Quarta-feira, Abril 30, 2008

Cultura da Repetência II

Por uma escola contemporânea

Para Maria do Pilar Lacerda , secretária de Educação Básica do MEC, “não adianta reprovar, é preciso ensinar”

A dívida social do Brasil com a educação é imensa e isso, por si só, seria motivo suficiente para assegurar que fossem investidos na área muito além do que os atuais 3,2% do PIB. Mas, mesmo que isso de fato acontecesse, seria preciso mais do que dinheiro para garantir qualidade ao sistema público de ensino.

Para a professora Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, existe um tripé que está por trás de todo bom gestor de educação, seja em qual instância de governo ele atue: um projeto pedagógico focado na aprendizagem, boa capacidade administrativa e perfil político para negociar com as diversas lideranças da sociedade. Formada em História, Pilar dedicou sua carreira à educação pública. Na rede municipal de Belo Horizonte, deu aulas, dirigiu escolas de ensino básico e comandou a Secretaria Municipal de Educação entre 2002 e 2007. Em junho deste ano, Maria do Pilar assumiu a Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC).

Nos últimos dois anos, Pilar também presidiu a União Nacional dos Dirigentes Municipais da Educação Básica (Undime), órgão que desempenha um papel muito importante nos processos de discussão e formulação de políticas de educação, já que dela fazem parte todos os secretários municipais de educação. Para assumir sua nova função no MEC, ela também anunciou seu desligamento da Undime durante o fórum nacional da entidade, realizado em junho em São Luís (MA). Foi lá que ela concedeu a seguinte entrevista à Carta na Escola na qual aborda temas centrais da educação brasileira, como o desempenho das secretarias municipais e sua importância nas políticas nacionais, a administração dos recursos, formação de professores e a necessidade de dialogar e estar sempre aberto para as diferenças.

Carta na Escola: Qual o perfil dos secretários municipais de educação do Brasil?

Maria do Pilar Lacerda: O País tem 5.562 municípios, a formação dos dirigentes é muito heterogênea, com escolaridade variada. Em geral, são quase todos professores da rede pública, com muito tempo de sala de aula. As capitais têm dirigentes mais profissionalizados, talvez porque os prefeitos percebam a complexidade de gerir a educação de uma cidade. Não é regra, mas no interior ainda existe bem forte a relação de compadrio, com familiares do prefeito em cargos determinantes. De toda forma, os secretários municipais de educação são escolhidos sempre por critérios políticos. Alguns deles exercem o cargo por três ou quatro gestões. Ou seja, fazem um trabalho tão bom que muda o prefeito, mas o secretário continua. O difícil mesmo é quando há muita troca de secretário numa mesma gestão ou quando o secretário abandona políticas eficientes que foram desenvolvidas por seu antecessor. Aí, a cidade volta ao patamar zero.

CE: E quando isso acontece, pode comprometer parte da formação básica de uma geração?

MPL: Uma parte ou ela por inteiro. A secretaria de Educação de um município é muito importante para atender à demanda social da cidade e garantir que os primeiros anos dos meninos na escola tenham qualidade. Não se tem um ensino médio de qualidade se não houver uma educação fundamental de qualidade. E vice-versa. Está tudo interligado.

CE: Quais são as principais dificuldades de uma secretaria municipal de Educação?

MPL: Em relação à educação infantil, além da necessidade de se criar vagas, é necessário pensar um modelo, pensar em um financiamento, porque até este ano não existia e só ficou viável com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). E, com exceção de pouquíssimos municípios que não têm área rural, a questão do transporte escolar é muito complexa. O Brasil é um país muito grande. Tem lugares no Norte, por exemplo, em que a criança demora três horas dentro de um barco para chegar à escola. E não tem como ser diferente. São muitas as cidades que têm 20 mil habitantes e 90 escolas, com 10 ou 20 alunos cada, ou que transformam 20 escolas em uma só. O dinheiro para o transporte vem do MEC, pelo Salário Educação. Mas, por exemplo, o município transporta o aluno da rede estadual e esta repassa um valor insuficiente. É uma relação muitas vezes atritada.

CE: Uma das principais reclamações das secretarias é a falta de autonomia para gerir seus recursos.

MPL: Sim, é claro. Uma boa secretaria depende de um bom prefeito. Sem o apoio dele, fica difícil. Agora, o orçamento da educação cria uma ilha de prosperidade dentro da prefeitura, que é obrigada a destinar, pela Lei de Diretrizes Básicas e pela Constituição Federal, no mínimo, 25% da receita de impostos e transferências. Em Belo Horizonte, por exemplo, são 30%, o que significa dizer, são 720 milhões de reais para a educação, enquanto a assistência social fica com 20 milhões ou 30 milhões de reais, por exemplo. No entanto, as pessoas começam a querer fazer projeto pensando no recurso que a educação tem, o que faz com que alguns secretários tenham de dividir ou usar esse recurso de maneira indevida. A Secretaria de Educação tem uma receita carimbada, e essa vinculação orçamentária é uma conquista social. Tanto que alguns municípios que fazem o uso correto desses recursos conseguem fazer coisas que outros não conseguem. Quem tem uma arrecadação própria e forte de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Imposto Sobre Serviços (ISS) ou Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) tem recursos suficientes para, sem ajuda federal, fazer uma política forte de educação infantil.

CE: Quais são, na sua opinião, exemplos de usos incorretos do orçamento da educação?

MPL: Gastar muito mais na secretaria do que com o pessoal da escola. Ou gastar mais com mobiliário da escola do que com a biblioteca, por exemplo. Eu sempre digo que o orçamento é fundamental e precisa aumentar, porque ainda não é suficiente para abater a dívida social que o Brasil tem com a educação. Mas só orçamento não resolve o problema. Se não houver um projeto pedagógico consistente, esse dinheiro vai para o ralo. Com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), foi possível localizar cidades com orçamento grande e baixo resultado de aprendizagem. É preciso fazer a discussão da autonomia do secretário em cima do projeto que essa cidade tem. Só assim as compras e aquisições ganham sentido.

CE: E os dirigentes estão preparados para isso?

MPL: Desde 1999 o MEC tem um projeto de formação de secretários municipais, justamente porque falta qualificação. Não é fácil ser secretário de educação, não é para qualquer um. Requer conhecimento específico de orçamento, de funcionamento da máquina, convicções pedagógicas, um bom nível de informação e de leitura. As pessoas reclamam que tem muito trabalho, muito problema. E outra coisa: tem de ser político. Eu encontro, às vezes, secretários que dizem não gostar de política. Eles estão no lugar errado, porque estar numa secretaria é fazer política no bom sentido: conversar com pais, igrejas, organizações não-governamentais, vereadores, professores, diretores, enfim, ouvir as diferentes forças.

CE: Qual foi o legado da sua gestão à frente da Undime?

MPL: O MEC, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a Undime são as três forças que fazem a política pública acontecer. Da parte da Undime, acho que criamos uma capacidade de conversar com as diferenças. A diretoria era muito plural. São 26 presidentes estaduais, cinco regionais, além da diretoria executiva. A gente dialogou com diversas frentes e trabalhou de maneira suprapartidária. Os diretores são de diversos partidos e campos da política. Tivemos a sorte de ter um ministro com uma capacidade de escuta sensacional.

CE: É dessa forma que a senhora pretende comandar a Secretaria de Educação Básica?

MPL: O que me seduziu para aceitar o convite de dirigir a Secretaria de Educação Básica foi ter visto o trabalho do ministro Fernando Haddad antes. Temos muito trabalho pela frente em Brasília. E o que ele quer que eu faça é isso, ir para as ruas, ouvir as escolas, as diretoras, as secretárias. Parece simples, mas não é. Não é só em educação, mas, principalmente nesta área, as pessoas chegam com uma idéia pronta e, depois de oito horas de reunião, não mudam de opinião. É um atestado de burrice, mas é muito comum ter um certo ciúme de projetos alheios e resistências à mudança.

CE: Para onde está caminhando o foco de discussão da educação básica?

MPL: Com os últimos resultados de avaliação (Prova Brasil e o Saeb), começa a haver uma discussão muito forte sobre a aprendizagem. Enfim, a discussão sai da mesmice do fracasso escolar e da indisciplina. E os gestores de políticas públicas educacionais voltam-se para a alfabetização e o currículo.

CE: A avaliação faz parte do processo de aprendizagem. Até que ponto o modelo de progressão continuada assegura que os alunos, de fato, aprendam?

MPL: As pesquisas mostram que quanto maior o número de reprovações, maior é o fracasso escolar daquela criança. Logo, deveria entrar na cabeça das pessoas a idéia de que não adianta reprovar, tem de ensinar. A Sônia Mograbi (Secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro) é muito corajosa, o projeto do Rio é moderno. O Brasil é um dos países com maiores índices de reprovação do mundo, quase 35%. Se reprovar educasse, seríamos uma nação de gênios. Tenho para mim que as críticas, reproduzidas pela mídia à progressão continuada fazem parte de uma teoria conspiratória: sempre existe um desejo privatizante. No fundo, querem é dizer: a escola particular não é assim. Só que, no caso do Brasil, isso não é verdade. Os exames mostram. O ministro Fernando Haddad sempre diz: ‘Nós gastamos mais ou menos mil reais por ano com o aluno do ensino fundamental, enquanto a rede privada gasta mil reais por mês, e, se você olhar o resultado, a gente faz muito melhor’. A relação custo–benefício é melhor e os resultados também.

CE: A crescente adoção do material didático apostilado na rede pública tem a ver com a ausência de projeto pedagógico das secretarias, municipais e estaduais?

MPL: Os municípios recebem o livro didático do MEC, que é o maior comprador de livros do mundo. E quem os escolhe são as escolas. Pelo Programa Nacional de Biblioteca Escolar é possível também adquirir os paradidáticos e livros de literatura. Agora, a apostila facilita o trabalho e isso é muito perigoso, porque ela traz uma receitinha e é uma fonte só de consulta. O problema é vir uma apostila com o conteúdo errado, e o professor não ter formação para criticar. Gosto de escolas que guardam livros diferentes na biblioteca. Mas isso depende muito da formação dos professores. O professor com formação mais frágil precisa de uma receita. O que a gente tem de fazer é investir na formação do professor para que ele tenha mais autonomia e guarde a receita na gaveta.

CE: A educação integral também vem ganhando espaço na pauta de políticas públicas. Qual o modelo mais coerente para o Brasil?

MPL:Não há chance de ampliar a carga horária nas escolas públicas brasileiras com aulas das 7 horas às 17 horas no mesmo prédio. Defendo mais tempo na escola, mas não exatamente dentro da sala de aula. A média hoje de aula, em nível nacional, é de duas a três horas, e é insuficiente. Mas defendo a inclusão e não a reclusão. Deixar os meninos reclusos dentro de um prédio, os alunos dessa geração, que precisam experimentar para aprender, é uma tortura. Eles têm de estar em ambientes de aprendizagem, que são múltiplos: uma biblioteca, um parque, um pátio, uma praça, um cinema, um clube. Eu acredito num modelo de escola integral que se articule com a comunidade e resignifique os espaços da comunidade, melhorando os espaços urbanos, num processo muito rico. E mais: é preciso fazer a comunidade entender o que é a aprendizagem, fazer esta discussão internamente, um aprendizado mais contemporâneo. Não tenho dúvida de que temos de investir em ampliação do tempo em escola, mas temos de abandonar a idéia da escola em tempo integral.

A cultura da repetência em debate I

A Cultura da repetência em debate

por Miguel G. Arroyo, professor emérito da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Professor de Pós-Graduação da PUC-MG, foi secretário-adjunto de Educação de Belo Horizonte entre 1993 e 1997.

Se a escola tenta se libertar da função segregadora da repetência, a sociedade lembra dos docentes que essa é sua função social: segregar, reprovar

Comecemos com uma indagação: por que está tão arraigada em nosso sistema educacional e em nossa sociedade a cultura da repetência e da reprovação? Por que um ritual tão persistente se incorporou em nossa cultura social, docente e escolar? As escolas, por décadas, têm insistido em reprovar altas porcentagens de crianças, adolescentes, jovens e adultos até da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O que é mais instigante é que a mídia, a sociedade e até as famílias exigem dos docentes e das escolas que reprovem. Por quê? Porque a reprovação e a seleção viraram um traço cultural incorporado em nossa tradição e nos valores sociais, daí a dificuldade de superá-la. As mudanças das culturas e dos valores coletivos são lentas, exigem tempo e determinação política.

Avancemos para outra indagação: superar a cultura de repetência e reprovação será um problema apenas dos docentes e das escolas? Não. Porque a cultura da repetência e da reprovação tem raízes profundas na nossa cultura política, está arraigada em nossa formação social. Dados persistentes mostram que os reprovados e segregados são em sua maioria os filhos e as filhas dos setores populares. Os índices de reprovação e repetência concentram-se entre crianças, adolescentes e jovens pobres e negros das periferias urbanas e dos campos, os mesmos coletivos reprovados na sociedade ao longo de nossa formação socioeconômica, política e cultural.

Os docentes e as escolas não inventaram a reprovação desses coletivos, apenas introjetaram e reproduziram a cultura social e política que, por séculos, vem reprovando e segregando esses coletivos populares. A quase universalização da escolarização fundamental não significou a sua democratização porque os avanços políticos continuam convivendo com processos retrógrados de segregação e seletividade social. Neste avanço limitado da cultura democrática, espera-se que o sistema educacional, sobretudo público, continue apegado a velhos processos de seletividade, segregação e retenção dos setores populares. Em nossa cultura política o povo não será incluído enquanto não provar que é bom de bola, na escola e no trabalho. A desconfiança em relação ao povo é um traço perverso de nossa cultura política que exige da escola ser seletiva. Quando a escola tenta se libertar dessa função segregadora, a sociedade reage lembrando aos docentes que essa é sua função social, segregar, reprovar.

Em que momento estamos? O que há de promissor é que nesta década os movimentos sociais populares se fizeram presentes na área política, mais conscientes de seus direitos. O sistema educacional é pressionado pelos setores populares para ser mais democrático, menos segregado. A cultura de reprovação-repetência passou a ser um incômodo para as escolas e os docentes que se sentem incomodados com a reprodução de rituais segregadores e seletivos. Isso mostra que há avanços significativos no repensar e superar a cultura da reprovação-repetência.

Podemos dizer que a cultura democrática, anti-reprovação-retenção, está avançando mais nas escolas e em seus docentes do que na sociedade e na cultura política. Por que esse apego à cultura da reprovação escolar? O argumento é que se as escolas não reprovarem, a qualidade do ensino cai e os alunos não estudam. Supõe-se que a ameaça da reprovação será um mecanismo pedagógico eficaz para manter interesse pelo estudo e a disciplina; conseqüentemente, para a qualidade do ensino público.

A sociedade continua apegada a velhas referências pedagógicas: “A letra com sangue entra”, “a ameaça é a melhor pedagogia para educar filhos e alunos”. É através do medo da reprovação e da repetência que os alunos se interessarão pelas nossas lições ainda que não consigam despertar seu interesse?

Incorporar, não segregar
Os profissionais da educação básica aprenderam que essas “pedagogias” não funcionam. Nós, pais, também aprendemos que ameaçando e castigando não educamos. Por que a sociedade e a mídia continuam a exigir das escolas públicas que continuem ameaçando os alunos com a reprovação? Para que estudem e sejam disciplinados?

No momento em que os docentes caminham para novas pedagogias e didáticas mais inclusivas e menos segregadoras, mais interativas e democráticas, seria de esperar que a sociedade e a cultura política repensassem seu apego a ultrapassados processos de ensinar e educar. A segregação na sociedade e no sistema escolar é a reminiscência de um passado segregador dos setores populares e de seus filhos e filhas. Mede-se a qualidade da escola pela sua capacidade de incorporar e não de segregar os coletivos historicamente marginalizados. Aí se radica a qualidade democrática e social da escola pública. A reação vem logo: de que adianta passar os alunos se não aprenderam?

Essa é uma questão debatida nas escolas. Que alternativas profissionais estão sendo buscadas? As escolas dão maior centralidade ao conhecimento e ao respeito aos processos de aprender. A cultura da reprovação levava as escolas a pensar que ensinando boas lições e com bons métodos os alunos teriam de aprender. Não aprendendo, a solução seria reprová-los para ensiná-los de novo. Nessa lógica simplista faltava a preocupação por estudar os complexos processos em que a mente humana aprende. Uma professora comentava: “Depois que superamos a cultura da reprovação-repetência, passamos a estudar mais sobre os processos de aprender dos educandos”.

O avanço no conhecimento da mente humana e dos sofisticados mecanismos que entram nos processos de aprender está levando os profissionais do ensino-aprendizagem a ser mais cuidadosos e respeitosos com os alunos que eram classificados como tendo problemas de aprendizagem. Um caminho esperançoso para superar a cultura de reprovação-repetência acontecerá se os docentes se aprofundarem nas teorias da aprendizagem. Acompanhar com profissionalismo os educandos em seus processos de aprender em vez de reprová-los, retê-los e truncar esses processos.

Outra frente de avanço: respeitar os tempos de aprender, os tempos culturais, mentais, socializadores, os tempos de formação dos educandos. A teoria pedagógica mostra que a mente humana tem de ser respeitada em cada tempo humano: infância, adolescência, juventude, vida adulta. Conseqüentemente, será antipedagógico reter jovens e adolescentes nas primeiras séries porque suas mentes, culturas, vivências, não são mais de crianças. Se não aprenderam a ler e escrever quando crianças, a obrigação da escola será não retê-los com crianças, mas acompanhá-los para que aprendam com suas mentes, culturas e vivências de adolescentes ou de jovens e adultos.

O respeito aos tempos humanos sociais, culturais e mentais de aprendizagem de formação vem se tornando um consenso nos temas de aprendizagem. A cultura da reprovação contrapõe-se a todos os avanços das ciências e estudos da mente e aos avanços das teorias pedagógicas e de aprendizagem. Continuar defendendo a cultura da repetência e reprovação é, além de antidemocrático, anticientífico e antipedagógico.

Há mais um motivo forte para superar a prática de reprovação-repetência: os custos humanos pagos pelos educandos (as) reprovados e retidos. Crianças, adolescentes e jovens são separados de seus colegas, amizades são truncadas, quebram-se sua auto-imagem e sua auto-estima, sentem-se humilhados. Esses custos humanos em nada contribuem para facilitar e estimular os processos de aprender, de socialização e de formação humana dos educandos, que passam por processos de rupturas de suas identidades na sociedade. Identidades quebradas são mentes bloqueadas para aprender.
Defender a manutenção da repetência-reprovação é um indicador de conservadorismo político, científico e pedagógico.

SAIBA MAIS
Livros
ARROYO, M. Imagens Quebradas: Trajetórias e tempos de alunos
e mestres. Ed. Vozes, Petrópolis, 2004.

Será que os empresários tão interessados na educação pública vão bancar?

Será que os empresários tão interessados em dar as diretrizes para a educação pública no país estão dispostos a levar às escolas públicas gratuitamente as novas tecnologias?


Edição 25 (Carta na Escola)

Futuro do presente

Novos equipamentos prometem fazer uma revolução tecnológica na sala de aula. Saiba o que vem por aí e se prepare

A tecnologia e a interatividade vão tomar conta das salas de aula no futuro. Os tradicionais quadro- negro, giz e apagador serão aposentados e com isso o modo de dar aula também passará por mudanças. Professores e alunos contarão com uma lousa que ao mesmo tempo pode exibir pequenos vídeos com demonstrações de fenômenos climáticos, uma experiência de física ou ainda um mapa, que ao toque do professor em uma determinada região se amplia. Os equipamentos permitirão também um papel mais ativo dos estudantes, com os votadores e as pranchetas eletrônicas.

A sala de aula high tech, por enquanto, é apenas uma tendência. Os equipamentos são importados e, em geral, caros. Algumas instituições particulares e secretarias municipais de educação, no entanto, começam a implantar alguns dos equipamentos. As empresas vendem separadamente ou uma solução completa, caso da Positivo Informática, que cria um pacote específico, de acordo com a necessidade de cada escola. A seguir, saiba quais são os recursos tecnológicos que mais cedo ou mais tarde estarão presentes nas escolas.

LOUSA DIGITAL
Substitui o antigo quadro-negro. No lugar, uma lousa branca, conectada a um computador, sensível ao toque de uma caneta especial ou do próprio dedo do professor.
Nela funciona um software, com material didático para todas as matérias. O professor não precisará mais, por exemplo, desenhar um mapa, um corpo humano ou uma experiência de química. Todas essas imagens poderão aparecer na tela com um simples toque. A partir do conteúdo que o professor quiser detalhar, ele pode dar um zoom em determinada parte e complementar com mais alguma informação, abrindo um vídeo específico relacionado ao assunto ou acessando um site da internet na própria lousa.

VARINHA
Destinada a professores e alunos que não conseguem alcançar até o alto da lousa, tem 53 centímetros. Além de servir para apontar, tem as mesmas funções de comando da caneta.

VOTADOR
São pequenos aparelhos distribuídos aos alunos para que o professor possa, em um determinado momento da aula, saber se assimilaram o conteúdo.
Uma questão de múltipla escolha é formulada na lousa e os alunos
apertam no votador o botão da alternativa que consideram a correta. Em seguida, já aparece para o professor na lousa o resultado da enquete, com a quantidade de alunos que votaram em cada alternativa. Os dados da pesquisa interativa podem ser armazenados no computador do professor.

NOTEBOOK
Os notebooks podem ser utilizados por professores e alunos. Como são portáteis, podem ser usados na biblioteca, em casa ou na sala de aula, onde se integram às atividades do quadro interativo.

PRANCHETA (Tablet)
Do tamanho de uma folha A4, a prancheta sem fio é leve e pode
ser transportada facilmente pela sala de aula. Integrada ao quadro
interativo, os estudantes escrevem com a mesma caneta que o professor utiliza na lousa. O aluno pode fazer um desenho ou resolver exercícios na prancheta, enviar ao professor que, por sua vez, exibe na lousa digital o que foi feito pelo aluno, apontando algum erro que ele queira destacar para a turma.

MAX CÂMERA
Qualquer material impresso, como um livro ou documento antigo, ou ainda um globo terrestre, é colocado perante a lente da Max Câmera e a imagem aparece ampliada na lousa digital.
Projetado no quadro, o professor pode sublinhar ou destacar determinado trecho ou figura sem danificar o material, pois ele vai trabalhar, na realidade, com a imagem e não mais com o objeto. É possível, ainda, acoplar um microscópio à câmera.

CANETA
Entra no lugar do giz e do apagador. É ao mesmo tempo uma caneta e um mouse. O professor encosta no quadro, escreve e desenha. Para acionar qualquer recurso na lousa digital, basta apontar a caneta para a caixa de ferramentas, como se faz no computador normal. Com um toque, por exemplo, o professor pode gravar no computador todo o conteúdo da aula que foi passado na lousa.


Empresas que comercializam soluções para salas de aula interativas

Positivo Informática
Divertire
Educare
SmartBoard

Artista pró Darfur processada por Louis Vuitton

Leia alguma de minhas reflexões e saiba mais sobre a ação de outros artistas que se mobilizam pelas vítimas de campos de refugiados lendo a postagem: Quando a guerra a fome o luxo e o consumismo se encontram.

Estampa da campanha Simple Living arrecadou dinheiro para Darfur e um processo da Louis Vuitton

Louis Vuitton processa artista por campanha pró-Darfur

Da Redação (29/04/2008)

A grife Louis Vuitton está processando a artista plástica dinamarquesa Nadia Plesner pela campanha Simple Living, que arrecada fundos para o Divest for Darfur, iniciativa contra o genocídio na região sudanesa.

A campanha da artista consiste na venda de camisetas e pôsters estampados com a imagem de uma criança acuada e sem roupas, segurando uma bolsa que lembra as da marca francesa e um cachorrinho, em referência a Tinkerbell, o chihuahua da socialite Paris Hilton. O lucro obtido com os artigos, vendidos a 35 euros (camiseta) e 15 euros (pôster), é revertido para a campanha beneficente.

A Louis Vuitton notificou Nadia em meados de fevereiro, pedindo que ela acabasse com a distribuição e divulgação dos produtos Simple Living por infringir os direitos de propriedade intelectual da grife.

Com a resposta negativa da artista, que afirmou manter-se fiel à liberdade de expressão, publicando em seu site oficial a carta que recebeu e a resposta enviada, o grupo LVMH entrou com medidas legais contra a campanha em 17 de abril.

De acordo com entrevista de Nadia ao site TorrentFreak, o processo exige cinco mil euros a cada novo dia de venda de produtos, mais cinco mil euros a cada dia que a carta permanece publicada no site e outros cinco mil euros a cada dia que o site usar a palavra 'Louis Vuitton'.

Segundo Nadia, a ilustração foi inspirada pela constante cobertura na imprensa de "coisas sem sentido". "Já que não fazer nada, fora usar bolsas de grife e pequenos cachorros feios é suficiente para colocá-lo em capas de revistas, então vale uma tentativa para aqueles que realmente precisam de atenção", explicou no site.
Leia mais em Nadia Plesler

Terça-feira, Abril 29, 2008

Campanha pela regularização fundiária dos terreiros


Postagens relacionadas:

Denúncia: demolição de terreiro pelo poder público em Salvador

Parabéns, mãe Rosa!

Segunda-feira, Abril 28, 2008

documentário sobre o PASQUIM

TV Câmara: O Pasquim - A Subversão do Humor


(05/08/2004)

Nos anos 70, jornalistas resolveram falar o que pensavam sobre política e cultura, no jornal mais bem-humorado do Brasil. Fizeram muito sucesso na classe média e foram perseguidos pelos governos.


Documentário conta a era do Pasquim
Em 1969, ano particularmente duro no regime militar, surgiu no Rio de Janeiro "O Pasquim", tablóide que, com sua irreverência, humor e anarquia, daria uma nova roupagem e linguagem ao jornalismo brasileiro, uma forma mais coloquial à publicidade e causaria um forte abalo nos níveis da hipocrisia nacional.

A TV Câmara conta no documentário "O Pasquim - a Subversão do Humor", através dos principais personagens esta história, como ele invadiu o Brasil, enfrentando a censura e a cadeia com o riso aberto, como se fosse mais uma das farras da turma de Ipanema.

Em O Pasquim, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, Marta Alencar, Miguel Paiva, Claudius, Sérgio Augusto, Reinaldo, Hubert lembram como se escreveu esta página da nossa história e Angeli, Chico Caruso, Washington Olivetto e Zélio como ela foi determinante para as páginas seguintes.

Ninguém ficou rico com a publicação, embora ela tenha vendido nos seus melhores tempos, entre 1969 e 1973, até 250 mil exemplares. Um volume acima do razoável, se lembrarmos que os jornais de tiragem nacional rodam hoje, mais de 30 anos depois, com toda a informatização, a facilidade de distribuição e as fortes campanhas de assinantes, cerca de 300 mil exemplares.

A verdade é que o comportamento da chamada Patota do Pasquim era tão anárquico quanto o conteúdo do jornal. E o que ganharam gastaram entre prisão, brigas, festas e altas dosagens etílicas. Bem que os militares e a elite brasileira tentaram sufocá-lo diversas vezes e de formas variadas mas, quando conseguiram, ele já havia disseminado uma nova forma de comportamento nos meios de comunicação. Como diz Jaguar, a imprensa tirou o paletó e a gravata, ou, como diz Olivetto, passamos a escrever e nos comunicar com língua de gente, do povo.

Reprodução autorizada mediante citação da TV Câmara

Sábado, Abril 26, 2008

Gretchen, nossa Cicciolina, próxima prefeita?


Tem notícias que preferia não saber essa é uma:

'A cantora Gretchen no Curso de Formação Política do PPS, que prepara candidatos a vereador e prefeito do partido para as próximas eleições. Gretchen vai disputar a prefeitura de Itamaracá, região metropolitana do Recife'.


Itamaracá com toda certeza ganharia com uma presença feminina, mas de uma mulher combatente, com história de liderança, com representatividade.
O que a Cicciolina das tardes do Gugu pode fazer pelos munícipes de Itamaracá?
Pobre Brasil, onde a política ainda é tratada de forma tão pouco séria....

Terça-feira, Abril 22, 2008

A feminilidade como déficit

ensaio:MEDICINA

Por Maria Cristina Franco Ferraz

Na era dos hormônios, a menopausa deixa de ser vista como etapa natural e passa a ser tratada como doença

Em 15 de abril deste ano, os jornais a “Folha de S. Paulo” e o espanhol “El Mundo” divulgaram uma curiosa pesquisa realizada pela universidade de Cambridge: certos hormônios estariam por trás da tomada de decisões em bolsas de valores, exercendo portanto grande influência sobre a economia mundial.

Um deles, a testosterona, estaria ligado à auto-confiança e à competitividade; outro, o cortisol, exerceria um importante papel nas respostas a situações de estresse e de incerteza. A pesquisa constatou, por exemplo, que níveis mais altos de testosterona em operadores da bolsa de Londres, verificados no início do pregão, levaram a um dia mais produtivo e bem sucedido. Seu excesso, entretanto, à irracionalidade na tomada de decisões e à tendência nociva de correr riscos extremos. Esses esteróides seriam, portanto, uma espécie de “substrato biológico” para os mercados de ações.

Como se pode observar, tendemos atualmente a associar todas as esferas da vida, até mesmo as frenéticas operações do mercado de ações, aos hormônios que circulam em nossos “corpos elétricos” –como já caracterizava, desde o século XIX, o poeta americano Walt Whitman. Nossos prazeres, sucessos, fracassos, incômodos e tensões são crescentemente atribuídos a hormônios que atuam no cérebro, tais como os chamados hormônios do estresse, a endorfina e a serotonina.

Aos poucos, estes termos científicos vão penetrando no vocabulário mais cotidiano. Não é incomum ouvirmos dizer, por exemplo, que malhar libera endorfina, provocando uma agradável sensação de prazer e de bem-estar. Essa nova ênfase atinge, atualmente, tanto homens quanto mulheres, mas é sobre as mulheres que ela tende a recair de modo mais evidente e disseminado.

Isso não ocorre por acaso. Em nossa cultura, a mulher sempre foi mais marcada como gênero e especialmente caracterizada por sua curiosa anatomia. No século XXI, a experiência subjetiva da mulher passa a ser relacionada (por ela mesma, inclusive) cada vez mais à modulação de seus níveis hormonais. Agora, ao que tudo indica, vai saindo de cena a equação mulher-útero, que marcou a modernidade, para dar lugar à associação contemporânea mulher-hormônio.

No livro “Memória”1, o neurocientista Iván Izquierdo explica que a oxitocina, principal hormônio ligado ao parto e às contrações uterinas, afeta neurônios da amígdala, provocando certo efeito amnésico. Segundo alguns neurocientistas, esse hormônio que atua sobre o cérebro seria responsável pelo próprio esquecimento da dor do parto. Ou seja: não seria a rica experiência da maternidade (ou qualquer outro fator de cunho existencial) que faria esquecer a dor do parto, mas a ação da oxitocina sobre os neurônios.

Não se trata nesse caso, como pode parecer à primeira vista, da mera tradução científica do que antes ingenuamente se atribuía à esfera da experiência humana. Trata-se de um novo modo de se pensar e de se experimentar as relações entre o corpo e a subjetividade.

Como a ciência funciona hoje como lugar praticamente exclusivo de produção de verdades, tendemos por isso a acreditar que a oxitocina seria a causa finalmente descoberta do intrigante esquecimento da dor do parto. Talvez valha a pena, entretanto, seguir uma outra pista. Não para explicar esse suposto fenômeno, mas para refletir sobre o que esse tipo de explicação sugere e supõe.

Suspeitando nietzscheanamente das verdades como produções históricas, podemos identificar nessa maneira “fisicalista” de explicar a experiência vivida um dos traços marcantes da cultura contemporânea.

No caso específico da mulher, a tendência a reduzir a experiência aos hormônios parece apontar para uma nova maneira de se entender a feminilidade, que reforça certos valores e termina por estabelecer novos modos de se auto-descrever. Cabe então pensar algumas implicações filosóficas, éticas e culturais dessa visada.

Do século XVIII até mais da metade do século XX, a vida da mulher estava vinculada principalmente às funções de seu útero. Como ressaltou Michel Foucault2, em sua face positiva, destacava-se a figura socialmente ajustada da mãe.

O reverso negativo e patológico da mulher-mãe se evidenciava na figura da mulher “nervosa”, configurada na virada do século XIX ao XX como “histérica”. Não se pode esquecer a importância da noção de histeria para a constituição do próprio campo da psicanálise. Cabe também lembrar que o termo “histeria” é, em grego, etimologicamente ligado a útero. É essa associação predominante mulher-útero, historicamente determinada, que parece ter se alterado a partir da segunda metade do século passado.

Marcando essa mudança, nos anos 60, Robert Wilson divulgou e promoveu intensamente a terapia de reposição hormonal para todas as mulheres, “da menopausa ao túmulo”. O título de seu best-seller de 1966, “Feminine Forever” (Para sempre feminina), lembra curiosamente certos lemas publicitários para a venda de produtos cosméticos.

A terapia de reposição hormonal, a partir de então maciçamente difundida, apóia-se no pressuposto de que o declínio da produção de estrogêneo na menopausa acarreta um progressivo processo de desfeminização.

Feminilidade é tendencialmente reduzida a um efeito de processos hormonais, passando a ser radicalmente anexada ao campo da medicina. Além disso, a menopausa deixa de ser encarada como uma etapa natural no processo de envelhecimento do corpo da mulher. Associa-se à doença, por meio da expressiva noção de “déficit”.

Aliás, o próprio envelhecimento já tangencia o patológico, o que aponta para um dos temores que mais assombram nossa cultura: o horror aos efeitos devastadores da passagem do tempo sobre nossos corpos e cérebros, que devem se manter sempre “fit”, saudáveis, ativos e produtivos (termos praticamente equivalentes).

Obviamente, essa equação mulher-hormônio representa uma grande oportunidade para negócios altamente lucrativos, tanto no campo da medicina mais ortodoxa (terapia de reposição hormonal, por exemplo) quanto nas vias mais alternativas (uso de substâncias fitoterápicas, suplementos vitamínicos etc.).

Como a diminuição hormonal na menopausa atinge mulheres de todas as raças, camadas sociais e continentes, a totalidade das mulheres de meia-idade se transforma em um vasto grupo potencial de tratamento médico ou alternativo. Aquilo que a natureza deixa de produzir como por uma espécie de equívoco se transforma em um imenso nicho de mercado para a poderosa indústria farmacêutica.

A noção de “déficit”, significativamente extraída do campo da economia, sugere que o estrogêneo deveria continuar a ser produzido pelo corpo da mulher até o final de sua vida. Nesse sentido, ter diminuída sua produção representa uma falha a ser minimizada. Notícia bastante alarmante, em uma época em que a saúde se espetaculariza na superfície dos corpos e se espelha na imagem corporal, afetando a tão proclamada auto-estima.

O declínio do estrogêneo tende então a ser vivido de modo muito mais angustiado, alimentando a demanda por soluções medicamentosas ou alternativas, uma vez que afeta a própria feminilidade, remetida tão-somente ao corpo biológico e à imagem de si.

A terapia de reposição hormonal é uma das expressões da lógica do risco que impera em nossa cultura: nesse caso, riscos de osteoporose e de futuras doenças cardiovasculares. Esses riscos de doenças futuras teriam de ser prevenidos desde sempre, ao longo de toda a vida. Idealmente, mesmo antes do nascimento. Essa mentalidade não se restringe ao caso da menopausa, mas se estende às diversas áreas da vida contemporânea. A ênfase na noção de risco também move, por exemplo, projetos de pesquisa genética.

Como acaba de ser divulgado, o recente Projeto Genoma 1000 pretende mapear e catalogar o DNA de mil indivíduos de todas as raças e continentes. Esses catálogos servirão para rastrear e identificar predisposições para certas anomalias e doenças. Ou seja: estar doente é cada vez mais antecipado, solicitando vigilância e atenção permanentes, ao longo de toda a vida, estendida à etapa intra-uterina.

Na lógica do risco, estamos todos virtualmente doentes (e deficitários), do útero ao túmulo. Somos instados a dedicar nosso tempo prevenindo o que certamente está por vir -a menos que não cheguemos a viver até lá. Um dos efeitos dessa crença é, obviamente, a crescente medicalização do corpo tanto de homens quanto de mulheres.

A pesquisadora australiana Jennifer Harding3 observa que embora diversas feministas tenham polemizado sobre os possíveis malefícios (e riscos) da controversa terapia de reposição hormonal e proposto alternativas não medicamentosas (mudança de estilo de vida, caminhadas, “fitness”), elas não deixaram de endossar os pressupostos implicados na terapia de reposição hormonal.

Eis, em síntese, alguns deles: a lógica do risco; a desvalorização do envelhecimento, cada vez mais associado a um estado meramente deficitário, a uma dependência onerosa em todos os sentidos (material e afetivo); a perspectiva de manutenção a todo preço de uma saúde intimamente vinculada à jovialidade e à produtividade; a visão da menopausa como doença ou risco de doenças futuras e, sobretudo, a equação feminilidade/hormônio.

Um dos valores embutidos nessa equação diz respeito à relação entre feminilidade e imagem do corpo jovem, saudável, preferencialmente pouco adiposo. A lógica da produtividade, da performance bem-sucedida e do curtíssimo prazo, própria às empresas, parece se estender a todos os domínios da vida.

Na cultura da performance e da descartabilidade, passa a ser praticamente impossível atribuir valor ao enriquecimento da experiência humana ao longo de uma vida. Nesse contexto, o envelhecimento só pode ser vivido como deficitário e angustiante. Por outro lado, a debilitação do corpo e seu eventual adoecimento tendem a ser experimentados como pesados ônus a serem pagos pelos indivíduos, pelas famílias e pela sociedade.

Essa cultura da prevenção e da seguridade contra riscos embute a idéia de que temos o dever de nos precavermos contra doenças, como se pudéssemos controlar através de nossas escolhas e comportamentos todos os seus vetores. Se formos bons cidadãos, sujeitos moralmente decentes, devemos nos responsabilizar não apenas pelos hábitos que poderiam levar à doença, mas também pela preocupação permanente com a produção da própria saúde. Quem não cuida bem de si, bom sujeito não é: eis o lema implícito em muitas de nossas práticas.

Ora, no caso das mulheres com poder aquisitivo suficiente para “cuidarem de si”, esse cuidado implica manter-se saudavelmente ativa e ser feminina “forever”. O problema, nesse caso, se agrava, pois como a menopausa ocorre relativamente cedo em uma vida que tende a se estender muito além da meia-idade, os cuidados terão de ser intensificados, e a vigilância, reforçada.

A equação feminildade/hormônio alcança igualmente outras etapas de vida da mulher. Esse é o caso das populares TPMs, levadas até mesmo em conta em julgamentos de crimes, na condição de circunstâncias atenuantes.

Um artigo no jornal “O Globo”4 intitulado “O país da TPM”, informa que uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas e pelo Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas revela que 80% das brasileiras entrevistadas são ou foram afetadas pela “Síndrome Disfórica Pré-Menstrual”, comprovando o enraizamento desse modo de lidar com a própria experiência do corpo e de seus afetos.

Nesse caso, podemos salientar que a própria situação da pesquisa, ao colocar o entrevistado diante de perguntas a que deve responder, também colabora para a consolidação de crenças. Pois, como mostraram filósofos, estudiosos da linguagem e da comunicação, ser confrontado a perguntas e respondê-las tem por efeito anexar o sujeito falante a certos horizontes de sentidos.

De nervosa e histérica, a mulher passa a ser mero efeito (sempre instável) de seus hormônios. Evidentemente, essa equação tende a desinvestir o sujeito de sua potência transformadora de mundo e de si. Aliás, o tema do cuidado de si, eticamente tratado por Michel Foucault, foi parcialmente apropriado (à revelia de sua filosofia) pela cultura da performance e da imagem de si. Nessa cultura, o que parece estar em questão é sentir-se bem a todo custo, regulando o corpo e seus hormônios pelo ritmo e pelo compasso adequados a uma gestão otimizada da vida.

Como a curiosa noção de “auto-estima”, cada vez mais ligada à saúde e ao bem-estar, está relacionada à imagem de si, a menopausa se apresenta como um fenômeno orgânico que ameaça a própria felicidade das mulheres.

Em vez de se alistar nessa batalha inglória contra o tempo, resta identificar e questionar esses valores e –por que não?- inventar outros. Afinal, nosso mundo não parece carecer de mais egos hiperinflados, de imagens plásticas e saradas do corpo.

Nesse sentido, vale a pena reativar o tema do “amor ao mundo” (Hannah Arendt) ou o da “fidelidade à Terra” (Friedrich Nietzsche). Talvez no lugar da auto-estima, resta propor (e efetuar) algo tão raro que nem sequer se encontra expresso: a alter-estima, uma espécie de conversão da estima em direção ao outro.


Publicado em 19/4/2008

1 - Cf. Izquierdo, Iván, “Memória” (Artmed, 2002), p. 66.

2 - Cf. Foucault, Michel, “História da Sexualidade I” (Graal, 1980), p. 99.

3 - Cf. Harding, Jennifer. “Bodies at Risk: Sex, Surveillance and Hormone Replacement Therapy’’. In: PETERSEN, A. e BUNTON, R. (orgs.). “Foucault, Health and Medicine” (Routledge, 2000).

4 - “O Globo’’ de 06/04/2008, sessão “Saúde”, p. 44.


Maria Cristina Franco Ferraz

É doutora em filosofia (Paris I-Sorbonne), professora titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de "Nietzsche, o Bufão dos Deuses", "Platão: As Artimanhas do Fingimento" e "Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos" (todos pela Relume Dumará), entre outros. É também organizadora da coleção "Conexões", da editora Relume Dumará.

Domingo, Abril 20, 2008

Um fórum para discutir educação pública sem nenhum educador

Publicado 20/04/200) às 8 horas, atualizado 21/04/2008- às 23:56


Seguem minhas impressões sobre o Congresso empresarial, cuja notícia elogiosa reproduzo abaixo desta minha postagem.

Eu assisti ontem pelo canal rural (que é da RBS) a transmissão dos debates ocorridos no dia 18 (para quem deseja ter idéia do que foi isso, segunda à noite, dia 21/04, o mesmo canal vai reproduzir um resumo).

Posso dizer que fiquei no mínimo impressionada, assistindo, incrédula, para onde caminhamos em matéria de educação...

Lado a lado estavam Gerdau; Dória Jr, Haddad, todos os governadores brasileiros e mais 700 empresários, além de Viviane Senna, Regina Duarte, Bruna Lombardi, Nizan Guanaes.

A educação pública tratada como empresa, políticos importantes rasgando-se em elogios para entidades privadas que resolveram dar dinheiro para a educação, pautar o seu gerenciamento como se fosse o 'chão da fábrica' e cobrar resultados (resta saber que resultados são esses). Tudo isso sobre aplausos, abraços e dar de mãos dos presentes que seguiram entusiasmados o apelo de Dória!
Não faltaram as palavras de ordem como 'solidariedade entre capital e Estado', 'todos pela educação'...
5,5 milhões foram arrecadados para a instituição de Viviane Senna que se emocionou às lágrimas.

Regina Duarte, aquela atriz do 'eu tenho medo do Lula' da eleição presidencial entre o embate Lula e FHC reclamou o teatro nas escolas, mas rasgou elogios à Haddad (parece que seu medo se dissipou...) Não faltaram elogios sequer ao fato de nosso Ministro da Educação não ser educador de formação e sim administrador. Sua profissão tecnicista foi vista como a salvação da lavoura para a educação...

O que mais me intrigou, em um encontro onde estavam reunidos 42% do PIB brasileiro, foi o fato de eu não conseguir enxergar um único educador, de nenhuma academia brasileira (havia um professor da GV, que ao mesmo tempo em que criticava o fato de o Brasil ser o segundo país do mundo em número de universidades de administração) elogiava o fato de o ministro da educação ser formado em administração). Sem educadores nem da academia, nem fora dela, nenhum representante do professorado, nenhum representante dos movimentos sociais que discutem educação...

Mas o fórum não se reduziu a isso. Seria injusto estereotipá-lo e desqualificá-lo em poucos parágrafos. Entretanto, os educadores brasileiros embora tenham faltado à 'festa' no Transamérica de Comandatuba (Ba) deveriam ficar bem alertas.

Há uma idéia que tomou os corações e mentes da parcela empoderada que dirige esse país. Na mídia, na economia e na política (em todas as instâncias governamentais) entre políticos, empresários, classe artística, publicitários está disseminada a idéia de que educação se mede em números, com fita métrica e muitos gráficos. Deve-se estabelecer metas e mais metas e aplicar provas e mais provas, computando-se a produtividade dos estudantes como se computa a produtividade de fábrica.

Parece, assim, que o discurso da qualidade total venceu todo e qualquer discurso sobre o valor básico da educação como uma política de Estado. Na escola não cabe mais perder tempo com formação humanista, embora se tenha trazido para o currículo a Sociologia e a Filosofia, a idéia é que essas disciplinas tenham outra função. Para os presentes, tanto a elite como as classes populares não valorizam a educação e nossas escolas são pífias em formar competidores para o mercado global.

FÓRUM EMPRESARIAL DISCUTE A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO PÚBLICA NO PAÍS




Maior evento empresarial brasileiro reunirá 700 empresários, ministros, governadores, senadores e deputados federais


A sétima edição do Fórum Empresarial, promovida pelo LIDE - Grupo de Líderes Empresariais, será realizada de 18 a 21 de abril, no Hotel Transamérica, na Ilha de Comandatuba (BA). Organizado pela Doria Associados, o Fórum reúne, todos os anos, presidentes das maiores corporações nacionais e multinacionais do Brasil para debater com representantes do poder público assuntos de interesse geral da sociedade. O seminário deste ano traz como tema "Educação Pública de Qualidade para um Brasil Melhor".


Além de 320 CEOs, são esperados diversos governadores, ministros, senadores e deputados federais, totalizando 700 participantes. Entre os confirmados estão Fernando Haddad, ministro da Educação; José Múcio Monteiro, ministro das Relações Institucionais; Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional.


Para o idealizador do Fórum Empresarial e presidente do LIDE - Grupo de Líderes Empresariais, João Doria Jr., esta será a edição de maior prestígio entre todas já realizadas. "O Fórum contribui para unir empresários e autoridades em torno de um objetivo comum: a educação pública de qualidade para um País melhor", argumenta. Segundo Doria, "o convívio nesses quatro dias de evento é o equivalente a cinco ou oito anos de relacionamento".


Na abertura do seminário, Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna (IAS), e Osmar Zogbi, presidente do LIDE-EDH, farão um balanço das atividades do EDH - Empresários pelo Desenvolvimento Humano, iniciativa que já investiu mais de R$ 20 milhões em cinco anos, em projetos educacionais públicos, através de programas coordenados pelo IAS. No ano passado, na abertura do Fórum Empresarial, em apenas 16 minutos, a platéia, composta por cerca de 400 convidados, doou ao EDH o valor de R$ 3,9 milhões, R$ 1 milhão a mais do que o valor arrecadado em 2006.


Esta é a sétima edição do Fórum, que já contou com a presença de nomes de grande relevância no cenário político nacional, como Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, José Alencar, Blairo Magi, Roberto Rodrigues, Walfrido Mares Guia, Luiz Fernando Furlan, Michel Temer, Aloísio Mercadante, Henrique Meirelles, Sérgio Cabral, entre outros.


Reconhecimento

Durante o 7º Fórum Empresarial haverá a entrega do Prêmio LIDE Personalidade Empresarial 2008. A eleição contou com o voto de aproximadamente 420 empresários associados ao LIDE. Concorrem Fernando Terni, presidente da Schincariol; Ivan Zurita, presidente da Nestlé; e Roberto Lima, presidente da Vivo. Em 2007, o premiado foi Jorge Gerdau, em 2006, Ivan Zurita, e, em 2005, Antonio Ermírio de Moraes.


Pelo terceiro ano consecutivo, o Fórum Empresarial elege a "Personalidade Empresarial Feminina - LIDE". Em 2008 concorrem Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza; Nadir Moreno, presidente da UPS; e Sonia Hess de Souza, presidente da Dudalina. Em 2007, foi eleita Zilda Arns, e, em 2006, Viviane Senna.


O LIDE também premiará as categorias Educação, Sustentabilidade, Responsabilidade Social e Governança Corporativa. Os eleitos são Fernando Haddad, ministro da Educação, que receberá o Prêmio LIDE Educação; Márcio Cypriano, presidente do Bradesco, o Prêmio LIDE Sustentabilidade; Roger Agnelli, presidente da Vale, o Prêmio LIDE Responsabilidade Social; e Fábio Barbosa, presidente do Banco Real e da FEBRABAN, o Prêmio LIDE Governança Corporativa.

No dia 20/04 no programa Painel Globo News, Willian Waack dedica-se a discutir 'o apagão' da escola pública no país, tirem suas próprias conclusões para onde caminha o ensino público como política de Estado no país....



1a parte


2a parte

Ainda e pela última vez, o caso de nossa 'Madelaine'

No Brasil 400 mil crianças por ano são feridas pelos seus responsáveis, dessas 4 mil não resistem às agressões. Socialmente fazemos pouco pra diminuir essa estatística, muito embora tenhamos verdadeira ojeriza ao infanticídio.
Não sei se por isso ou se porque os dados das investigações policiais espetacularizados pela mídia como se fosse um clássico Corinthians e Palmeiras incomodam profundamente pessoas como eu e vários críticos que consideram que esta tragédia familiar deve ser tratada como ela é: uma tragédia familiar, mas eu passei a desejar com toda a força de meu coração que ao menos desta vez o pai e a madrasta não sejam culpados.

Ando incomodada com as incongruências das investigações divulgadas hora a hora em todas as mídias e algumas perguntas me surgem: se esta menina sangrou tanto assim no carro a ponto de usar uma frauda para estancá-lo (inutilmente, na medida que há pingos de sangue no trajeto do lobbie do apartamento até a janela do quarto dos irmãos), por que não há uma gota de sangue no elevador e na camiseta do pai, que é acusado de ter transportado a filha e a atirado pela janela?

Muitas testemunhas afirmam em depoimentos divulgados na mídia que ouviram a menina chamar pelo pai dela (como se pedindo socorro e outras como se fosse apelo para que a agressão parasse), entretanto, as últimas notícias são de que a menina entrou sangrando e desfalecida no apartamento, pois a hipótese é que foi ferida no carro (asfixia). Expliquem-me como uma pessoa desfalecida poderia pedir socorro? Os fatos ao menos para mim não se encaixam.

As fibras da tela de proteção cortada não poderiam ter aderido a sua camiseta quando este em desespero por não ver a filha e perceber a tela cortada, colou-se nela pra olhar embaixo?

E os primeiros testemunhos sobre arrombamento em um sobrado que dá para os fundos do prédio dos Nardoni na noite do crime, foi feito perícia lá? Ouviram o pedreiro e a vizinha que diz ter ouvido barulho neste sobrado em construção que foi arrombado?

Por outro lado que raio de ferimento é esse e por que foi provocado no carro?

Por que um pai que durante cinco anos não apresentou nenhum histórico de violência (caso contrário a mãe da menina que não é omissa, teria tomado providências) faria algo tão torpe, tão cruel, tão inominável?

Fui obrigada a tentar compreender esse caso, pois todos, sem exceção, desde os que se deixaram levar pela comoção nacional e os críticos a essa comoção e, especialmente a mídia, não me deixam ficar impassível a ele.

Minha mãe, por exemplo, anda indignada comigo por eu tentar acalmar os ânimos e pedir pra ela ver outra coisa na tevê, minha irmã idem. Minha mãe é nordestina, migrante, voltou pra escola aos 63 anos, é uma pessoa muito corajosa, consciente e combativa e me disse nervosa ao telefone, 'vc defendeu esses sujeitos, eu não posso crer, se eles fossem linchados eu seria a primeira a dar uma paulada na cabeça daquele miserável e daquela miserável'. Minha irmã, também mãe de uma pequena na idade da Isabella, com curso superior que fala italiano e alemão também perdeu a razão. Minha empregada, mãe de três filhos me olha com raiva e desconfiança, já chorou falando do tema.

Detalhe, eu não defendi ninguém, apenas não acusei e estou aguardando o final dessa tragédia humana, dando o benefício da dúvida que todos sem exceção merecem até que se prove a culpa.

Mas, nenhuma dessas mulheres são loucas ou possuem um viés mórbido em seu caráter. Com toda certeza a cobertura jornalística potencializou a revolta popular, mas há outros aspectos de fundo que o explicam, dentre eles: a descrença na Justiça pública; a visão de infância que construímos, a morte asséptica dos tempos contemporâneos que foi profundamente questionada com o modo que Isabella foi assassinada.

A espetacularização da barbárie e da dor, parece que não poupa ninguém. No domingo a mãe de Isabella posava pra fotos no show/missa em Interlagos, tudo e todos viram celebridade. Os jornalistas descrevem que o público está passivo diante da delegacia do Carandiru e é só as televisões ligarem as câmeras a massa começa a gritaria espetacularizada...

Acabei iniciando um debate no blog do Edu. Guim. (O 'circo romano' midiático 19/04/2008) porque acho que a metáfora usada é reducionista tanto para o passado como para o presente. Hoje mandei-lhe um mail, buscando esclarecer minhas críticas cujo trecho reproduzo aqui:

'Bom dia, eu não sei se eu consegui me fazer entender com as críticas que fiz ao seu texto no caso Isabella. Minha intenção foi a de historicizar a metáfora que vc usou para comparar as duas 'turbas' sedenta por sangue.

Para além de haver muitas diferenças entre os dois contextos e o que motiva as ações das massas na arena romana e na sociedade espetacularizada de hoje, os aspectos de classe, de raça, nossa concepção de infância historicamente construída e o horror que desenvolvemos pelo infanticídio e parricídio são componentes do comportamento contemporâneo.

Eu não sei o quanto os blogueiros se lêem, mas aqui eu fiz um apanhado até o dia 15/04 dos textos mais significativos que encontrei sobre o tema. Eu leio vários blogueiros e ando observando as reflexões e conclusões de cada um sobre a comoção diante da nossa 'Madelaine'.

De comum, todos, sem exceção, e me incluo nesta categoria, ficamos horrorizados com o fato e achamos que essa tragédia familiar deveria ser tratada com mais respeito, pois independente de quem seja o assassino, midiatizar a barbárie, narrar cada episódio (real ou não) como um jogo de futebol é desrespeitoso, beira o criminoso.'

Conclui o texto, contando o que narrei acima sobre as três mulheres de minha relação que não são mórbidas, mas que estão no grupo da 'turba' indignada.

Infelizmente as críticas que fiz nos comentários do Edu, descontentaram uma comentadora, que me achou pedante e equivocada. Seguem a minha crítica inicial ao texto de Edu e minha resposta a comentadora:

1º comentário:

'Já escrevi um longo post sobre esse foco no meu blog pessoal, agregando vários pontos de vista críticos a essa cobertura insana da mídia que ontem (sexta-feira) teve a cara de pau de dizer que os depoimentos prestados do casal na delegacia virou 'espetáculo', por mérito de quem, cara pálida? Mas embora eu seja solidária à mãe e a guria em questão, fica sempre a pergunta, por que Maria Eduarda da Silva do Carmo e as milhares de outras que morreram não tiveram essa atenção?

29/03/2008 - 14h49- Folha Online

Criança de 1 ano morre espancada em Guapimirim (RJ); padrasto é suspeito Uma criança de um ano e três meses morreu nesta sexta-feira (28), vítima de maus-tratos e espancamento, em Guapimirim (85 km do Rio), que fica na serra dos Órgãos. Padrasto é suspeito. Maria Eduarda da Silva do Carmo foi encontrada pela Polícia Militar e levada ao hospital da cidade, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. Moradores que estavam no momento acusaram o suposto padrasto da vítima de ser o responsável pelo crime.'

2º comentário:

'Edu, sobre os espetáculos nas arenas romanas, gostaria de historicizar, vou pedir licença pra me auto-citar:

"Hoje parece estranho a muitos de nós que uma multidão pudesse lotar imensos anfiteatros para assistir a uma luta que só terminava com a morte de um dos oponentes e divertir-se com ela. Para compreendermos essa e outras práticas culturais que muitos de nós condenamos e repudiamos, precisamos analisar o contexto em que foram construídas e vivenciadas"

(agora passo a citar J. A. Shelton um historiador da atualidade que estuda os espetáculos de arena):

'Acerca do fascínio exercido pelos espetáculos de sangue na arena, muitos romanos afirmavam que eles inspiravam um nobre desprezo pela morte. Mas é possível interpretar esses espetáculos como um ritual que reafirmava o poder e a autoridade. Os gladiadores, por exemplo, eram indivíduos sem direitos, marginalizados ou condenados por subversão da ordem pública. Ao executá-los em público, o povo romano reunido celebrava a superioridade e o seu direito de dominar.'

As lutas nas arenas tinham ainda um caráter religioso e, ao mesmo tempo, cumpriam a função de manter a ordem social. Ao assistir essas lutas ferozes, que aconteciam inicialmente no Fórum de Roma ou nos fóruns das cidades sob seu domínio e influência, o público via ali representada a luta do bem contra o mal, do fraco contra o forte, da purificação dos homens perante seus deuses, por meio do derramamento de sangue e tais lutas serviam igualmente para que os romanos reafirmassem seu poder sobre seus inimigos. (Oliveira, Conceição et alii. História em Projetos, SP: Ática, 2007, v.5ªs/6ºano, p. 166).

Em outras palavras, Edu, é bem mais complexo que reduzir os romanos às 'turbas sádicas' que não 'precisavam de desculpas para consumir sofrimento com deleite lascivo'.

Concluindo ou pelo menos tentando: é de fato assustador ver a 'turba' da Roma clássica e da atualidade. Mas buscar compreender os porquês de agirem com tanta violência (vc selecionou a foto que me chamou mais atenção ontem no site da uol e a montagem que fez dá bem a idéia do espetáculo cuidadosamente gestado pela mídia) não significa que a aceitamos ou aprovamos.

Na Roma antiga a arena era um espaço social onde o poder e sua popularidade eram encenados e a mesma plebe que conquistou seus direitos durante a República, tornando-se livres e com assistência do Estado diferenciavam-se dos sujeitos sem direitos (prisioneiros de guerra escravizados, marginais e estrangeiros).

Quem não ficou exposto a essa verdadeira loucura que foi a cobertura da mídia tem muita dificuldade de entender como pessoas comuns de diferentes idades se transformaram em sujeitos tão agressivos. Mas quando a morte de uma menina branca, de classe média é narrada como se fosse partida de futebol a gente passa a entender.

(E depois dos meus comentários, uma das leitoras desqualificou as minhas observações ao texto inicial de Edu, eu dirigi a ela a seguinte resposta):

'Para Marieta.
Também não estou disposta a polêmicas, o espaço exíguo, sequer, permite o debate.
Quanto ao tom professoral é vício de profissão, historiadores têm a estranha mania de nunca ler um texto passivamente, fazem sempre leitura a contrapelo.

Entendi perfeitamente a metáfora, mas creio que ela não nos ajuda a compreender o que de fato está ocorrendo neste caso da atualidade. Seu uso a meu ver contribui ainda mais para estereotipar um tempo, espaço e sujeitos dos quais hoje, pela imensa distância e desconhecimento, o senso comum reduz e aplica àquela sociedade uma série de juízos de valores, completamente desinteressantes para a compreensão histórica.

Do resto, creio que vale a pena ler vários textos críticos de outros autores que também (por mais desagradável que seja falar sobre esse assunto que tanto nos choca) dedicaram a compreender esta comoção nacional, sem reduzi-la e simplificá-la e isso não significa que a aceitemos.
Admiro o trabalho de Edu, mas neste caso, tenho críticas.'

**********

Aconselho ainda aos leitores que aqui chegarem, evidentemente que façam a leitura do artigo do Edu e dos demais textos (2 e 3 originalmente publicados no Vemelho.org, mas que na composição da Tita me pareceram mais ricos) 4 do blog do Pizza, 5 (Folha), cito-os:

1. O circo romano midiático 19/04/2008

2. Por que o caso Isabella comove?

3. Darwin e Isabella

4. Vamos dar um tempo nas explicações

5. Para historiadora, morte de Isabella é vista como sacrifício

De minha parte estou encerrando essa história que já é tão dolorida para quem é apenas espectadora distanciada como eu e imagino que também seja para os familiares (a mãe, a avó paterna que vi expressando sua dor como a minha própria mãe e todos os demais familiares em luto).

Que a pequena Isabella e todas as crianças barbaramente assassinadas possam descansar em paz e que de algum modo, nossa sociedade adulta e tão hedonista reflita sobre essas tragédias e busquem formas mais efetivas de evitá-las, assim como as tragédias estruturais de maus governos que matam nossas crianças pela fome, inanição, falta de esgoto, de educação e pela insegurança pública.

Quinta-feira, Abril 17, 2008

UOL Um portal que não consegue dar boa notícia...

Por que será?

Reparem na chamada do portal da uol, agora, no final da noite:

Economia Empregos com carteira assinada batem recorde

Alta dos juros pode diminuir oferta de vagas
Sem comentários....
Matérias relacionadas:
Curiosa matéria da Folha, ainda o dossiê

Do blog da Cidinha um adeus ao poeta da negritude

Memória Lélia Gonzalez e Coletivo das Mulheres Negras do Rio de Janeiro informa:

Longa e bela matéria sobre Aimé Césaire no Blog de Cidinha da Silva


Cabeça troféu membros lacerados

dardo assassino belo sangue jorrado
ramagens perdidas margens contentes
infâncias infâncias conto demasiado revolvido
o amanhecer sobre a corrente morde feroz para nascer


Ó assassino atrasado
o pássaro de plumas outrora mais belas que o passado
exige a conta de suas plumas dispersas

Belo Sangue Jorrado, Aimé Césaire (extraído de: Simulador de Vôo)

Terça-feira, Abril 15, 2008

A espetacularização da barbárie e a cabeça de nossas crianças


[A mídia] "quando se apropria, divulga, espetaculariza, sensacionaliza ou banaliza os atos de violência está atribuindo-lhes um sentido que, ao circularem socialmente, induzem práticas referidas à violência. Se a violência é linguagem – forma de comunicar algo -, a mídia ao reportar os atos de violência surge como ação amplificadora desta linguagem primeira, a da violência" (RONDELLI, E. Imagens da violência: práticas discursivas. Tempo Social, S.P, v. 10, n. 2. p. 145-157, out.1998).

O artigo de Rosely Sayão (reproduzido ao fim deste post) é interessante, mas ela deixa de tocar numa questão que, a meu ver, é fundamental: a responsabilidade da mídia na forma de divulgação destas notícias.
Da hora que acordamos, no horário do almoço, no jantar e nos noticiários da madrugada a espetacularização da violência é o foco. Faz quinze dias ao menos que estamos sendo bombardeados com a morte trágica de uma criança e se nós adultos nos chocamos imaginem as crianças.
Neste sentido um texto que vale a pena ser lido é o de Robson Sávio Reis Souza*, 'Mídia e violência- o papel da imprensa na segurança pública', cujo trecho destaco aqui:

'Dependendo dos traços de personalidade e das experiências cotidianas das crianças, a violência na mídia satisfaz diferentes necessidades: "compensa" frustrações e carências em meio a ambientes problemáticos, ao mesmo tempo em que oferece "emoção" aos infantes que vivem em áreas menos problemáticas. Apesar das inúmeras diferenças culturais, os padrões básicos das implicações ligadas à violência na mídia são semelhantes em todas as partes do mundo. Os filmes, individualmente, não se constituem o problema, mas a extensão e a onipresença da violência na mídia contribuem para o desenvolvimento de uma cultura global agressiva. As "características de recompensa" da agressividade são mais sistematicamente incentivadas do que as formas não agressivas de lidar com a própria vida, fazendo prevalecer, dessa forma, o risco da violência na mídia.

Em combinação com a violência da vida real, vivenciada por muitas crianças, é alta a probabilidade de que orientações direcionadas para a agressividade sejam mais intensamente promovidas do que aquelas que incentivam comportamentos pacíficos.'
(*) Professor da PUC-Minas, filósofo, mestre em Administração Pública, especialista em comunicação social, em estudos de criminalidade e segurança pública; coordenador de Comunicação e Informação do CRISP (Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG)

Tragédias na Mídia

Rosely Sayão
(11/04/2008)

Nas últimas semanas, temos sido bombardeados, por todas as mídias, por notícias que revelam violências contra crianças praticadas possivelmente por adultos próximos a elas. É uma criança torturada aqui, outra ali, outra que morre lá e assim por diante. E não podemos esquecer que as crianças, hoje, têm acesso a todos os veículos de comunicação e recebem essas informações.

Que sentidos elas dão a esses fatos? Tomemos dois exemplos que chegaram a mim. Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo. Outra, um pouco mais nova, perguntou se iria ficar de mãos amarradas quando fosse ao castigo. Certamente, muitos leitores devem ter passado por experiências semelhantes com seus filhos e seus alunos.

As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário. E agora?

Agora, mais uma parte da infância de nossas crianças fica comprometida, fato cada vez mais banal. Mas será que não se pode fazer nada? Sim, podemos e devemos fazer algo por elas, que, sozinhas, não conseguem entender e expressar toda a angústia que as invade.

A maioria das escolas costuma ignorar o fato de que seus alunos sabem dessas notícias e continuam seus trabalhos como se nada de excepcional ocorresse. Pois todas elas têm recursos para, de alguma maneira, tratar dessas questões. É um bom momento, por exemplo, para oferecer aos alunos, nas aulas de expressão artística, estratégias para dar forma ao que eles imaginam, sentem e pensam sobre tais fatos.

O simples fato de colocar de modo simbólico sentimentos e angústias já aponta pistas sobre outras formas de trabalhar o tema. Depois, é importante que se fale a respeito, sem psicologismos nem interpretações leigas, para que, coletivamente, eles se sintam acolhidos em suas preocupações e aprendam sobre os direitos das crianças e dos adolescentes e os valores sociais da justiça e da responsabilidade com o bem comum.

Para os pais, esse é um bom momento para oferecer aos filhos mais segurança em relação aos vínculos familiares e dar maior relevância aos valores morais e éticos. É muito importante, por exemplo, afirmar que a família ama e respeita a vida, que nenhuma violência deve ser aceita pelos integrantes do grupo familiar, que casos como os noticiados são exceções -apesar de tanto alarde-, que os impulsos agressivos podem ser controlados e, também, estabelecer um diálogo a respeito das opiniões dos pais e dos filhos sobre esses fatos.

Todas as tragédias servem para nos fazer refletir sobre a humanidade e o nosso cotidiano. Por isso, é importante que os adultos pensem a respeito das pequenas violências, simbólicas ou reais, que o mundo adulto comete contra os mais novos. Afinal: nossas posições demonstram que somos a fim deles ou que estamos mais para ser o fim deles?

*******************

Outras fontes:

Sobre uma análise crítica da cobertura do caso Isabella:

O mundo não é para inocentes

Caso Isabella: o fato-onibus

Albergaria: “Caso Isabella virou novela doentia” - Terra - Mídia

Para Época Lula jogou Isabella da Janela

Caso Isabella

O caso Isabella

Um caso de saúde pública e A morbidez do PIG

O caso Isabela Nardoni é uma nova escola base?

Série jornalista 17

A vida dos outros

A televisão e a violência, o impacto sobre a criança e o adolescente (livro completo)

Lista de links de sites sobre proteção à infância

Comando da PF desmente a Folha

Como falei aqui hoje pela manhã, a Folha e seu jornalismo preguiçoso (ou seria mentiroso?) é desmentida à noite pela declaração de Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da PF.
Veja o vídeo: PF desmente indícios de dossiê

Curiosa cobertura da Folha, ainda o dossiê

A polícia federal tem 30 dias para concluir o inquérito sobre a Casa Civil.
Lendo a matéria a gente descobre que não há dados conclusivos, mas a Folha já concluiu sem nenhuma fala direta afirmativa do delegado da PF que a base de dados montada na casa civil é dossiê e pronto. Bem, a gente sabe como a Folha apura, a partir de um 'jornalismo preguiçoso', quanto a mim, prefiro esperar as conclusões da PF.

Reproduzo a matéria, intercalando-a com algum comentários meus sobre as afirmações da Folha. A idéia é comentar aquilo que considero má-informação, informação enviesada ou ressaltar informações relevantes sobre a Presidência ter dados sigilosos, pois se essa matéria tem algo que interessa é o fato de transcrever os artigos legais que legislam sobre a criação desse sigilo e do que se trata esse sigilo.

da Folha de São Paulo de Hoje 15/04/2008

Para a PF, Casa Civil montou dossiê sobre gastos de FHC Delegado que apura caso diz a interlocutores que equipe de Dilma não respeitou normas

Decreto presidencial, de 2002, recomenda cuidado na manipulação de dados sigilosos, deixando claro possibilidade de punições

ANDRÉA MICHAEL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A base de dados montada dentro do Palácio do Planalto com gastos sigilosos do governo Fernando Henrique Cardoso é um dossiê. Essa é a avaliação do delegado da Polícia Federal encarregado dessa investigação. Segundo a Folha apurou, a equipe de Sérgio Menezes concluiu que a Casa Civil não adotou um padrão técnico para o levantamento das despesas tucanas e não respeitou previsões legais relacionadas aos trâmites de documentos.
O material foi vazado a conta-gotas à imprensa em fevereiro, quando o governo Lula tentava impedir a instalação da CPI dos Cartões Corporativos.

(Alguém leu, viu ou ouviu declarações de Sérgio Menezes afirmando isso?)

Há quase um mês, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) nega a denominação de dossiê para o trabalho feito por sua equipe. As negativas ocorrem apesar do formato de organização das informações (extraídas sem justificativa do arquivo morto da Presidência), das observações com viés político contidas no documento e de os gastos do ex-presidente terem sido lançados numa base paralela ao sistema oficial de controle de suprimento de fundos.

('extraídas sem justificativa do arquivo morto da Presidência') Sem justificativas? Céus, não são os Demo e os tucanos que estão há meses exigindo a CPI dos cartões corporativos? Eles até já conseguiram derrubar uma ministra com o escândalo produzido sobre os cartões corporativos do governo Lula, cujos dados não sigilosos estão abertos na rede para consulta de qualquer cidadão! Como todo mundo está careca de saber: os dados dos cartões da administração deste governo (exceto os sigilosos por lei) estão no site Transparência, os de FHC não, a justificativa é essa, organizar os dados para a CPI, requerida pela oposição.

O delegado Sérgio Menezes, que há uma semana investiga o caso, disse a interlocutores que o levantamento feito pela equipe de Dilma constitui um dossiê porque não seguiu o trilho normativo previsto no decreto 4.553, de dezembro de 2002, que dispõe sobre a "salvaguarda de dados, informações, documentos e materiais sigilosos de interesse da segurança da sociedade e do Estado, no âmbito da administração pública".

Que interlocutores? Por que a fala deles não está reproduzida?
Destaque em vermelho, vejam a data do decreto, final do governo de FHC, ou seja, o decreto do ex-presidente tornou alguns dados de interesse da segurança da sociedade e Estado sigilosos, isso não foi invenção do governo Lula.

Em primeiro lugar, a PF buscará saber se, como prevê o decreto, a Casa Civil criou uma Comissão Permanente de Avaliação de Documentos Sigilosos, que deve, entre suas atribuições, analisar periodicamente a documentação secreta produzida na repartição, determinar o destino de tais papéis e autorizar o acesso aos documentos reservados.

Ah! Então a PF não tem nada conclusivo, certo? Ela ainda buscará saber, gozado, ao ler a manchete e o primeiro parágrafo da matéria achei que estava tudo esclarecido....

O decreto também sugere o uso de chaves de segurança (senhas) e de criptografia nos sistemas informatizados nos quais estão arquivados dados considerados sigilosos -o que a PF acredita não ter sido observado no acontecido.

De novo a PF, segundo a Folha, porque até agora não li nada dito pelo delegado da PF, ainda procurará saber, se ela acredita e não tem certeza (confiando que a Folha fala a verdade), isto também precisa ser investigado.

Com base no artigo 37 do decreto, a PF vai buscar os responsáveis e definir eventuais punições. Diz o seu parágrafo 1º: "Todo aquele que tiver conhecimento, nos termos deste decreto, de assuntos sigilosos, fica sujeito às sanções administrativas, civis e penais decorrentes da eventual divulgação dos mesmos".

Bem, uma coisa a PF já sabe: o senador Dias divulgou dados supostamente sigilosos do suposto Dossiê. Um a zero para o Tarso Genro que diz que fazer base de dados não é crime e sim divulgar dados sigilosos.
Pergunta que não quer calar: o que a PF está esperando para propôs à Justiça, ao Senado as sanções ao senador Álvaro Dias? Aliás é 'esquecimento' da Folha (que também já sabe que quem vazou os dados à imprensa foi Dias) não relacionar nesta matéria 'reveladora' esse vazamento do senador às sanções previstas no artigo 37 do Decreto de FHC?


Até a conclusão desta edição, a assessoria de imprensa da Casa Civil não respondeu aos recados deixados pela Folha.

Responder o quê? Às suposições da Folha sem uma única afirmação do encarregado do inquérito sobre uma investigação que tem 30 dias pra ser concluída? Creio que a Casa Civil tem mais o que fazer, não?

O dossiê contém informações sobre gastos com bebidas alcoólicas, entradas de cinema para seguranças que serviam à ex-primeira-dama Ruth Cardoso, além de pagamentos feitos a Roberta Sudbrack, chefe de cozinha do governo FHC.
Antes de definir em qual prática irregular ou ilegal poderá enquadrar os responsáveis por fazer o dossiê e por seu vazamento, a PF buscará desvendar a motivação dos atos.

Curioso, eu, como leitora, ainda tenho dúvidas se existe um dossiê, continuo acreditando na explicação da Casa Civil que diante de uma CPI em andamento a base de dados (inexistente no governo anterior) precisa ser construída. Portanto, é plausível que a motivação seja essa, mas já sabemos quem vazou para a imprensa e aí? Novamente, a Folha não foi ouvir envolvidos, estou sentido falta de saber o que o senador fofoqueiro pensa a respeito das sanções previstas no artigo 37 a quem fez o que ele fez, mas parece que a Folha não está tão curiosa como eu.

Na semana passada, o ministro Tarso Genro (Justiça) disse que não é crime montar dossiês. Crime, disse, é funcionário público vazar dado sigiloso.

Bem, o Tarso Genro não disse bem isso, porque o Genro sabe que dossiê é um conceito político, ele disse que não é crime a Casa Civil fazer a sua base de dados, do resto não veio da cabeça de Tarso o fato de ser crime o vazamento de dados sigilosos, foi o decreto de FHC de dezembro de 2002 que criminalizou tal vazamento.

Reportagem da Folha informou que o Planalto cogita admitir publicamente que fez um dossiê para comparar gastos do casal FHC com os gastos de Lula e Marisa Letícia para se prevenir contra eventuais revelações incômodas da PF.

De novo, de onde vem essa fonte da Folha? Esquisita essa afirmação, pois, Dilma nunca negou estar fazendo uma base de dados dos gastos com cartões corporativos do Governo FHC (dos sigilosos e dos não sigilosos) e explicou o porquê disso:
1º porque no governo FHC fossem gastos sigilosos ou não, eles não eram públicos como são públicos os gastos não sigilosos com cartões corporativos do Governo Lula;
2º Por que há uma CPI dos cartões corporativos em curso e nada mais lógico que a Casa Civil atenda as requisições do Senado.

Hoje deve ficar pronta a perícia nos sete computadores que a PF apreendeu na Casa Civil (cinco laptops e dois de mesa). Ela deve mostrar quem acessou os dados do dossiê, quem o elaborou, trocas de e-mails e até eventual alteração de informações. É com base nisso que a PF definirá a lista de quem será ouvido. A PF tem, no total, 30 dias para concluir o inquérito.

Aguardemos os resultados do inquérito.
Conclusão depois de ler esta matéria da Folha. Dá trabalho ler jornal, a gente sempre conclui que o que se noticia na manchete não é real, que precisamos desmontar parágrafo por parágrafo para colher alguma informação relevante e mais, que não há nada de novo no reino da 'Dinamarca'....


Segunda-feira, Abril 14, 2008

A polêmica sobre Luiz Lobo e a tv Brasil

Gerente da TV Brasil diz que vai processar jornalista

Agencia Estado
A gerente de Telejornais da TV Brasil, Jaqueline Paiva, vai processar por injúria o jornalista Luiz Lobo, ex-editor-chefe do Repórter Brasil, telejornal noturno da emissora. Demitido do cargo, Lobo a acusou de censurar textos jornalísticos da emissora para atender a interesses do Palácio do Planalto, onde seu marido, Nelson Breve, trabalha como assessor. Jaqueline nega a acusação, afirma que o jornal era fechado em equipe e acusa Lobo de faltar à maioria das reuniões de pauta e fechamento do noticioso. Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal que opera a estação, afirmou que Jaqueline terá que se explicar na comissão que apurará o caso. Lobo não quis comentar a ação.

"O que ele (Lobo) fez não tem preço", disse Jaqueline, explicando que a EBC custeará o processo e o advogado, segundo seu estatuto. "Ele expôs toda uma redação que trabalha sob cobrança intensa. Vamos ter que recomeçar tudo do zero." A jornalista afirmou ainda que não vê problemas em depor na comissão criada pelo Conselho Curador para apurar o episódio.

Segundo a gerente, Lobo foi contratado em novembro de 2007, mas nunca assinou contrato nem se integrou totalmente ao trabalho, chegando em geral às 16 horas, após as reuniões de pauta, realizadas diariamente às 11h. Nelas, com chefes do jornalismo da emissora de Brasília, Rio e São Paulo, são discutidos os assuntos cobertos ao longo do dia. "De 50 reuniões de pauta de 16 de janeiro até a saída de Luiz Lobo, ele foi a sete", declarou Jaqueline.

Procurado, Lobo não quis dar entrevista. "Não sei se tenho nada de novo para falar", disse. "Estou tomando conhecimento disso (do processo) por você. Não tenho informações a respeito. Meu objetivo nunca foi fazer embate político. O que eu disse, eu disse, mas prefiro não comentar."


Jornalismo preguiçoso 10/04/2008

Texto publicado originalmente em http://emerluis.wordpress.com/

O jornalismo mais preguiçoso que existe é o chamado jornalismo declaratório. O repórter não precisa nem levantar da cadeira; recebe um telefonema de alguém, que diz o que quer, geralmente sobre outro alguém. O repórter anota tudo, e em seguida, liga para o alvo do primeiro telefonema, dizendo que alguém está fazendo uma denúncia contra ele, e que precisa ouvir o que o segundo tem a dizer sobre isso. Pronto. Como o repórter "ouviu os dois lados da história", o dever dele está cumprido. Ele, então, aperta o "send" e manda o texto para o jornal.

Mas… e se o que o primeiro telefonema relatou for uma deslavada mentira? Uma história bem inventada, ardilosa, nascida de um coração partido? Arquitetada por um marido traído, namorado dispensado ou jornalista demitido?

Fica o dito e o contradito, palavra contra palavra. A verdade, o que aconteceu mesmo, é um mero detalhe. A mentira também. Mas, muitas vezes, um detalhe que achincalha reputações, mancha trabalho árduo. De um dia para o outro, a mentira vira verdade. Dois dias depois, vira editorial, embasa opiniões de outras pessoas. Até de colunistas muito sabidos, mas pouco conhecidos no mercado que eles insistem em comentar.

A série de reportagens envolvendo a TV Brasil, que começou na Folha de S. Paulo (justamente no Dia do Jornalista, 7 de abril) e espalhou-se sem reflexão por outros veículos é exemplo típico de jornalismo declaratório – o mais preguiçoso que existe. A manchete deixa claro: "Jornalista acusa Planalto de interferir na TV Brasil". A fonte é um jornalista que se diz "sob pressão insuportável" e acaba de sair da própria TV. Uau! É abre de página!

Quem é o jornalista? Luiz Lobo, o âncora, o editor-chefe. Deve ter pedido demissão, imolando-se pela causa do bom jornalismo. Não. Foi demitido. Sob alegação de que queria mandar sem estar presente. Detalhe, portanto. Chegava no fim da tarde e queria mudar os textos de um telejornal que começa a ser feito de manhã. Está na internet que ele é CEO e "founder" de uma produtora de vídeo nos Estados Unidos. Tudo isso deve dar muito trabalho. Há registro nas atas de reunião de pauta: entre 16 de janeiro e 04 de abril, dia em que foi demitido, o editor-chefe compareceu a sete (07) encontros, realizados às 11 da manhã. Neste período foram exatas 50 reuniões. Pouco mais de 10% de presença reprova qualquer um.

E se havia tanta "interferência do Planalto", "pressão insuportável", por que o jornalista demitido não pediu demissão antes? Por que a redação não saiu toda junto com ele, como, em carta enviada à direção da empresa, ele tinha dito que iria acontecer?

Mais detalhes: a "vítima" alega que foi pressionada por uma "interventora do Planalto". O repórter que ouve isso, então, faz o quê? Comprova as acusações, certo? Se houve pressão em favor do governo, é só ver as reportagens e como elas saíram. Os VTs estão no You Tube. Então dá pra verificar se a acusação é séria sem sair da cadeira. Ótimo, até para o jornalismo preguiçoso.

Mas o que está nas matérias é só outro detalhe. Oposição falando que é dossiê, governo dizendo que é base de dados. O que faz a TV Brasil? Mostra as duas versões, sem tomar uma delas como definitiva. Não se apropria dos termos que denotam acreditar num ou noutro lado. Fraca a interventora, não? Lê todos os textos e não publica a versão do governo. E permite os dois lados darem suas versões…

E a história da CPMF? A pauta surgiu de uma entrevista do presidente do Conselho Nacional de Saúde na Rádio Nacional, na qual ele alertava: com aquele orçamento, depois do corte motivado pela queda da CPMF, o dinheiro acabaria antes que o ano. Pauta aprovada na reunião - neste dia, na presença do editor-chefe. No ar, a reportagem mostrou filas, gente chorando, hospitais aos pedaços. Dizia que o dinheiro acabaria em setembro, mas não citava a CPMF. Ora: matérias precisam responder, sempre, os tais "quem, que, como, onde, quando e por quê". Faltava o último item. Logo, havia uma falha nela.

O que chegou ao telespectador foi uma reportagem com as mazelas da saúde sem falar no corte da CPMF. Virou prova de "censura" e "jornalismo chapa branca". Errado. Se foi ao ar (e foi), não houve censura. E não foi chapa branca; foi chapa preta. E como a chapa da TV Pública não tem cor, os responsáveis foram advertidos. Quem aprovou o VT não foi a "interventora". Foi o editor-chefe. Mas isso é só mais um detalhe.

A "interventora" tem mais de 15 anos de experiência em redações de TV em Brasília. É, sim, casada com um assessor do Planalto. Mas o que é que isso prova? James Carvile, famoso conselheiro de Bill Clinton (o que cunhou a frase "é a economia, estúpido") é casado com Mary Matalin, consultora política do partido republicano, adversário de Clinton. Casamento não é problema para gente que tem ética. Geralmente é para quem não tem.

Se há interferência, ela precisa aparecer em algum lugar. Além, claro, da cabeça do jornalista demitido e da manchete dos jornais.

O jornalista demitido alega que não tinha liberdade de sequer escrever manchetes. Pois bem: os veículos que publicaram a história se importariam de contar ao leitor como são escritas as suas próprias manchetes? Alguém faz isso sozinho? Ou passa por uma série de pessoas, num processo de revisão editorial? É assim em qualquer redação, por questão de controle de qualidade. Jornalismo é atividade conjunta, ainda mais numa emissora pública. Mais até num veículo em formação, no qual turnos de 12 ou 14 horas por dia, para as chefias, têm sido comuns. Menos para o editor-chefe.

A melhor resposta a qualquer acusação de partidarismo ou interferência na TV Brasil vai ao ar todos os dias, às oito da manhã e às nove da noite, nas duas edições do Repórter Brasil, nas emissoras públicas de 21 estados brasileiros. Também está nos noticiário difundido por mais de 500 emissoras de rádio, da Rede Nacional de Rádio. E no conteúdo da Agência Brasil, republicado por incontáveis jornais e na sua própria página na internet. Todos são veículos EBC. Não temos vergonha do jornalismo que praticamos. Não temos constrangimento.

Nem preguiça.

Eduardo Castro é gerente de jornalismo da EBC


Factóides de jornalismo: denúncia de “ex-âncora” não dura uma consulta no Google

Abril 7, 2008

A blogosfera conservadora começa a se animar com a informação errada passada pelo ex-âncora do Repórter Brasil, Luiz Lobo, de que o Palácio do Planalto controla o jornalismo da TV Brasil.

Demitido (e não cabe aqui dizer os motivos por ética profissional), Lobo se apressou a chorar no colo da mamãe imprensa, reclamando que existia “interferência” na pauta.

Na própria matéria da Folha ele cita um exemplo de pauta que qualquer chefe que aprovasse, seria tachado como louco, observem: “Fizemos uma reportagem falando que a verba do SUS [Sistema Único de Saúde] acabaria antes do fim do ano. A Helena [Chagas, diretora de jornalismo da TV Brasil] me chamou na sala dela e disse que era um absurdo uma matéria daquelas ir ao ar, porque em nenhum momento mencionava a falta dos bilhões da CPMF”, diz.

Um foca comum poderia imaginar: se a verba do SUS acabar antes do fim do ano, é sinal de um cataclisma, um descalabro administrativo. Para 2008 o orçamento foi aprovado em R$ 48 bilhões. Mesmo com a necessidade de mais verbas, como informou o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Júnior, em entrevista a Rádio Nacional replicada pela Agência Brasil (vejam só!) governo nenhum deixaria o fundo do SUS sem suplemento. Portanto, a idéia defendida pelo ex-âncora na entrevista para a Folha só serviria para fazer jornalismo-fanático e factóide.

Vejam vcs que a entrevista do presidente CNS foi concedida para a Rádio Nacional e Agência Brasil, veículos da EBC, a mesma empresa que comanda agora a TV Brasil. As matérias não são nada favoráveis ao governo e não maquiam a preocupação do Conselho Nacional de Saúde. Portanto, a alegação do “âncora” se desfaz como papel de seda ná água. A manchete da Agência Brasil trata com responsabilidade o assunto e sem alarmismo: Para conselho, orçamento da saúde é insuficiente para demandas de 2008.

Portanto, se o planalto orienta pautas da TV Brasil, deveria orientar tb as da Rádio e Agência, pela lógica, que não estão nada favoráveis ao governo.

As denúncias caolhas continuam

Abril 7, 2008

Vejam o que é jornalismo caolho.

O jornalista Daniel Castro da Folha, responsável pela coluna de TV Outro Canal do jornal, veiculou hoje a reclamação do jornalista Luiz Lobo, demitido da TV Brasil na última sexta. Lobo afirma que o Palácio do Planalto manipula o jornalismo da TV Brasil no casso do tal “dossiê” dos cartões, crise claramente fabricada pela mídia e pela oposição depois que o senador Álvaro Dias vazou os dados do seu próprio companheiro de partido e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num líbelo de falta de lealdade.

Os vídeos do jornal que eu mesmo publiquei no YouTube tratam das matérias sobre o “assustador dôssie”. Aliás, como disse um bom amigo na sexta, a única coisa que o tal dôssie conseguiu comprovar é que a dona Ruth era uma pessoa asseada.

Pois bem, vejam nos links abaixo os vídeos. O jornal trata de forma independente, e portanto muito crítica, as informações que vazaram do planalto. A oposição é ouvida com afinco, sempre, pela equipe de jornalistas do Repórter Brasil.

http://br.youtube.com/watch?v=cMT3kjGaDDo

http://br.youtube.com/watch?v=MNx6JOfdXcs

http://br.youtube.com/watch?v=XIrFl7k0SFo

http://br.youtube.com/watch?v=HLgJ2Plfq2A

http://br.youtube.com/watch?v=B9abu8E86vg

Esta é mais uma tentativa de desqualificar o jornalismo público, que não pensa com o viés do mercado privado e não usa usa qualquer informação para produzir factóides de mídia.

Domingo, Abril 13, 2008

PELA INSTALAÇÃO DA CPI DA DÍVIDA PÚBLICA


Pela instalação da CPI da Dívida!



Apenas durante o governo Lula foram destinados R$ 851 bilhões para o pagamento de juros...

O PSDB ainda não explicou onde foram parar os R$ 70 bilhões arrecadados com os leilões que entregaram as riquezas nacionais...

Além disso, é preciso questionar a legitimidade dos empréstimos contraídos pelos ditadores entre 1964 e 1985, já que eles não foram eleitos pelo povo...



Marcelo Salles
12.04.2008
___________________________________

Há um tema importantíssimo em discussão no Congresso Nacional: a instalação da CPI da Dívida Pública, que conta com o mais absoluto silêncio das corporações de mídia.

A iniciativa foi do PSOL, que se mobilizou desde fevereiro e conseguiu recolher, na Câmara dos Deputados, 185 assinaturas. São 14 a mais que o mínimo necessário. O deputado Ivan Valente disse ao blog que não há nenhum impedimento regimental para o início dos trabalhos; basta apenas vontade política do presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP), para que a CPI seja instalada. Em sua página na internet, Ivan pede a todos que enviem mensagens para Chinaglia cobrando a instalação imediata da CPI da Dívida Pública. O endereço é presidencia@camara.gov.br. A mensagem deve ser enviada com cópia para ivanvalente@uol.com.br e sol@chicoalencar.com.br, para que os deputados do PSOL também possam levar as cobranças pessoalmente.

Apenas durante o governo Lula foram destinados R$ 851 bilhões para o pagamento de juros. Durante o governo FHC, sua equipe econômica garantiu para o país que a privatização do patrimônio público serviria para liquidar essa dívida. Nossas empresas foram vendidas e a dívida só fez aumentar. O PSDB ainda não explicou onde foram parar os R$ 70 bilhões arrecadados com os leilões que entregaram as riquezas nacionais. Além disso, é preciso lembrar que o artigo 26 da Constituição Federal determina o seguinte: “No prazo de um ano a contar da promulgação da Constituição, o Congresso Nacional promoverá, através de Comissão mista, exame analítico e pericial dos atos e fatos geradores do endividamento externo brasileiro. § 1º - A Comissão terá a força legal de Comissão parlamentar de inquérito para os fins de requisição e convocação, e atuará com o auxílio do Tribunal de Contas da União. § 2º - Apurada irregularidade, o Congresso Nacional proporá ao Poder Executivo a declaração de nulidade do ato e encaminhará o processo ao Ministério Público Federal, que formalizará, no prazo de sessenta dias, a ação cabível”.

O país perde cerca de R$ 200 bilhões todos os anos apenas com os juros e os serviços da dívida pública. Diante de uma investigação séria, certamente serão constatadas fraudes. Além disso, é preciso questionar a legitimidade dos empréstimos contraídos pelos ditadores entre 1964 e 1985, já que eles não foram eleitos pelo povo. Todos temos o direito de saber quando, como, onde e em que circunstâncias essa dívida foi contraída em nosso nome. Parte deste dinheiro poderia – e deveria – ser destinado às políticas públicas de Saúde, Educação, Habitação, Comunicação Social e tantas outras áreas que hoje se encontram sucateadas devido às administrações neoliberais.

Felizmente, as corporações de mídia não possuem mais o poder que tinham antigamente. Houve ocasiões em que não foi possível abafar os anseios do povo, como aconteceu durante as manifestações das Diretas. Hoje, sobretudo com o advento da internet, é possível organizar manifestações, protestos, ações diretas, boicotes a empresas e tantas outras atividades que jamais seriam veiculadas pela mídia hegemônica em razão de seus interesses político-econômicos. Isto quer dizer que também podemos levar ao conhecimento público a informação de que a CPI da Dívida Pública está engavetada na mesa de Arlindo Chinaglia. Bastam alguns cliques para repassá-la aos nossos contatos e listas de discussão.





______________________________

Fonte: www.fazendomedia.com

Central de boatos de Brasília

Segunda-feira, Abril 07, 2008

a carta do Hélio para a Folha sobre a demissão do ombudsman

É de lavar a alma dos leitores exauridos do pseudo jornalismo das corporações, reproduzo-a na íntegra:

Voz dissonante foi sumariamente calada

A respeito do afastamento do jornalista Mário Magalhães, que ocupava o cargo de ombudsman da Folha de S. Paulo, o Hélio Sassen Paz escreveu a seguinte mensagem, que publicou em seu blog e endereçou ao jornal:

“Nunca vi tamanha arbitrariedade: a única voz dissonante e o único jornalista com J maiúsculo que trabalhava nas empresas do Grupo Folha foi sumariamente calada.

Por que é proibido criticar o pseudo-jornalismo praticado por pseudo-jornalistas que repetem um pensamento único comandado por seus pseudo-editores a mando de seus patrocinadores?

Vocês não passam de meros cupinchas e pelegos da pior espécie. Quem trabalha aí e é competente e bem-intencionado deveria repensar seus conceitos. Os poucos bons jornalistas da Folha não são escravos nem de sua direção, nem de seus patrocinadores.

Todas as corporações de mídia brasileiras sem exceção estão perdendo credibilidade, abrindo um precedente muito perigoso: o de darem o direito a seus consumidores e ex-consumidores jogarem em uma vala comum centenas de profissionais de Comunicação julgando-os covardes por preferirem achar que fazem um bom trabalho só porque fazem parte de uma das raras corporações de mídia que paga um salário acima da média de mercado para ficarem calados diante do lado da história que vocês não mostram à sociedade.

A pretexto de reivindicar uma liberdade de imprensa sem responsabilidade e sem concorrência dissonante quando o Governo propõe uma TV pública nos moldes da BBC; ou de ridicularizar blogs de pessoas responsáveis que sabem que podem pagar caro se mentirem ou se acusarem sem provas (justamente por isso é que falam a verdade), ao blindarem os governos Serra, Kassab, Yeda, Fogaça e Aécio de uma série de escândalos que são de conhecimento público através de fontes alternativas que não possuem o mesmo alcance que vocês estabeleceram através de benesses da ditadura militar.

Ao contrário do que pensam, vocês não são nem o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro e tampouco o “quarto poder”.

Folha, Globo, Abril, Estado, RBS, SBT, Band, Record e outros menos votados… Assim como a Folha, todos esses enormes conglomerados oferecem tão pouca informação capaz de fazer a diferença na rotina da sociedade e de contribuir para a auto-estima e para o crescimento positivo de todos, independentemente de crença ou de ideologia…

Parece que ser profissional nessas empresas virou sinônimo de subserviência, peleguismo, puxa-saquismo, parcialidade e má fé. Pelo menos é para esse caminho que vocês estão levando os leitores mais críticos e independentes do agenda-setting do status quo ao qual a mídia corporativa da qual o Grupo Folha faz parte a pensar.

E isso é triste demais não apenas para a profissão de jornalista mas, sim, para um país inteiro. Cada vez mais vocês precisam torrar milhões em publicidade institucional e em endomarketing para provarem a si mesmos que fazem um trabalho respeitável.

Não vou dizer que veículos de baixa circulação e de maior credibilidade estejam “certos” ou que sejam perfeitos. Afinal de contas, não existe imparcialidade. Essa é a maior falácia do jornalismo. Todavia, seria muito mais justo e honesto da parte de vocês todos que estão mancomunados com seus patrocinadores políticos e empresariais (todos os veículos de todos os meios de comunicação afiliados ou parceiros das corporações Folha, Estado, Globo, Abril, RBS, SBT, Band, Record e outros menos votados) que fizessem como no jornalismo francês: ao invés de enganar as pessoas, lá eles são constantemente informados quais são os veículos de esquerda, quais são os de direita, quais são os que defendem o neoliberalismo, quais defendem o socialismo, quais defendem a pena de morte, quais são contrários a ela, quais defendem o aborto e quais são contra o aborto e assim por diante.

Guy Debord dissecou muito bem o fenômeno da Sociedade do Espetáculo, que justifica plenamente o modus operandi da mídia corporativa ao transformar notícia em show e show em notícia: ao invés de utilizarem a batidíssima (e justa) técnica da pirâmide invertida que qualquer macaco lobotomizado que sonhe em ser foca conhece de cor e salteado, vocês editorializam toda e qualquer notícia. Ao invés de deixarem suas opiniões para os editoriais, agem como se fossem velhinhas fofoqueiras que passam o dia inteiro na janela observando a vida dos outros para terem o que “assuntar” com as “comadres” enquanto esperam a morte chegar.

Sei que vocês jamais irão entrar em contato comigo e sequer irão publicar esta crítica. Mas quem planta vento, colhe tempestade.

Encerro esta longa missiva que, se houver vida inteligente e honesta aí dentro, será pelo menos lida e refletida pela pessoa que abrir este e-mail, com uma citação que faz com que muito mais pessoas do que o “aquário” imagine lembrem que vocês foram porta-vozes que cresceram e enriqueceram com a ditadura militar a qual chamaram de “revolução”:

“Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto.” (William Shakespeare)

[]’s,
Hélio Sassen Paz
Porto Alegre/RS - Brasil


Domingo, Abril 06, 2008

Retrocesso sem precedentes

Ainda retirado do blog do Edu. Guim.:

*
Reproduzo, abaixo, os trechos mais relevantes da última coluna dominical de Mário Magalhaes como ombudsman da Folha de São Paulo. Antes, porém, explico que, por ter estabilidade de seis meses no cargo em caso de demissão, conforme é previsto nos estatutos do jornal, Magalhães continuará trabalhando na sucursal da Folha no Rio de Janeiro. Certamente será demitido ou se demitirá quando terminar o prazo de estabilidade - ou antes.

Folha de São Paulo, domingo, 06 de abril de 2008

MÁRIO MAGALHÃES - OMBUDSMAN

Despedida

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto

NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.
De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia. Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.
A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.
A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL. A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los. Não poderão mais.
Regressão

A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica "um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado". Reconhece que "o leitor fiscaliza a pauta de compromissos" do jornal.
O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles. Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.
O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir? A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.
Diante da gravidade dos fatos, conclamo os leitores deste blog a enviarem e-mail à Folha protestando. O e-mail é leitor@uol.com.br

do blog do Eduardo Guimarães

Reproduzo na íntegra o artigo do Edu Guim, porque de novo é aterradora a ação da Folha.
Desta vez, despede seu próprio ombudsman. Melhor fechar para balanço, pois esse jornal perdeu toda a sua pouca credibilidade.
**********
05/04/2008
A gota d'água

Escrevo no momento em que acabo de ser surpreendido pela notícia indigesta, divulgada no blog de Luis Nassif, de que o ombudsman da Folha de São Paulo, Mario Magalhães, deixou o cargo porque não aceitou parar de publicar sua "crítica interna" diária na internet. Pelo que pude entender, o jornal deveria estar pretendendo que o jornalista só se manifestasse na coluna do ombudsman na edição impressa de domingo.
Venho acompanhando o trabalho dos ombudsmans da Folha desde 1998. Li, creio, uns 80% das críticas diárias dos quatro últimos ombudsmans da Folha, Renata Lo Prete, Bernardo Ajzemberg, Marcelo Beraba e Mário Magalhães. Com exceção de Lo Prete, que hoje assina a coluna Painel, nenhum dos outros ombudsmans, com a óbvia exceção de Magalhães, escreveram mais na Folha.
Isso se explica porque Ajzemberg, Beraba e Magalhães, à diferença de Lo Prete, que se "comportou bem" e foi mantida, foram críticos duros do jornal. E um dos pontos em que todos eles bateram reiteradamente, durante seus mandatos, foi na diferença com que a Folha sempre tratou petistas e tucanos. Estando o PT na oposição ou no governo ou o PSDB na oposição ou no governo, ambos recebiam o mesmo tratamento diametralmente diferente do jornal em relação a cada um, no dizer desses três jornalistas: mão pesada contra petistas e mão leve (com trocadilho) para os tucanos.
Quero testemunhar, no entanto, que nunca, jamais algum dos ombudsmans da Folha, além de Magalhães, teve a coragem que ele teve de escrever aquela coluna que publiquei aqui no dia 31 de março e que ainda pode ser encontrada nesta página, intitulada "Um dossiê e muitas incertezas". Aquela foi a gota d'água de um trabalho íntegro, irremediavelmente independente, cirurgicamente preciso, impassivelmente sereno e equilibrado desse jornalista com jota maiúsculo que desponta nesta época de tanta escassez desse tipo de jornalista.
Magalhães escreveu, por exemplo, um dos mais importantes textos jornalísticos que juntei à representação do Movimento dos Sem Mídia entregue ao Ministério Público Federal em 17 de março passado, que pede que meios de comunicação, dentre eles a Folha, sejam responsabilizados por promoverem alarma social na questão da febre amarela.
No texto do agora ex-ombudsman da Folha, para que se tenha uma idéia ele chega a comentar, depois de cobrar a conduta alarmista da redação do jornal, que não lhe foi explicado por ela a diferença entre a cobertura serena que o veículo produziu em 2000, quando José Serra era ministro da Saúde e morreram 85 pessoas de febre amarela, e a cobertura histérica deste ano, quando o número de mortes está sendo muito menor.
Magalhães ousou demais. Fez o que nunca outro ombudsman da Folha fez. E o jornal, ao fazer o que fez com ele, desmoralizou o cargo de ombudsman do qual sempre se gabou de ter criado, comunicando aos seus leitores que aquele cargo não é para valer. "Excesso" de transparência e de independência nas críticas, não. Muito democrático. É a cara do PIG. Opaco, autocrático, truculento. E covarde.
*
Leiam, abaixo, a última crítica interna do ombudsman, publicada no dia 3 de abril, no dia seguinte à já antológica coluna "Um dossiê e muitas incertezas". Considerem essa minha homenagem a esse grande jornalista que acaba de despontar no cenário nacional e que alentou minha fé nesse tão nobre ofício que é o jornalismo, que eu só abraçaria se fosse para exercê-lo como faz Mário Magalhães.
03/04/2008

"Risco de cair"

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

Título da Folha na sexta feira passada (alto da pág. A7, edição São Paulo): "Para governo, caso é grave e exige resposta rápida da ministra".

Abertura: "A cúpula do governo avalia que a situação política da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, se agravou e que ela precisa dar uma resposta rápida. Do contrário, corre risco de cair. Segundo apurou a Folha, essa resposta seria a demissão dos servidores da Casa Civil que elaboraram um dossiê sobre gastos secretos do governo Fernando Henrique Cardoso". Mais: "Um ministro de Lula classificou a informação [sobre o 'documento vazado para a imprensa'] de gravíssima".

Ou a ministra é forte demais e dá de ombros à "cúpula do governo", ou a história, integralmente baseada em fontes não nomeadas, parece não estar bem amarrada. Mais que isso, sugere que adversários de Dilma no governo aproveitaram o anonimato para alvejá-la.

Manchete do "Estado" no domingo: "Planalto vai tirar Dilma da vitrine eleitoral".

É outra informação que, pelo menos até agora, não se confirmou, pelo contrário.

Os dois episódios exemplificam os riscos da cobertura das crises e intrigas brasilienses.

Hoje a Folha cometeu, creio, um erro ao omitir na primeira página o confronto de ontem no Congresso. O senador Álvaro Dias admitiu ter visto o dossiê antes de sua divulgação. Dar destaque ao fato não implica tomar partido no noticiário, mas reconhecer a importância da declaração.

O "Estado" titulou na parte superior da capa: "Governistas acusam tucano de vazar dossiê dos cartões".

O senador afirmou ontem: "Na segunda, logo após a circulação da revista 'Veja' no domingo, desta tribuna afirmei ter visto o dossiê".

Hoje o título (de sentido dúbio) da Folha é "Aliados pressionam tucano que admitiu ter visto dossiê" (alto da pág. A6).

Se Dias conta a verdade, por que a Folha --e o conjunto ou parcela significativa do jornalismo-- não publicou a declaração do senador assim que ele a fez? Por que só agora?

O senador tem razão: ele está protegido por garantia constitucional de não revelar a fonte que lhe permitiu acesso ao dossiê. Essa prerrogativa deve ser defendida pela democracia. Ela assegurou revelações importantes, oriundas de parlamentares, que os cidadãos conheceram por meio do jornalismo.

Dúvida: Dias avisou FHC sobre o dossiê? Se não avisou, como houve chantagem? Quem foi chantageado?

Seis dias atrás, a Folha manchetou: "Braço direito de Dilma montou dossiê".

O relato continua a carecer de comprovação, e o jornal o flexibiliza. Hoje diz que a assessora "deu ordem para a compilação de dados". Ou que ela "assumiu a ordem para a confecção de um 'banco de dados'". O "furo" da sexta virou, também, a "ordem para elaborar o banco de dados".

O banco de dados não é o dossiê. O dossiê de 13 páginas foi elaborado a partir de informações do banco de dados. Pelo menos é o que eu entendi da cobertura.

O quadro "Perguntas e respostas" (pág. A6) confunde, em uma passagem: "A Folha chama o arquivo de dossiê". Até aqui, a rigor, o jornal chamou o relatório de 13 páginas de "dossiê", e não o "arquivo paralelo ao sistema oficial de controle de gastos".

O jornal já afirmou que a Casa Civil assumira a autoria do dossiê (considero como dossiê o relatório de 13 páginas). Na edição de sábado, entretanto, Dilma disse o contrário: sua pasta reconhecia a produção da "base de dados", da qual foram retiradas as informações que constam do dossiê.

Quem contradiz a ministra, hoje, é o seu chefe. Lula afirmou que alguém "roubou peças de um documento de um banco de dados". Ou: "Nunca saberemos quem foi que pegou o documento de um banco de dados e vendeu como se fosse dossiê".

Segundo Lula, as 13 páginas são um documento do "banco de dados". A ministra dissera que as 13 páginas não foram elaboradas por sua equipe, mas confeccionadas por alguém de identidade ignorada a partir de informações classificadas na Casa Civil.

Na sexta, a Folha informou que teve acesso ao dossiê e publicou trecho dele em fac-símile. Por que não permitiu que os leitores conhecessem, pelo menos na internet, a íntegra do documento, para tirarem suas próprias conclusões? O blog do Noblat faz isso agora. Ainda é tempo de o jornal fazer.

O noticiário de hoje reforça a impressão de que governo e oposição se empenham no desgaste mútuo, mas nenhum está, realmente, disposto a investigar os gastos palacianos das gestões atual e passada. Se Álvaro Dias conheceu e repassou? um documento que considerava manipulação de informações sigilosas por funcionário público para fim de divulgação e chantagem, por que não denunciou o fato à Polícia Federal e pediu abertura de inquérito?

O mesmo vale para o governo, que qualificou como criminoso o vazamento de informações da Casa Civil protegidas por sigilo. Por que o Planalto não pediu inquérito à PF? Em vez disso, o Ministério da Justiça se moveu em sentido contrário, para abafar o caso.

Mantêm-se muitas dúvidas. Sobre quem, a partir da dita "base de dados", montou o relatório de 13 páginas. Quem vazou o dossiê para fora do Planalto. E quem fez uso dele --embora essa resposta tenha começado a ser delineada ontem.

Outra incerteza permanece: o dossiê é incapaz de causar dano a FHC; como instrumento de chantagem, é inexpressivo (a não ser, repito, que sinalize o conhecimento sobre outras despesas, cabeludas); ele faz mal, mais que ao governo, a Dilma Rousseff; por que a ministra o patrocinaria?

É bom que o jornal, mesmo com o silêncio da primeira página, tenha recuado na cobertura de tom unilateral.

Como se vê nas páginas da Folha, há mais perguntas que respostas no caso do dossiê.

Sábado, Abril 05, 2008

Como diz o Mello, nada como uns Dias depois de outros

É completamente assustador como a grande mídia brasileira perdeu completamente qualquer compromisso com a ética e não apenas para vender mais jornal, mas para criar uma crise política atrás da outra.
Quem perde é o país, vou começar a concordar com Paulo Henrique Amorim, a grande mídia pautada por Veja é golpista, não tem outra explicação. Ela não aceita um governo legitimamente eleito e com alta taxa de aprovação, o que é isso se não pura expressão de golpismo?
Vejam o pronunciamento completo da ministra da Casa Civil que contesta e prova que a Folha mentiu e produziu 'provas' e fatos que não existem!
Assista o pronunciamento completo

Sexta-feira, Abril 04, 2008

Mais uma pseudo crise inventada pela mídia e com o apoio tucano

A pergunta que não quer calar foi formulada brilhantemente pelo Mello:
"Como pode um senador da República ter em mãos documentos sigilosos, provavelmente surrupiados de forma clandestina e não acionar a PF ou denunciar a sujeira no Senado?"

Eu ando fazendo essa pergunta todos os dias e buscando a resposta pela imprensa, nada e até mesmo entre uns blogueiros que se dizem de 'visão humanista e de esquerda', nem sobra da pergunta, quiçá de alguma resposta coerente.

Será que ninguém mais vai fazê-la?

Como a ética é relativa, né? Só cabe pra alguns, geralmente pra o inimigo político. Enquanto isso no STF o Sr Ives Gandra, advogado dos Demo e das Universidades privadas, quer que o Supremo julgue como inconstitucional o PROUNI...

Em relação à grande mídia e grandes portais, o Terra está dando um banho no jornalismo investigativo nati-morto dos jornalões como Folha, Estado e o carro chefe do anti-jornalismo Veja. O Terra foi o único portal que conseguiu arrancar de Álvaro Dias a confissão que foi dele que partiu um falso dossiê, vazado para Veja.

E aí 'cidadãos de bem', ninguém vai sair às ruas, cansados dessa quebra de decoro parlamentar? Como é possível que um homem público pago por nós, não tenha imediatamente chamado à polícia federal neste episódio?

Sexta, 4 de abril de 2008, 08h55

Dirceu: "Álvaro Dias conspirou contra ministra"

O ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, para quem houve uma "conspiração" no caso do dossiê; ele cobra do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) que revele quem passou os dados sigilosos ao parlamentar

Raphael Prado

O cargo que podia terminar no paredão de fuzilamento, à espera da sentença política nos últimos dias, já foi dele. Ele já passou pelo fuzilamento. E caiu. José Dirceu de Oliveira e Silva foi o primeiro ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, cargo hoje ocupado pela ex-companheira de guerrilha, Dilma Rousseff.

Veja também:
» Álvaro Dias admite que foi fonte da Veja
» FHC: 'Dilma deveria demitir sua assessora'
» Lula: Dilma não pode ser chantageada

Nesta conversa exclusiva com Terra Magazine ele comenta a divulgação, pela revista Veja, de um suposto dossiê com gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama, Ruth Cardoso. E também a informação do Blog do Noblat, de que a oposição divulgara o dossiê para a imprensa. Terra Magazine arrancou do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) que o parlamentar era um dos informantes da revista semanal.

- Quem devia ser processado por quebra do decoro e por conspirar para derrubar uma ministra de Estado é o senador Álvaro Dias. Porque isso é uma conspiração política. Está evidente - ataca Dirceu.

Dirceu deixou de ser o braço-direito do presidente no rastro de um escândalo de o apontava como operador do que ficou conhecido como mensalão - uma anunciada compra de parlamentares pelo apoio no Congresso Nacional.

Para o ex-ministro e também ex-presidente do PT, o episódio dos dossiê sobre gastos pessoais teve a clara intenção de atingir Dilma Rousseff. A atual ocupante da Casa Civil, é sabido, está nos planos petistas como candidata à sucessão do presidente Lula. Ministra e governo, diz Dirceu, são "vítimas" desse caso:

- Foi para atingir a ministra (Dilma Rousseff) e foi organizado. Porque é evidente que toda a cúpula tucana sabia que o senador Álvaro Dias era a fonte e tinha as informações.

Embora já tenha ocupado a Casa Civil, Dirceu não imagina quem possa ter obtido as informações e repassado ao senador. Mas cobra:

- Ah, isso é uma coisa que ele precisa explicar.

Dirceu vai além. Não descarta a hipótese de que os próprios tucanos possam ter elaborado os documentos com informações confidenciais de FHC para incriminar a ministra Dilma. Repete quatro vezes:

- Não é improvável. Não diria que é impossível. Não diria que é impossível. Isso é preciso apurar, mas eu não diria que é impossível.

A seguir, leia a íntegra da entrevista com o ex-ministro da Casa Civil:

Terra Magazine - O que o senhor achou desse caso todo?
José Dirceu - É uma conspiração, na verdade. É gravíssimo. Não é só um ilícito, um crime vazar dados sigilosos. Ninguém quebra sigilo, o sigilo se transfere. E a autoridade que o recebe legalmente tem que preservá-lo. Parlamentar não pode, a legislação não permite que um parlamentar possa abrir um sigilo do qual ele é responsável. No caso, foi para atingir a ministra (Dilma Rousseff) e foi organizado. Porque é evidente que toda a cúpula tucana sabia que o senador Álvaro Dias era a fonte e tinha as informações.

Como o senhor acha que ele obteve essas informações?
Ah, isso é uma coisa que ele precisa explicar. Alguém lhe passou essas informações. E os dois são responsáveis, criminalmente, por terem vazado essa informação.

Então houve alguém no governo também que estava comprometido com isso?
A hipótese mais viável é essa, mas isso precisa ser comprovado. O que já está comprovado é que o senador Álvaro Dias foi a fonte da Veja e teve acesso às informações. E que não existe um dossiê, isso fica provado agora também. Que não foi feito dossiê nenhum.

Nessa conspiração a que o senhor se refere, existe participação da mídia?
Veja bem... da maneira que a Veja, sabendo que a fonte era um senador tucano, se comportou, e evidentemente pode se amparar no sigilo da fonte que a Constituição garante, mas é evidente que há conivência. No mínimo uma conivência. E insistir, como a Folha de S.Paulo continua insistindo, que o governo ou a ministra-chefe da Casa Civil têm que dar explicações sobre um dossiê... O que tem que ser cobrado agora é a cúpula tucana. Como eles, sabendo que essa era uma informação que o senador Álvaro Dias teve acesso e passou para a revista, enganaram o País todo? Pararam, praticamente, a CPI dos Cartões Corporativos em torno de um dossiê que eles sabiam que não existia.

Mas o próximo passo de quem divulgou os dados não vai ser justamente continuar vinculando o vazamento ao governo?
Mas por que prejudicaria o governo se o governo não teve participação, não foi conivente? Está evidente já que o governo é vítima. Porque nesse caso, o governo, a ministra Dilma, são vítimas. E não autores de qualquer tipo de ação política ou ilegal como vazar informações confidenciais.

Só que esses dados, seja um dossiê ou não, foram elaborados por alguém.
Mas uma coisa é estar no governo, outra coisa é ser governo. Uma coisa é ser funcionário do governo, outra coisa é ser orientado, instruído pelo governo. Isso é preciso esclarecer.

Esses gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique e da ex-primeira-dama, provavelmente, o próprio PSDB tinha, já que é o partido do ex-presidente...
...é evidente que eles tinham.

O senhor acha possível que eles próprios, psdbistas, tenham elaborado esse "dossiê"?
Não é improvável. Não diria que é impossível. Não diria que é impossível. Isso é preciso apurar, mas eu não diria que é impossível. Da forma como eles se comportaram, da maneira como eles enganaram o País, tudo é possível. Inclusive que isso tenha sido, na verdade... que eles tenham elaborado um dossiê. E não o contrário.

Qual é a perspectiva do desfecho desse caso?
No meu ponto de vista, como cidadão, esse caso está encerrado. O que precisa agora é a sindicância que existe na Casa Civil, ou autoridade competente, esclarecer a fonte. O próprio senador Álvaro Dias pode declarar qual foi a fonte dele. Resolve todo o problema.

E na CPI dos Cartões, essa história de convocar a ministra Dilma...
Não vejo nenhum sentido mais nisso. Quem tem que dar explicações ao País é o senador Álvaro Dias. Quem devia ser processado por quebra do decoro e por conspirar para derrubar uma ministra de Estado é o senador Álvaro Dias. Porque isso é uma conspiração política. Está evidente. Ela é pública, ela foi desvendada totalmente.

Terra Magazine