi interrompida no dia 04 de março último, às 10h da manhã, seguindo o protocolo do Ministério da Saúde que permite abortamento em casos de gravidez de risco ou quando a gestante foi vítima de estupro, ainda que o aborto continue sendo crime no país. O caso da garota pernambucana se enquadrava nos dois casos, já que a gravidez de fetos gêmeos também colocava sua vida em risco, pois a menina pesa apenas 36 kg e mede 1,36 m. Por seu muito pequena, ela não tem estrutura física para suportar a gravidez de um feto, muito menos de dois. É de se imaginar, ainda, os danos psicológicos a que seria submetida se fosse obrigada a levar essa gravidez a termo.
Para nossa surpresa - e indignação!-, entretanto, houve uma intensa movimentação de militantes religiosos contra a interrupção dessa gravidez tão perigosa, sob todos os aspectos, para essa pequena criança de nove anos. Até mesmo ameaça de excomunhão houve! Sob o argumento da defesa da vida, essas pessoas não se importaram em nenhum momento nem com a violência já sofrida por ela, nem com a real possibilidade que havia de a menina perder a própria vida. Se essa criança - que tem existência real e concreta, com uma história de vida, relações pessoais, afetos, sentimentos e pensamentos, enfim -, se essa menina não merece ter sua vida protegida, trata-se de defender a vida de quem? De uma vida em potencial ou um conceito, uma abstração? Quem tem o direito de condenar à morte uma pessoa em nome de se defender uma possibilidade de vida que ainda não se concretizou e não tem existência própria e autônoma?
Pensamos que se configura como pura crueldade essa intransigente defesa de princípios abstratos e de valores absolutos que, quando confrontados com a realidade cotidiana, esvaziam-se de sentido e, principalmente, da compaixão cristã. Seria possível imaginarmos o que Jesus Cristo diria a essa menina? Seria ele intolerante, inflexível e cruel a ponto de dizer a ela que sua vida não tem valor? Ou ele a acolheria gentilmente, procuraria ouvir sua dor e a acalentaria em seu sofrimento? Será que ele defenderia que ela sofresse mais uma violência ou usaria sua voz para gritar contra os abusos que ela sofreu?
Felizmente, a menina pernambucana pôde, graças ao respeito a um direito democraticamente conquistado, diminuir os danos das inúmeras violências que sofreu e a gravidez foi interrompida. Assusta-nos, porém, saber que, ao contrário dessa menina, outras tantas vidas têm sido ceifadas em nome de princípios intransigentes, duros, violentos e nada amorosos. Assusta-nos o desprezo pela vida das mulheres. Assusta-nos que suas histórias sejam descartadas, que sua existência na Terra esteja valendo menos do que a crença autoritária de algumas poucas pessoas.
Para que a nossa democracia seja efetiva, as pessoas precisam ter o direito real de escolher. Por isso, defendemos que as políticas públicas de saúde reprodutiva e os direitos reprodutivos já conquistados sejam garantidos. Além disso, lutamos pela legalização do aborto, para que as mulheres que assim desejem, possam levar qualquer gravidez até o fim. Mas que as que não o desejam, não sejam obrigadas a arriscar suas vidas, ou mesmo morram, por se pautarem por valores éticos distintos.
São Paulo, 05 de março de 2009
Carta aberta de Católicas pelo Direito de Decidir em solidariedade ao Pe. Luiz Couto, afastado de suas funções de sacerdote por defender o uso da camisinha:
Prezado Pe Luiz
Nós, da equipe de Católicas pelo Direito de Decidir, queremos manifestar nossa solidariedade, nesse momento em que a hierarquia da Igreja quer calar sua voz. Reconhecemos em seus posicionamentos a manifestação do bom senso e da construção de uma Igreja na qual as pessoas sejam mais fraternas e vivam de fato em comunhão.
Sabemos que a doutrina católica no campo da moral sexual, tem sido historicamente motivo de divergência entre fiéis e a própria hierarquia. Embora, muitos/as vivam em desacordo com essa doutrina, poucos são aqueles que têm coragem de levantar uma voz pública.
Sabemos também que a fé na mensagem evangélica tem uma medida muito mais generosa do que o seguimento a questões disciplinares dessa natureza.
A mesma hierarquia que pune seus quadros quando discordam do pensamento oficial, é frequentemente complacente com situações graves que acontecem no interior da própria igreja, como são, por exemplo, os inúmeros casos de pedofilia e abuso sexual provocados por sacerdotes.
Conte portanto, com o nosso apoio e de um número crescente de setores religiosos do catolicismo que há tempos, sem deixar de afirmar sua fé, desobedecem princípios morais abstratos, distantes daquilo que constitui o núcleo do Evangelho: o amor, o respeito à dignidade de todas as pessoas, justiça e liberdade.
Solidariamente,
Católicas pelo Direito de Decidir
www.catolicasonline.org.br
cddbr@uol.com.br
(11) 3541-3476
"É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade"
Ao menos entre os historiadores respeitáveis de que tenho notícia revisionismos carregam uma conotação pejorativa, na medida em que os revisionistas retomam as fontes (se assim o fazem) para negar fatos, mesmo trabalhando com dados. Clássicos são os anti-semitas que negam o holocausto, ou os judeus que negam a Nakba palestina. Agora parece que estamos inaugurando o revisionismo tupiniquim: "não houve ditadura no Brasil". Torturas, assassinatos, prisões, censura, exílios e toda a ordem de ações de um regime que tomou o poder a partir de um golpe militar e governou por meio de Atos institucionais com cassações, fechamento de sindicatos e uma série de arbitrariedades é tudo miragem, delírio da esquerda 'petralha', como diria o suprassumo do neocon o tio 'rei' da Veja (mas não perca seu tempo).
Professora Benevides tem toda razão ao usar o adjetivo 'insidioso' pra qualificar o tipo de revisionismo da Folha, ele é perigosíssimo mesmo, é cínico e mentiroso, relativiza tanto um acontecimento que acaba por recriá-lo à sua imagem e semelhança.
Villa é professor da UFScar é mais velho que eu, quando nasci com o golpe, ele estava entrando na escola. Tem aasim, ao menos 7 anos de vantagem para lembrar sobre o que é viver e ser educado em uma sociedade sustentada pela premissa "Brasil ame-o ou deixe-o" (ou seja deixado à força). Não há justificativa para um sujeito que bem-informado, com formação na área de História e que viveu os anos de chumbo negar a fatura que pagamos até hoje pela censura e pela perseguição política dos anos de chumbo.
Pode-se fazer qualquer coisa com estatísticas, mas não se pode afirmar que houve expansão do ensino superior no Brasil e esquecer-se de que grande parte da intelectualidade acadêmica deste país foi calada à força, que fazer pesquisa naquela época era dificílimo, que muitos bons profissionais foram aposentados compulsoriamente.
Eu realmente espero que o neocon Villa com seu revisionismo insidioso não tenha muitos adeptos na academia. Mas insisto mais uma vez, aos historiadores que me lêem: já passou da hora da ANPUH se posicionar formalmente diante deste episódio. O malabarismo narrativo do Villa, ao meu ver, é auto-explicativo desta necessidade.
Associem a campanha irresponsável da Folha buscando antecipar as eleições de 2010, a onda conservadora no STF, no MP com a criminalização do MST e qualquer coisa que cheire a movimento social e nos vejo caminhando a passos largos para a história repetida como farsa, como diria o velho barbudo.
Para encerrar reproduzo o mail que recebi hoje do meu querido amigo Aton Fon, a quem a 'ditabranda' da Folha suprimiu 11 anos de vida, os melhores de sua juventude, além das torturas sofridas que, felizmente, sua doçura e caráter não permitiram que ele perdesse a ternura com a barbárie sofrida.
Leiam o artigo do Villa e relembrem da propaganda aí abaixo, troquem o texto de Hitler pela ditabranda do Villa/Folha e me digam: não foram feitos um para o outro?
"Lembrei de uma propaganda da própria Folha em que mostra a foto do Hitler com grande aproximação, e ia fazendo um afastamento enquanto falava de realizações econômicas do governo nazista, para terminar com a seguinte frase: 'É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade'.
Pedi a um amigo meu para fazer um vídeo a partir desse artigo do Villa. É o roteiro perfeito!!" Aton Fon
Quarta-feira, Março 04, 2009
Agregador de informações sobre o ato contra a ditabranda
Os técnicos Guto Carvalho e Fernando Ike subiram ontem na rede um agregador de notícias sobre a ditabranda.
Isso significa que todas as pessoas em blogs e no Twitter, que usarem o termo ditabranda, serão indexados em uma página só que fica no endereço http://ditabranda.nasretinas.com.br
Como era necessário um domínio para criar este planeta agregador, cedi o meu, depois de consultar Eduardo Guimarães, idealizador do ato, e Conceição Oliveira.
O agregador organiza em um local só os textos publicados e cria links para os blogs, democratizando e levando usuários da rede a conhecerem outras fontes de notícias alternativas.
Para a leitura do Twitter, sempre que alguém se referir ao ato, utilizem a tag #ditabranda. Imediatamente o post no Twiiter também será agregado na página.
Nos blogs é importante que as pessoas usem as tags nos posts. Detectamos que muitos blogueiros não utilizam as tags em seus posts. Isso dificulta que agregadores e sites como o Google indexem as informações. Sem tags, é mais difícil que outras pessoas encontrem as informações.
A fonte da charge é o Saraiva13 que por sua vez foi retirada do Brasil Brasil (ambos blogs listados aqui
Um pouquinho de beleza: Monangambé

O poeta António Jacinto quando jovem.
Monangambé
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras
- "Monangambéé...'"
António Jacinto (Poemas, 1961)
Terça-feira, Março 03, 2009
o MANIFESTO DOS SEM-MÍDIA PARA O ATO CONTRA A DITABRANDA
Movimento dos Sem Mídia
Pela Justiça e pela Paz no Brasil
No âmbito desse repúdio, cumpre à nossa entidade tornar públicos os pontos daquele texto jornalístico que julgamos perniciosos e ofensivos às vítimas que tombaram e às que sobreviveram àquele regime de força.
O editorial do jornal Folha de São Paulo intitulado “Limites a Chávez” foi publicado em 17 de fevereiro deste ano. O veículo de comunicação exerceu um direito óbvio e que não se questiona, o direito de opinar. Criticar o resultado do plebiscito recente na Venezuela ou emitir qualquer outra opinião, portanto, jamais estimularia nossa Organização a protestar de forma tão solene e veemente se não fosse a tentativa de revisão histórica que afirmou que o regime dos generais-presidentes teria sido “brando”, pois tal afirmativa constituiu-se em dolorosa bofetada nos rostos dos que sobreviveram, em verdadeiro deboche dessas vítimas expresso por meio do termo jocoso “ditabranda”, corruptela do único termo possível para identificar aquele regime, o termo ditadura.
Disse a Folha de São Paulo: “As chamadas "ditabrandas" – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”.
O perigo e a afronta residem no eufemismo. Com efeito, o diabo está nos detalhes. Diga-se essa barbaridade de “acesso controlado à Justiça” aos que ficaram pelo caminho da máquina opressora do Estado brasileiro de então, aos que sofreram tudo que foi acima enumerado. Diga-se a eles que tiveram acesso “controlado” para buscarem reparação pelas violências que sofreram e das quais há provas que, no dia incerto em que a Nação decidir higienizar seu passado, serão mais do que suficientes para condenar os criminosos, muitos dos quais ainda caminham livremente por essa mesma Nação. Achem um só que tenha encontrado guarida e reparação na Justiça, à época, pelas violências que sofreu. E mais: diga-se isso aos que não sobreviveram à sanha assassina daquele Estado ditatorial.
No conceito de nossa Organização, conceito este amparado no melhor Direito Universal, o que fez o jornal em questão foi dizer “brandos” aqueles crimes, abrindo espaço para a proliferação de mentalidades que ainda defendem publicamente métodos subumanos de “controle” da Cidadania e das próprias vidas dos cidadãos.
Dizem os defensores da usurpação do Estado Democrático de Direito que ocorreu naquele período obscuro de nossa história que havia então uma “guerra” no Brasil. Uma guerra em que tantos jovens idealistas, muitas vezes pouco mais do que imberbes, sucumbiram defendendo a Constituição, por sua vez violentada pelos desejos de poucos, que estupraram o desejo da maioria que delegou o Poder a um governo constitucional que a ditadura derrubou por meio de golpe de Estado.
O Brasil daquele 1964 tinha um governo eleito pelo voto. Não foi destituído por um processo democrático que se valeu dos mecanismos constitucionais que existiam e que poderiam ser usados se os que se opunham àquele governo acreditassem que tinham representatividade popular para fazer tais mecanismos prevalecerem. Não. Por não estarem amparados pela maioria dos brasileiros, os usurpadores do Poder de Estado legalmente constituído em eleições livres e democráticas trataram de usar a violência, a sedição e a ilegalidade para fazerem prevalecer suas visões, desejos e interesses minoritários, impondo-os sobre uma maioria que mais tarde seria amordaçada e ameaçada, de forma que não pudesse contestar a ruptura do Estado de Direito.
Equiparar o Estado àqueles que os defensores do regime de exceção diziam ser “terroristas”, era, é e sempre será uma aberração jurídica, para economizar palavras. Não cabe no conceito de democracia, de Estado de Direito, a hipótese de agentes do Estado imporem suplícios físicos desumanos e criminosos àqueles dos quais desconfiavam de que não compartilhavam suas idéias totalitárias.
Nem as poucas opiniões contrárias que o jornal permitiu que fossem vistas em suas páginas opinativas, sempre de forma tão “controlada” quanto afirmou antes que fazia a sua “ditabranda”, puderam minorar a dor dos sobreviventes dos Anos de Chumbo, e tampouco fizeram a justiça necessária à memória das vítimas fatais da ditadura cruel que vigeu naquele período triste da história deste País.
Tanta injustiça, desrespeito, deboche e ameaça às instituições democráticas, porém, encontra “explicação” quando se analisa o papel exercido pelo jornal contra o qual protestamos durante boa parte do tempo em que a ditadura militar oprimiu esta Nação.
Em obra literária de autoria de um colaborador desse meio de comunicação, do jornalista Elio Gaspari, intitulada “A Ditadura Escancarada”, figura acusação ao jornal Folha de São Paulo que este jamais rebateu de forma adequada e pública, a acusação de que cedeu veículos à sua “ditabranda” para o transporte de presos, muitos dos quais poderiam estar sendo levados para a morte.
Mas é em editorial desse grupo empresarial publicado em 22 de setembro de 1971, no auge da ditadura, que fica provado o colaboracionismo de um com a outra. Diz aquele editorial pretérito tão nefasto quanto o editorial mais recente, sendo ambos do grupo empresarial de comunicação da família Frias:
“Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca ouve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social - realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. O país, enfim, de onde a subversão - que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete o sentimento deste." Octávio Frias de Oliveira, 22 de setembro de 1971”.
Apesar desse documento histórico com dia, mês e ano, e que pode ser encontrado nos arquivos desse grupo empresarial de comunicação, apesar desse documento que mostra faceta do jornal Folha de São Paulo que ele teima em não reconhecer e que certamente não quer ver conhecido por seu público atual por ter vergonha de seu passado, sua alegação contemporânea é a de que “combateu” a ditadura que aquele editorial, assinado por seu proprietário de então, qualificava como “séria, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular”.
Não se consegue entender como a Folha de São Paulo, então, media o “apoio popular” à ditadura, pois não havia eleições livres ou mesmo pesquisas sobre a popularidade dos ditadores. Era, pois, uma invenção do jornal, tão mentirosa quanto a de que a ditadura estaria “levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social”. Invenção mentirosa porque, à luz do conhecimento histórico daquele período, o que se sabe é que o que gerou foi concentração de renda, ou seja, empobrecimento dos mais pobres e enriquecimento dos mais ricos.
No dia em que o editorial profano mais recente foi lido pelos Sem Mídia, o que nos veio às mentes foram as palavras imortais do ativista negro norte-americano doutor Martin Luther King que pregaram, há tantas décadas, a conduta dos democratas diante dos violadores da democracia: “O que preocupa não são os gritos dos maus, mas o silêncio dos bons”. E é por isso que estamos aqui hoje, porque nossa Organização não aceita e não ficará inerte assistindo os defensores ardorosos da ditadura de ontem tentarem vender a mentira de que ela foi menos do que assassina, imoral e terrivelmente dura, tendo sido tudo, menos “branda”.
São Paulo, 7 de março de 2009
Eduardo Guimarães
Presidente
Segunda-feira, Março 02, 2009
Blogueiros em ação em repúdio à 'ditabranda'

A maioria dos blogueiros se dão ao trabalho de criar seu próprio texto, de argumentar com seus leitores, mesmo não estando em São Paulo, uma beleza constatar isso.
Vou listar neste post até o dia 07 todo mundo que encontrar por aí que informou a seus leitores sobre o ato e se vc divulgou e não está aqui, por favor, deixe o endereço do seu blog nos comentários que eu subo para cá. E os leitores do Maria Frô façam um passeio por esta blogosfera solidária, não vão se arrepender, tenho tido gratas surpresas.
abraços
Conceição Oliveira
BLOGOSFERA CIDADÃ
ALTAMIRO BORGES
BISCOITO FINO
BLOG DO MELLO
BOLETIM MINEIRO DE HISTÓRIA
BRASIL, BRASIL
BUTUCA LIGADA
CABRESTO SEM NÓ
CÃO UIVADOR
COMUNIQUE-SE
DIALÓGICO
DO TIRA GOSTO AO PRATO PRINCIPAL
EQUERDA FESTIVA
ESTADO ANARQUISTA
GRAZAZÁ
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LETRAS SORTIDAS
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O ESCRIBA
O ESQUERDOPATA
ÓLEO DO DIABO
OLHOS DO SERTÃO
PEDRO AYRES
PRÁTICA RADICAL
SARAIVA 13
TITA FERREIRA
TUDO EM CIMA
VERMELHO.COM
XÍCARA DE CAFÉ
Domingo, Março 01, 2009
ATO EM REPÚDIO À DITABRANDA: DIA 07/03, ÀS 10 HORAS, NA BARÃO DE LIMEIRA EM FRENTE À FOLHA

Você me prende vivo/ Eu escapo morto.
De repente, olha eu de novo/ Perturbando a paz
Exigindo o troco."
(Pesadelo - Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)
Caros,
Como sabem o editorial da Folha de São Paulo do dia 17/02 tripudiou sobre a memória de todos que foram torturados, abatidos, perseguidos no Brasil, durante o regime militar.
A Folha criou um ditatômetro para afirmar em um revisionismo insidioso que nossa ditadura foi branda. Diante dos protestos de inúmeros sobreviventes e, particularmente, após as cartas em repúdio remetidas pela professora Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato contra este neologismo absurdo, a Folha, de maneira cínica e desrespeitosa, publicou uma nota que não só reafirmava o seu revisionismo como buscou fazer chacota aos respeitáveis professores e a suas histórias de vida.
Cabotinos e Tacanhos são estes neocons que dominam a grande imprensa, resta-nos mobilizarmos contra a barbárie.
É importantíssimo que ALÉM DE ASSINAR A PETIÇÃO DE REPÚDIO À FOLHA E EM SOLIDARIEDADE AOS PROFESSORES DESRESPEITADOS POR ELA (http://www.ipetitions.com/
O presidente do movimento dos sem mídia Eduardo Guimarães (www.edu.guim.blog.uol.com.br), jornalistas decentes que não cederam à barbárie, estudantes e professores fazem um apelo a todos que compareçam na manifestação do dia 07/03 e que tragam seus filhos, companheiros/as, amigos, que convoquem seus vizinhos, independente de que partido se filiem ou simpatizem, este é um movimento de CIDADANIA.
Seja bem-vindo/a à minha casa!
Uso este espaço para campanhas de projetos políticos e sociais nos quais acredito.
Como diz o filósofo Renato Janine Ribeiro: “A democracia é maior que nós” (ou pelo menos deveria ser).
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”
(Nelson Mandela).
Quem sou eu
- Ler o Mundo História
- Coleção de Referência para o ensino da História africana, afro-brasileira e dos povos indígenas de acordo com a avaliação do MEC
MAIS CAMPANHAS CIDADÃS, APÓIE TAMBÉM!
Impeachment do Presidente do STF, Gilmar Mendes, assine a petição
Conheça o texto do Estatuto da Igualdade Racial
Assine a petição de apoio ao Estatuto da Igualdade Racial
Conheça e assine a petição pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo
Conheça, assine e divulgue o manifesto em apoio da manutenção do PROUNI
Conheça e assine o manifesto contra a criminalização do MST
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CAMPANHAS VITORIOSAS:
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