| ||||||||||
Segunda-feira, Março 31, 2008
O silêncio e a Calúnia- Mino Carta
Sexta-feira, Março 21, 2008
O SONHO DE ALGUNS NÃO PRECISA SER CONQUISTADO À CUSTA DO SONHO DOS DIFERENTES
BARACK OBAMA E O RACISMO: O SONHO DE ALGUNS NÃO PRECISA SER CONQUISTADO À CUSTA DO SONHO DOS DIFERENTES
Tradução Luiz Carlos Azenha: Atualizado em 21 de março de 2008 às 10:56 | Publicado em 21 de março de 2008 às 00:21
O senador Barack Obama conquistou um importante apoio: o do governador Bill Richardson, do Novo México, provável candidato a vice-presidente se Obama for o escolhido do Partido Democrata. Richardson, além de amplo conhecimento em política externa, tem experiência administrativa e é hispânico. Ou seja, em eleições gerais pode atrair um bloco de eleitores essencial para vencer em estados como o Arizona, o Novo México, o Texas e a Califórnia.
Abaixo, reproduzo íntegra do discurso de Barack Obama sobre questões raciais nos Estados Unidos, que em minha opinião encerra idéias que se aplicam inclusive ao Brasil. Acho que vale a pena ler, imprimir, espalhar e reproduzir. A tradução, como sempre, é amadora.
Fala, Obama:
"Nós, o povo, com o objetivo de formar uma União mais perfeita.
Duzentos e vinte e um anos atrás, em um salão que ainda existe do outro lado da rua, um grupo de homens se reuniu e, com estas palavras simples, lançou a improvável experiência em democracia dos Estados Unidos. Agricultores e estudiosos; estadistas e patriotas que atravessaram um oceano para escapar da tirania e de perseguição religiosa finalmente leram sua verdadeira declaração de Independência numa convenção da Filadélfia que atravessou a primavera de 1878.
O documento que eles produziram eventualmente foi assinado, mas nunca concluído. Foi manchado pelo pecado original desta nação, a escravidão, uma questão que dividiu as colônias e levou a convenção a um impasse, até que os fundadores decidiram permitir que o comércio de escravos continuasse por mais vinte anos, deixando qualquer resolução final para as futuras gerações.
Naturalmente, a resposta para a questão da escravidão já estava contemplada em nossa Constituição - uma Constituição que tinha em seu núcleo a igualdade dos cidadãos diante da lei; uma Constituição que prometeu ao povo liberdade, justiça e uma união que poderia e deveria ser aperfeiçoada com a passagem do tempo.
E ainda assim palavras em um pergaminho não foram suficientes para livrar os escravos da servidão, ou garantir a homens e mulheres de todas as cores e credos seus direitos e obrigações como cidadãos dos Estados Unidos. Seriam necessárias gerações sucessivas de americanos dispostos a fazer sua parte - através de protestos e lutas, nas ruas e nos tribunais, em uma guerra civil e com desobediência civil e sempre correndo grande risco - para reduzir a distância entre a promessa de nossos ideais e a realidade de seu tempo.
Esse foi um dos objetivos estabelecidos no início desta campanha - continuar a longa marcha daqueles que vieram antes de nós, a marcha pelos Estados Unidos mais justos, mais iguais, mais livres, mais acolhedores e mais prósperos.
Eu decidi concorrer à presidência nesse momento da História porque acredito profundamente que não podemos enfrentar os desafios de nosso tempo a não ser que o façamos juntos - a não ser que aperfeiçoemos nossa União entendendo que podemos ter origens diferentes, mas temos também esperanças comuns; que não somos parecidos, nem viemos dos mesmos lugares, mas todos queremos ir na mesma direção - em busca de um futuro melhor para nossos filhos e netos.
Essa crença vem de minha fé indossolúvel na decência e na generosidade do povo americano. Mas também vem de minha própria história.
Sou filho de um homem negro do Quênia e de uma mulher branca do Kansas. Fui criado com a ajuda de um avô branco que sovreviveu à Depressão e lutou no exército de Patton durante a Segunda Guerra Mundial e de uma avó branca que trabalhou numa fábrica de bombardeiros em Fort Leavenworth enquanto o marido estava além-mar. Fui a algumas das melhores escolas dos Estados Unidos e vivi em uma das nações mais pobres do mundo. Sou casado com uma negra americana que carrega nela o sangue de escravos e donos de escravos - uma herança que passamos às nossas duas preciosas filhas. Eu tenho irmãos, irmãs, sobrinhas, sobrinhos, tios e primos de todas as raças e tons de pele, espalhados em três continentes e, enquanto viver, jamais vou esquecer que em nenhum outro lugar da Terra minha história seria possível.
É uma história que não me tornou o candidato mais convencional. Mas é uma história que introduziu em minha herança genética a idéia de que esta Nação é mais do que a soma de suas partes - de todas as que existem, somos verdadeiramente únicos.
Ao longo do primeiro ano desta campanha, contra todas as previsões, vimos a fome do povo americano pela mensagem de unidade. Apesar da tentação de ver minha candidatura puramente através de lentes raciais, conseguimos grandes vitórias em estados com algumas das populações mais brancas do país. Na Carolina do Sul, onde a bandeira da Confederação ainda tremula, construímos uma poderosa coalizão de afroamericanos e americanos brancos.
Isso não significa negar que a questão racial faz parte de nossa campanha. Em vários estágios, alguns comentaristas me chamaram ou de muito negro ou de não suficientemente negro. Vimos tensões raciais emergir durante a semana que antecedeu as prévias da Carolina do Sul. A mídia rastreou todas as pesquisas de boca-de-urna em busca de indícios de polarização racial, não apenas em termos de brancos e negros, mas negros e morenos também.
Ainda assim, apenas nas semanas mais recentes o debate racial tomou um caminho particularmente divisionista.
De um lado, ouvimos a sugestão de que minha candidatura de alguma forma é exercícios das políticas de ação afirmativa; que se baseia somente no desejo de liberais de comprar reconciliação racial pagando pouco. De outro lado ouvimos meu ex-pastor, o reverendo Jeremiah Wright, usar linguagem incendiária para expressar opiniões que têm o potencial não só de aumentar a divisão racial, mas de denegrir tanto a grandeza quanto a bondade de nossa Nação; e isso com ofendeu tanto brancos quanto negros.
Já condenei, de forma inequívoca, as declarações do reverendo Wright que causaram tal controvérsia. Para alguns, algumas dúvidas persistem. Eu sabia que ele foi ocasionalmente um crítico feroz da política doméstica e exterior dos Estados Unidos? Naturalmente. Alguma vez ouvi declarações controversas dele enquanto estava na igreja? Sim. Discordei fortemente de muitas das opiniões políticas dele? Claramente - assim como muitos de vocês já ouviram declarações de seus pastores, padres ou rabinos das quais discordaram frontalmente.
Mas as declarações que causaram a recente tempestade não foram simplesmente controversas. Não foram apenas resultado da tentativa de um líder religioso de falar contra uma injustiça. Em vez disso, expressaram uma visão distorcida deste país - uma visão em que o racismo branco é endêmico, que eleva o que está errado com os Estados Unidos acima de tudo o que está certo; uma visão que vê os conflitos no Oriente Médio primariamente como resultado das ações de aliados como Israel, em vez de emanados da ideologia perversa e odiosa do islamismo radical.
Assim sendo, as declarações do reverendo Wright não foram apenas errôneas, mas divisivas, divisivas em um período em que precisamos de unidade; racilamente carregadas em um momento em que precisamos de união para confrontar uma série de problemas monumentais - duas guerras, a ameaça terrorista, uma economia decadente, uma crise de saúde pública e mudanças no clima potencialmente devastadoras; problemas que não são de negros, brancos, latinos ou asiáticos, mas problemas que desafiam a todos nós.
Dada minha origem, minha carreira política e meus valores e ideais, não há dúvida de que haverá aqueles para os quais minhas declarações e condenações não são suficientes. Por que me associei com o reverendo Wright? Por que não procurei outra igreja? Confesso que se tudo o que eu conhecesse do reverendo Wright fossem os trechos de sermões repetidos continuamente na televisão e no You Tube - ou se a Igreja Unida da Trindade fosse a caricatura vendida por alguns comentaristas - não há duvida de que reagiria da mesma forma.
Mas a verdade é que isso não é tudo o que conheço do homem. O homem que encontrei há mais de vinte anos é o homem que me ajudou a adotar a fé cristã; o homem que falou de nossa obrigação de amar uns aos outros; de cuidar dos doentes e ajudar aos pobres. Ele é um homem que serviu a este país como fuzileiro naval; que estudou e deu palestras em algumas das mais importantes universidades e seminários e que por mais de trinta anos dirigiu uma igreja que serviu à comunidade fazendo na terra o trabalho de Deus - ao abrigar os sem-teto, alimentar os necessitados, dar creche e bolsas de estudo, pregar nas prisões e sair em busca daqueles que sofrem de AIDS.
Em meu primeiro livro, Sonhos de Meu Pai, descrevi a experiência de meu primeiro culto:
"Fiéis começaram a gritar, a se levantar dos assentos e a bater palmas, como se um vento carregasse as palavras do reverendo pela igreja... E naquela simples nota - esperança! - eu ouvi algo diferente; aos pés da cruz, dentro das milhares de igrejas de toda a cidade, eu pensei nas histórias comuns das pessoas negras se fundindo com as de Davi e Golias, de Moisés e do Faraó, dos cristãos nas jaulas dos leões, do campo de ossos secos de Ezequiel. Essas histórias - de sobrevivência e liberdade e esperança - se tornaram nossas histórias, minha história; o sangue que foi derramado foi nosso sangue, as lágrimas nossas lágrimas; assim que aquela igreja negra, naquele dia claro, parecia ser de novo uma nave carregando a história de nosso povo para futuras gerações e para um mundo mais amplo. Nossas atribulações e triunfos, ao mesmo tempo únicas e universais, negras e mais do que negras. Ao descrever nossa história, os episódios e a música nos permitiram resgatar memórias das quais não tínhamos vergonha... memórias que todos poderiam estudar e celebrar - e com as quais poderíamos começar a reconstrução."
Essa tem sido minha experiência na Trindade. Como em outras igrejas proeminentes em todo o país, a Trindade encampa toda a comunidade negra - o médico e mãe que depende de ajuda pública, o estudante modelo e o ex-bandido. Como outras igrejas negras, os cultos da Trindade são cheios de gargalhadas e algumas vezes de humor vulgar. São repletos de dança, de palmas, de gritos - que podem assustar ouvidos que não estão acostumados. A igreja contém em si toda a bondade e a crueldade, a tremenda inteligência e a chocante ignorância, as lutas e sucessos, o amor e, sim, a amargura e o preconceito que fazem parte da experiência negra americana.
E talvez isso ajude a explicar meu relacionamento com o reverendo Wright. Ele pode ter sido imperfeito, mas é como um integrante da família. Ele reforçou minha fé, celebrou meu casamento e batizou minhas crianças. Nunca ouvi em minhas conversas com ele qualquer referência a grupos étnicos em termos depreciativos; nunca o vi tratar os brancos que não fosse com cortesia e respeito. Ele carrega as contradições - as boas e as ruins - da comunidade à qual serviu com dedicação por tantos anos.
Não posso deserdá-lo assim como não posso deserdar a comunidade negra. Não posso deserdá-lo assim como não posso fazer isso com minha avó branca - a mulher que ajudou a me criar, a mulher que se sacrificou continuamente por mim, a mulher que me ama mais do que a qualquer coisa nesse mundo, a mesma mulher que certa vez confessou ter medo de homens negros que passavam por ela nas ruas, e que em mais de uma ocasião repetiu estereótipos raciais ou étnicos que me espantaram.
Essas pessoas fazem parte de mim. E são parte dos Estados Unidos, um país que eu amo.
Há os que vão ver nisso uma tentativa de justificar ou desculpar comentários que são indesculpáveis. Posso garantir que não se trata disso. O mais seguro politicamente talvez fosse mudar de assunto e esperar que o episódio fosse esquecido. Podemos simplesmente considerar o reverendo Wright um caduco ou demagogo, da mesma forma que Geraldine Ferraro foi desprezada logo depois de suas declarações recentes, como se abrigasse um profundo preconceito racial. Mas acredito que a questão racial não pode ser simplesmente ignorada. Cometeríamos o mesmo erro que o reverendo Wright cometeu em seus sermões ofensivos sobre os Estados Unidos - simplificar, estereotipar e amplificar os pontos negativos que distorcem a realidade.
O fato é que os comentários que foram feitos e as questões que surgiram nas últimas semanas refletem as complexidades da questão racial neste país, sobre as quais nunca realmente nos debruçamos - parte de nossa União que ainda precisamos aperfeiçoar. Se nos afastarmos agora, se simplesmente recuarmos cada qual para seu canto, nunca conseguiremos nos unir e enfrentar os desafios na saúde, na educação, a necessidade de conseguir bons empregos para todos os americanos.
Entender essa realidade requer relembrar como chegamos até aqui. Como William Faulkner uma vez escreveu, "o passado não está morto e enterrado. Na verdade, ele nem mesmo passou." Não precisamos repetir aqui a história da injustiça racial nesse país. Mas precisamos relembrar que muitas das disparidades que existem hoje na comunidade afroamericana podem ser ligadas diretamente a gerações passadas que sofreram o legado brutal da escravidão e de Jim Crow.
Escolas segregadas eram e são escolas inferiores; ainda não foram consertadas, cinquenta anos depois do caso Brown v. Board of Education - e a educação de baixa qualidade que ofereceram e oferecem ajuda a explicar a diferença entre as conquistas de estudantes brancos e negros.
Discriminação legalizada - quando negros foram impedidos, muitas vezes através de violência, de ter posse de propriedade, de receber empréstimos, de ter acesso às hipotecas da agência de habitação, ou foram excluídos de sindicatos, da força policial, do corpo de bombeiros - significa que famílias negras não puderam acumular qualquer riqueza para passar a futuras gerações. Essa história ajuda a explicar a diferença de renda entre negros e brancos e os bolsões de pobreza que persistem hoje em comunidades rurais e urbanas.
A falta de oportunidade econômica para homens negros, a vergonha e a frustração de não poder sustentar os próprios filhos contribuíram para a erosão das famílias negras - um problema que as políticas oficiais de ajuda tão duradouras podem ter contribuído para aprofundar. E a falta de serviços básicos para tantos bairros negros urbanos - parques para crianças, policiamento, coleta regular de lixo - ajudou a criar um ciclo de violência e uma negligência que continua a nos assombrar.
Essa é a realidade na qual o reverendo Wright e outros afroamericanos desta geração cresceram. Eles se tornaram adultos no final dos anos 50 e nos anos 60, uma época em que ainda havia segregação oficial e as oportunidades eram sistematicamente negadas. O que impressiona não é quantos fracassaram diante da discriminação, mas quantos homens e mulheres venceram; o que impressiona é quantos conseguiram abrir um caminho num beco sem saída para pessoas que viriam depois, como eu.
Mas para todos aqueles que se esfolaram com o objetivo de conseguir uma fatia do sonho americano, houve muitos que não conseguiram - aqueles que foram derrotados, de uma maneira ou de outra, pela discriminação. Esse legado da derrota foi passado adiante para futuras gerações - aqueles meninos e crescentemente meninas que vemos nas esquinas ou nas prisões, sem esperança ou perspectiva de futuro. Mesmo para os negros que avançaram, as questões relativas a raça e ao racismo continuam a definir o modo de ver o mundo de forma fundamental. Para os homens e mulheres da geração do reverendo Wright, as memórias de humilhação e dúvida e medo não sumiram; nem a raiva e a amargura daqueles anos. Essa raiva pode não ser expressa publicamente, diante de colegas de trabalho brancos ou amigos brancos. Mas encontra seu caminho nas cadeiras do barbeiro ou na mesa da cozinha. Em certas ocasiões, esse ressentimento é explorado por políticos, para ganhar votos com discursos com tons raciais ou para encobrir os próprios defeitos dos candidatos.
Ocasionalmente, esse ressentimento encontra caminho na igreja, no púlpito e na platéia. O fato de que tanta gente fica surpresa de ouvir a raiva expressa em alguns dos sermões do reverendo Wright nos relembra do antigo truísmo, segundo o qual a hora mais segregada da vida americana ocorre aos domingos de manhã. Esse ressentimento nem sempre é produtivo; na verdade, muitas vezes nos distrai da resolução de problemas reais; evita que encaremos nossa cumplicidade com essa situação e que a comunidade afroamericana faça as alianças necessárias para provocar mudanças reais. Mas a raiva é verdadeira; é poderosa; e simplesmente desejar que ela suma ou condená-la sem entender as raízes apenas serve para aumentar o desentendimento que existe entre as raças.
Na verdade, uma raiva similar existe em segmentos da comunidade branca. A maior parte dos trabalhadores e da classe média branca não acredita que foi privilegiada pela cor da pele. A experiência deles é a dos imigrantes - não receberam nada de graça, construíram tudo do nada. Trabalharam duro por toda a vida, muitas vezes apenas para assistir seus empregos sendo mandados para o exterior, suas aposentadorias sumirem depois de uma vida de trabalho. Eles estão ansiosos quanto ao futuro e sentem que o sonho não está se tornando realidade; numa era de salários estagnados e de competição global, as oportunidades são como um jogo de soma zero, nas quais o sonho de um é realizado às custas do outro. Assim, quando precisam mandar seus filhos de ônibus para uma escola [racialmente integrada] do outro lado da cidade; quando ouvem que um afroamericano tem vantagem para conseguir um emprego ou uma vaga na faculdade por causa de uma injustiça que eles nunca cometeram; quando alguém diz a eles que o medo do crime em vizinhanças urbanas é expressão de discriminação, o ressentimento aparece; e cresce com o tempo.
Assim como na comunidade negra, esse ressentimento nem sempre se expressa de forma educada. Mas ajudou a construir o cenário político por pelo menos uma geração. O desprezo pelos programas sociais e pelas cotas raciais ajudaram a forjar a coalizão de [Ronald] Reagan. Os políticos rotineiramente exploraram o medo do crime para seus próprios objetivos. Apresentadores de programas e comentaristas conservadores fizeram carreiras desmascarando falsas acusações de racismo, ao mesmo tempo em que desprezavam discussões legítimas sobre injustiça e desigualdade racial como mera expressão do politicamente incorreto ou de racismo reverso.
Assim como a raiva dos negros se mostrou contraproducente, o ressentimento dos brancos nos desviou de identificar os verdadeiros culpados pelo aperto da classe média - uma cultura corporativa contaminada pelo uso de informações privilegiadas, pela contabilidade questionável e pela ambição desmedida; Washington dominada por lobistas e grupos de defesa de interesses especiais; uma política econômica que favorece poucos em detrimento da maioria. Ainda assim, desejar que o ressentimento dos brancos simplesmente desapareça, rotulá-lo de equivocado ou mesmo racista, sem reconhecer que há uma preocupação legítima - isso também aumenta o fosso racial e bloqueia o caminho do entendimento.
É onde estamos hoje. É o impasse racial em que nos encontramos. Ao contrário do que dizem meus críticos, brancos e negros, nunca fui ingênuo de acreditar que podemos acabar com nossas divisões em uma eleição, com uma única candidatura - particularmente uma candidatura tão imperfeita quanto a minha.
Mas reafirmei minha convicção - uma convicção que tem raízes em minha fé em Deus e no povo americano - de que, trabalhando juntos, podemos ir além de nossas feridas raciais; e de que não temos outra escolha a não ser continuar na busca por uma União mais perfeita.
Para a comunidade afroamericana, esse caminho significa abraçar o peso de nosso passado sem se tornar vítima dele. Significa continuar a insistir em Justiça em todos os aspectos da vida americana. Mas também significa amarrar nossos objetivos particulares - por melhor saúde, melhores escolas e melhores empregos - à aspiração de todos os americanos - da mulher que quer romper o teto da ascensão social, do homem branco que foi demitido, do imigrante que tenta alimentar sua família. E também significa assumir responsabilidade por nossas vidas - exigindo mais dos pais, passando mais tempo com nossas crianças, lendo para elas, ensinando-as que assim como elas podem vir a enfrentar desafios e discriminação em suas próprias vidas, nunca devem sucumbir ao desespero e ao cinismo; e ensinar que podem escrever seu próprio destino.
Ironicamente, essa noção essencialmente americana - e, sim, conservadora - de auto-ajuda, freqüentemente se expressa nos sermões do reverendo Wright. Mas o que o meu ex-pastor não entendeu é que embarcar em um programa de auto-ajuda requer a crença de que uma sociedade pode mudar.
O erro profundo nos sermões do reverendo Wright não é que ele falou sobre racismo em nossa sociedade. É que ele falou de nossa sociedade como se fosse estática; como se não tivesse havido progresso; como se esse país - um país que tornou possível a um integrante de sua congregação concorrer ao cargo mais importante na nação e a construir uma coalizão de brancos e negros, latinos e asiáticos, ricos e pobres, jovens e idosos - estivesse irrevogavelmente ligado a seu passado trágico. Mas o que sabemos - e o que vimos - é que os Estados Unidos podem mudar. Essa é a genialidade dessa nação. O que já avançamos nos dá esperança - a audácia da esperança - de que podemos e devemos obter novas conquistas amanhã.
Na comunidade branca, o caminho para uma União mais perfeita requer reconhecer que o que prejudica a comunidade afroamericana não existe apenas no pensamento dos negros; que o legado da discriminação - e os atuais incidentes de discriminação, ainda que menos descarados que no passado - são reais e precisam ser enfrentados. Não apenas com palavras, mas com ações - investindo em nossas escolas e comunidades; dando a novas gerações acesso às oportunidades que faltaram para gerações anteriores. Isso requer que todos os americanos não acreditem que a realização de seus sonhos resulta da negação do sonho alheio; que investir em saúde, programas sociais e educação de crianças negras, morenas e brancas fará com que todos os Estados Unidos prosperem.
No fim, o que é preciso é nada mais, nada menos, do que todas as grandes religiões do mundo exigem - que façamos pelos outros o que gostaríamos que fizessem por nós. Vamos cuidar de nossos irmãos, a Escritura nos diz. Vamos cuidar de nossas irmãs. Vamos descobrir o que há de comum entre nós e fazer com que nossa política reflita isso.
Temos uma escolha nesse país. Podemos aceitar a política da qual brotam divisões, conflitos e cinismo. Podemos encarar a questão racial apenas como espetáculo - como no julgamento de OJ Simpson; ou depois de tragédias, como o Katrina; ou como produto para alimentar os telejornais noturnos. Podemos repetir os sermões do reverendo Wright em todos os canais, todos os dias, e falar deles até as eleições. Podemos tornar a única questão da campanha se o povo americano acredita que eu simpatizo ou não com as palavras mais ofensivas que ele disse. Podemos bater na gafe de algum apoiador da Hillary [Clinton] como prova de que ela está explorando a questão racial ou podemos especular se os homens brancos vão todos votar em John McCain nas eleições gerais, independentemente das propostas dele.
Podemos fazer isso.
Mas, se fizermos, digo a vocês que na próxima eleição o tema será alguma outra distração. E outra. E mais outra. E nada vai mudar.
Essa é a opção. Ou, nessa hora, nessa eleição, podemos nos unir e dizer "não dessa vez." Dessa vez queremos falar sobre as escolas que estão roubando o futuro de crianças negras e crianças brancas e crianças latinas e crianças asiáticas e crianças nativas. Dessa vez queremos rejeitar o cinismo que diz que nossos filhos não podem aprender; que crianças que não se parecem conosco não são problema nosso. As crianças dos Estados Unidos não são aquelas crianças, elas são nossas - e não vamos deixá-las ficar para trás na economia do século 21. Dessa vez não.
Dessa vez queremos falar sobre as filas no pronto socorro cheias de brancos e negros e hispânicos que não têm seguro de saúde; que não tem poder para enfrentar os lobistas em Washington, mas que podem enfrentá-los, sim, se fizermos isso juntos.
Dessa vez podemos falar das fábricas fechadas que no passado deram uma vida decente a homens e mulheres de todas as raças, e das casas à venda que um dia pertenceram a americanos de todas as religiões, de todas as regiões, de todas as profissões. Dessa vez queremos falar sobre o fato de que o problema verdadeiro não é que alguém que não se parece comigo conseguiu um emprego; é que as corporações para as quais você trabalha despacham os empregos para o exterior pensando só em lucro.
Dessa vez queremos falar sobre os homens e as mulheres de todas as cores e credos que servem juntos, que lutam juntos, que sangram juntos sob a mesma bandeira orgulhosa. Queremos falar sobre como trazê-los de volta para casa de uma guerra que nunca deveria ter sido autorizada, que nunca deveria ter sido lutada; queremos falar sobre como demonstrar patriotismo cuidando deles e de suas famílias, dando a eles os benefícios que conquistaram.
Eu não estaria concorrendo a presidente se eu não acreditasse em meu coração que é isso o que quer a vasta maioria dos americanos. Essa União pode nunca se tornar perfeita, mas geração após geração demonstrou que ela pode ser aperfeiçoada. E hoje, quando quer que eu sinta duvida ou cinismo em relação a essa possibilidade, o que me dá esperança é a próxima geração - os jovens cujas atitudes e crenças e aceitação de mudança já fizeram história nessa eleição.
Há um caso em particular que eu gostaria de contar a vocês hoje - uma história que eu contei quando tive a honra de falar em homenagem ao aniversário do Dr. [Martin Luther] King na igreja dele, a Ebenezer Batista, em Atlanta.
Há uma jovem branca de 23 anos de idade chamada Ashley Baia que ajudou a organizar nossa campanha em Florence, na Carolina do Sul. Ela trabalhou especialmente em uma comunidade afroamericana desde o início da campanha e, um dia, numa discussão, todos os voluntários contaram suas histórias e explicaram porque estavam lá.
Ashley disse que quando tinha nove anos de idade a mãe soube que tinha câncer. Por causa disso perdeu alguns dias de trabalho, foi demitida e ficou sem o seguro de saúde. A família precisou declarar falência e foi então que Ashley decidiu que tinha de fazer algo pela mãe.
Ela sabia que a comida era um dos maiores gastos da família e convenceu a mãe de que gostava muito e só queria comer sanduíches de mostarda e picles. Era a forma mais barata de se alimentar.
Fez isso durante um ano, até que a mãe melhorou; Ashley contou aos que participavam da conversa que a razão pela qual ela havia se juntado à campanha era para ajudar milhões de outras crianças do país que queriam e precisavam auxiliar seus parentes.
Ashley poderia ter feito outra escolha. Quem sabe alguém disse a ela que a fonte dos problemas da mãe eram os negros que dependiam de ajuda do governo e eram muito preguçosos para trabalhar, ou hispânicos que estavam no país ilegalmente. Mas não foi essa a escolha dela. Ashley buscou aliados em sua luta contra a injustiça.
Assim que acabou de contar sua história, Ashley perguntou a outros presentes o motivo que os havia levado a entrar na campanha. Cada um tinha suas histórias e razões. Alguns indicaram questões específicas. E finalmente chegaram a este senhor negro que tinha permanecido calado o tempo todo. Ashley perguntou porque ele estava lá. E ele não mencionou nada específico. Não falou em saúde ou economia. Não falou em educação ou na guerra. Não falou que estava lá por causa de Barack Obama. Ele simplesmente disse: "Estou aqui por causa da Ashley." "Estou aqui por causa da Ashley." Em si mesmo, esse momento de reconhecimento entre uma jovem branca e um velho negro não é suficiente. Não é suficiente dar saúde aos doentes, empregos aos desempregados ou educação a nossas crianças.
Mas é um começo. É assim que nossa União se torna mais forte. E assim como muitas gerações se deram conta, nos 221 anos que nos separam daquele grupo de patriotas que assinaram um documento na Filadélfia, é assim que a perfeição começa."
Quinta-feira, Março 20, 2008
Mulher solteira não procura mais
![]() |
© Leda Catunda, Retrato, 2002/Cortesia Galeria Fontes Vilaça
Sob o título sugestivo de “A tragédia das solteironas”, uma matéria da Revista da Semana, de 1937, é exemplar na forma de abordar o “tema”:
“Todas têm ódio às moças que se casam. Possuem, em maior ou menor dose, o instinto da maldade. A história de milhares de tragédias conjugais nasce dessas almas torvas, às quais tudo se deve perdoar pelo muito que penaram. Casais felizes devem fugir das solteironas como o diabo da cruz. A Medicina sabe que os enfermos de certas doenças contagiosas têm um prazer satânico em transmitir sua doença às pessoas sadias. Existe, na psicopatologia das solteironas, fenômeno análogo”.
O tom, dramático e antiquado, pode ter mudado, mas a essência dessas idéias, infelizmente, ainda permanece viva. “A solteirice tem sido recorrentemente representada como uma falta essencial, uma anomalia social, jamais um caminho, entre outros, escolhido como parte de um projeto de vida que pode ser vivido positivamente”, explica Eliane Gonçalves, autora da tese de doutorado recém-defendida na Unicamp “Vidas no singular: noções sobre ‘mulheres sós’ no Brasil contemporâneo”, orientada por Adriana Piscitelli.
Após trabalhar com um grupo de mulheres com idades entre 29 e 53 anos, sem filhos e morando sozinhas há mais de 2 anos, a pesquisadora “contesta a idéia de que as mulheres estão sós porque esperam seu príncipe encantado, foram preteridas em função das mais jovens ou por motivos afins”, afirmando que “há escolhas que elas vão fazendo ao longo da vida, como privilegiar a carreira para marcar seu lugar no mundo”. Segundo Eliane, sob a lógica do “familismo”, que pressupõe o par e o casamento com lugares privilegiados de saúde e felicidade, a mulher “só” é percebida como solitária e infeliz, frustrada e insatisfeita, já que sua existência seria medida e avaliada segundo a perspectiva da mulher casada ou que possui um par masculino. Ainda segundo o estudo, tais conceitos não seriam coisas do passado, como no texto acima. “Nos estudos de população e na mídia, as noções mais proeminentes que atravessam a teoria social e, em menor escala, alguns estudos feministas estão associadas à idéia de ‘falta’, cristalizada na noção de solidão”, avalia.
Para a demografia, continua, a solidão seria efeito de uma diferença culturalmente produzida e materializada na desproporção sexo/idade no mercado matrimonial. Após analisar vários “clássicos” demográficos, entre os quais Pirâmide da solidão? (1986), de Elza Berquó, a pesquisadora teria percebido “as limitações de categorias clássicas consideradas, atualmente, por estudiosos dos estudos de população, insuficientes para analisar e compreender as transformações ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas”. A mídia, por sua vez, continua, “traduz e reinterpreta noções inspiradas nos discursos acadêmicos da demografia ou dos estudos de população e outras áreas disciplinares”. Segundo Eliane, atenção especial é igualmente concedida, na mídia, ao que aparece de modo incipiente ou está ausente dos estudos de população: a idéia de sociabilidade como marca de um certo estilo de vida das pessoas que moram sozinhas e a expressão “novas solteiras”, caracterização aparentemente restrita a essas produções. “Mídia e demografia apresentam confluências nas análises sobre a necessidade de alguma forma de intervenção externa para favorecer o encontro par/marido, chegando mesmo a fazer sugestões explícitas. Ambas convergem também na forma de analisar o ‘morar só’ como uma expressão do individualismo que se acentua nessa fase da modernidade, aspecto reforçado por vozes de intelectuais das ciências sociais e das áreas ‘psi.’”
Os números parecem acompanhar a tendência. Segundo o mais recente World Fertility Report, da ONU, a média global de idade de casamento entre as mulheres pulou de 21,2 anos nos anos 1970 para 23,2 hoje. Nos países desenvolvidos a diferença é ainda maior: de 22 para 26,1 anos atualmente. No Brasil, a pesquisa Sexo, casamento e economia, feita pela Fundação Getúlio Vargas, indicou a presença de cerca de 19 milhões de mulheres com mais de 20 anos que vivem sem marido ou companheiro e que, por isso, têm renda 62% superior à recebida pelas casadas ou informalmente unidas, o que levou a um aumento na “solteirice” de 35% para 38%. Há 30 anos, seis em cada dez mulheres eram casadas.
O conceito fala das chances decrescentes de mulheres mais velhas de se casarem considerando-se as normas sociais vigentes, nas quais os homens procuram parceiras mais jovens, o que traz para as outras faixas etárias superiores o prognóstico de que continuem a viver sozinhas. “Considerar como fatalidade uma mulher que não se casa, qualquer que seja a motivação, denota a centralidade dada ao estatuto do casamento como um valor em si mesmo. A eleição pelo casamento envolve estratégias políticas”, adverte a autora. Para ela, a própria Berquó, analisando dados do Censo de 1980, observou que as moradias unipessoais eram ocupadas por homens solteiros e mais jovens e por mulheres mais velhas com maior escolaridade, o que permitiria concluir que, mais do que um desequilíbrio do mercado matrimonial, estaria em ação, nas grandes cidades, uma mudança de estilo de vida. Mas o conceito da pirâmide ganhou vida própria e, por vezes, até vulgarizado e mal compreendido, passou a ser usado de forma indiscriminada como panacéia explicativa.
Há agravantes. Na medida em que a reprodução é considerada em alguns pressupostos demográficos uma função a ser realizada pela família, taxas baixas de fecundidade, vistas como resultado de processos crescentes de escolarização ou profissionalização das mulheres, são encaradas com preocupação pelos demógrafos, um ideal que, observa Eliane, foi abraçado pela mídia que o transforma em valor universal. “Embora Berquó afirme que a demografia tome o indivíduo com unidade de análise, ‘família’ emerge como uma noção central para os estudos de população, tornando necessário entender como esta noção é usada para caracterizar as ‘solteiras’ que moram sozinhas.” Se o homem solteiro não é questionado, já que sua “solteirice” é presumida como fase transitória livremente escolhida, a “solidão” feminina, por sua vez, é reiteradamente acentuada, nos estudos mais diversos, a partir das informações estatísticas e das noções demográficas. “A ‘pirâmide da solidão’ passou a ser tratada como verdade inquestionável, uma matriz geradora ou categoria explanans, usada para explicar fenômenos distintos, como o machismo brasileiro, a ‘solidão’ de jovens sem namorados, de idosas viúvas e, até mesmo, o aumento de venda de vibradores em sex shoppings.”
Para Eliane, “ao generalizar conclusões a partir de estudos de base populacional, a demografia contribui para a naturalização de seus pressupostos e estes estimulam a regulação social, como ocorre nas estratégias de intervenção nos assuntos de casamento e da família”. Ainda segundo a pesquisadora, o apelo ao “equilíbrio no mercado matrimonial” no paradigma demográfico, cuja preocupação é a reprodução da população, pode ser lido como impositivo, na medida em que incide sobre a elaboração de políticas sociais que reforçam a centralidade da família e contribuem para apagar outras formas de viver, uma tendência em pesquisas nacionais e estrangeiras.
“O estar solteira, na mídia, é visto com mais simpatia quando percebido como um momento transitório de investimento pessoal, e o casamento como um sonho idealizado. Contra a imagem de ‘solitária’ criou-se a figura da mulher executiva, liberada e auto-suficiente, que presumivelmente não ‘sofre’ de solidão ou dela escapa, refugiando-se no trabalho e no consumo.” Os estudos de Eliane revelam que as matérias sobre as “novas solteiras”, terminologia muito usada pelos jornalistas, parecem contestar a imagem estereotipada da “solteira do passado”, inovando na descrição das mulheres desacompanhadas (de parceiros homens) por meio de polarizações contrastivas. Elas agora seriam “independentes”, “estudadas”, “bem-sucedidas”, “viajadas”, “malhadas”, “elegantes”, com “intensa vida social”. Assim, continua a autora, essas “novas solteiras” estariam colhendo os frutos das conquistas da revolução feminina e feminista e suas falas conferem positividade à “solteirice”. “Um outro aspecto contradiz, em termos, as positividades de se estar só, pois recoloca a falta do par, embora expresse uma crítica ao casamento: ‘adoro ser independente, mas sinto falta de um companheiro’. Essas noções contraditórias, recorrentes também nos estudos de população, são reforçadas na mídia ao enfatizar que escolaridade e renda funcionam como armas da independência da mulher face ao casamento, mas criam barreiras na conquista de parceiros estáveis.”
Há nas entrelinhas a presença incômoda do “sofrimento” e da necessidade do “refúgio” no escritório ou no shopping center como forma de “compensação” pela escolha. “A natureza da falta é apresentada como o não preenchimento dos altos requisitos do ‘homem ideal’ desejado pelas ‘novas solteiras’.” Dessa forma, assinala Eliane, a noção mais desenvolvida nos textos da mídia é a da nova solteira que está à “procura de”, mas, de certo modo, tanto faz se encontrar ou não um parceiro. Esse tipo de mulher seria enquadrada na categoria de “satisfeita resignada”, mulher que deseja, mas não quer abrir mão de certas conquistas para ter a seu lado um “sapo qualquer”. “Atualmente a mulher altamente escolarizada e qualificada profissionalmente ainda é pressionada socialmente para casar-se e sua autonomia é apresentada como conflitante com o ‘mercado matrimonial’, um paradoxo (quase um clichê) recorrente nos discursos da mídia, da demografia e também das mulheres entrevistadas”, observa. Como, então, dar conta da autonomia, em especial, como lembra a pesquisadora, nos moldes de A room of one’s own (Um teto todo seu), texto de Virginia Woolf, que traduzia a preocupação com a renda anual própria e ao espaço para o desenvolvimento de um trabalho criativo? “A metáfora do quarto ou do teto para si parece uma evocação apropriada no contexto da minha pesquisa, porque, reitero, a experiência de morar só tende a ser mesclada às noções da ‘nova solteira’ ou da mulher ‘independente’ e ‘moderna’ no corpus de noções analisadas”, analisa Eliane.
Curioso paradoxo essa imposição a um retorno forçado, após o longo caminho percorrido pela mulher para chegar, com independência, ao mercado de trabalho. “Afinal, se o homem encarna a nova figura do indivíduo livre, solto, senhor de si, a mulher, até há algumas décadas, continuou a ser pensada como um ser naturalmente dependente, vivendo para os outros. A ideologia da mulher no lar foi edificada na recusa de generalizar os princípios da sociedade individualista moderna. Identificada ao altruísmo e à comunidade familiar, a mulher não seria do domínio da ordem contratualista da sociedade, mas da ordem natural da família”, observa o filósofo francês Gilles Lipovetsky em seu A terceira mulher. Só recentemente, porém, “o trabalho feminino não aparece como um último recurso, mas como uma exigência individual e identitária, uma condição para realizar-se na existência, um meio de auto-afirmação”, afirma Lipovetsky. Dessa transformação sem precedente no modo de socialização e de individualização do feminino, uma generalização do princípio do livre-governo de si, uma nova economia dos poderes femininos nasceria a chamada “terceira mulher”. “A primeira era diabolizada e desprezada; a segunda, adulada, idealizada, instalada num trono; nos dois casos, subordinada ao homem, pensada por ele, definida em relação a ele. A terceira, por sua vez, é uma autocriação feminina.” A liberdade, nota Eliane, “tem sido historicamente considerada uma prerrogativa masculina. No entanto, a liberdade retratada pelas minhas entrevistadas é simbolizada pelo ato repetitivo de circular livremente em um espaço que elas dominam. Sozinhas, elas aprendem a dar conta de si mesmas”.
Se observarmos, então, o processo histórico, como propõe Lipovetsky, esse estilo de vida, que se firma cada vez mais nos grandes centros urbanos, sobretudo nas camadas médias, estaria, por sua vez, relacionado com o processo de individualização crescente que se observa nesses segmentos, uma característica da modernidade. Como nota Berquó, este mundo transformado pelas lutas feministas impulsionaria as mulheres “independentes” à autodeterminação, favorecendo determinadas “escolhas” e investimentos em outros projetos individuais e não apenas no casamento. Essa dualidade entre “vida simples comunitária” e “individualismo moderno” pode trazer valorações diferenciadas, em que a primeira opção, cercada de solidariedade, se contraporia à segunda, de caráter “objetivo”, “egoísta”, “competitivo”. Eliane tem ressalvas a essas dicotomias. “Se o individualismo for compreendido como uma busca orientada prioritariamente para si mesmo e não como atomização social, autocentramento ou isolamento, esta noção encontra ressonância nas histórias das mulheres ‘sós’ entrevistadas”, continua a pesquisadora. “Ao lado de um processo de individualização – por exemplo, a idéia de um projeto focado na carreira, que as leva à decisão de morar sozinhas, a princípio por necessidade, depois por adaptação e finalmente por prazer – elas mantêm sólidas relações amorosas, sexuais, de amizade e familiares.”
Ainda assim, “embora adotado como um estilo de vida, que as distingue socialmente como mulheres independentes, autônomas e senhoras de si, o morar só não existe fora da vida social mais ampla e está marcado por outros tipos de dependência e contingenciamentos”. É possível amar e ser sozinho ao mesmo tempo. Morar só não significa ficar sem par para relações e Eliane é uma crítica ferrenha da insistência da mídia em vincular as mulheres “sós” como privadas de vínculos amorosos e sexuais. Ou, nas palavras da socióloga americana Kay Trimberger, da Universidade da Califórnia, autora de The new single woman, como o estudo de Eliane, baseado em entrevistas com mulheres que vivem sozinhas, “mesmo que elas sintam que gostariam de ter um companheiro (a) fixo (a), elas estão certas de que suas vidas não dependem disso e que há outras formas de viver” e que “a ‘solteirice’, no futuro, será vista como algo mais do que apenas um intervalo entre relações matrimoniais, se transformando num way of life, com muitas variações, mas um caminho de vida satisfatório com suas demandas e recompensas”.
As pesquisas de Eliane também mostraram que a mulher “só” não necessariamente abre mão da maternidade. Afinal, o que nos governa, como nota Lipovetsky, não é um modelo de reversibilidade entre os sexos, mas um duplo modelo individualista, reinscrevendo a diferença masculino/feminino. Dessa forma, o francês também não acredita que a maternidade possa ser abolida desse novo esquema. “As mudanças de excepcional amplitude na condição feminina não modificarão essa constância. Declínio progressivo do papel materno em benefício dos valores profissionais? Nada permite afirmá-lo. Há uma reciclagem histórica do papel materno, não o abandono do modelo.” Mais: escolher viver uma estética particular que privilegia o silêncio, o distanciamento calculado e as relações de amor e amizade em bases igualitárias é uma possibilidade acessível a apenas algumas mulheres altamente escolarizadas, profissionais e independentes financeiramente, que podem transitar entre contingências e desejos, avisa Eliane. “Se o single lifestyle e as residências de uma pessoa continuarão a se impor como uma tendência, não tenho uma conclusão, mas, talvez, as solteiras estejam reinventando a ‘solidão’, transformando-a em ‘aventura’”, completa a pesquisadora. Nem só, nem mal acompanhada.
Quarta-feira, Março 19, 2008
Autoridades chinesas ao diálogo com os tibetanos já!

Assine a petição:
alô alô blogosfera -leitura obrigatória
QUEIMA DE ARQUIVO DIGITAL MARCA UM DIA HISTÓRICO PARA A INTERNET BRASILEIRA
Atualizado em 19 de março de 2008 às 12:02 | Publicado em 19 de março de 2008 às 11:43
SÃO PAULO - Ontem foi um dia histórico para a internet e o jornalismo eletrônico brasileiro. Pela primeira vez, ao menos que seja de meu conhecimento, um site foi desplugado do ar sem qualquer aviso aos internautas, sem qualquer explicação oficial da empresa hospedeira. Os leitores foram privados de um conteúdo, independentemente de concordarem ou não com ele. O site deu pluft e sumiu do ar. Tentei obter informações do IG. Nada. O jornalista Paulo Henrique Amorim não quis gravar entrevista antes de consultar seu advogado e prometeu dar sua versão dos fatos no novo endereço que criou.
Confirmou que ficou sem acesso inclusive a conteúdo que classificou de "pessoal", como a reprodução de palestras que colocava à disposição dos leitores. Em minha modesta opinião, é como se alguém fosse privado da própria memória; que, por ser pública, na verdade era memória do conjunto dos internautas, mais uma vez independentemente da avaliação que fizessem do conteúdo. Salvo mudanças, é uma espécie de queima de arquivo digital.
O Portal da Imprensa divulgou uma notícia apresentando uma versão definitiva, atribuindo-a a uma fonte anônima, sem ouvir os dois lados. Tratando-se do Portal da Imprensa, especialmente dedicado à cobertura do setor, é de uma pobreza ilustrativa do estado vegetativo do Jornalismo brasileiro. Não houve protestos da grande imprensa, nem de colunistas, não houve deslocamento de repórteres para a apuração do que aconteceu. Algumas pessoas até celebraram, como se isso fosse um bom sinal.
Eu não sei a audiência do site Conversa Afiada. Com certeza está na casa das milhares de pessoas. Com certeza tinha um impacto, ainda que reduzido àqueles que têm, no Brasil, o privilégio de acessar a internet. Como é possível que o blecaute de um site que até ontem liderava o prêmio mais importante da internet brasileira - mais votado até mesmo que sites de partidos políticos como os do PCdoB, PT e PSDB - seja tratado como não-notícia? Fico imaginando se, nos Estados Unidos, saísse do ar sem explicações o Drudge Report. Garanto que seria notícia na Fox, na CNN e no New York Times.
Mais uma vez o caráter do jornalista brasileiro esteve à mostra: alguns ficaram em cima do muro, outros sumiram, ninguém tem nada a ver com isso, como se o precedente não fosse um péssimo sinal. Como especulou, em entrevista a este site, o sindicalista José Lopez Feijóo, na falta de melhor explicação trata-se de um cala boca generalizado, uma tentativa de intimidação, um recado que serve para todos os jornalistas, independentemente de veículo: sigam a linha oficial, concordem cegamente com a linha editorial.
Outro sindicalista, o presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Cláudio Marcolino, manifestou "estranheza". Ele fez uma observação interessante sobre os sites da internet: "Tem um registro, todo uma construção, tem uma história." Assim sendo, ao retirar o conteúdo do ar, afirmou, "o IG deveria ter respeito com os leitores do site."
Punições tem havido ao longo da História do Jornalismo brasileiro. Infelizmente quase todas ficam sem registro. Primeiro, porque conforme mostrou estudo da Agência de Notícias da Infância e Adolescência (ANDI), a mídia não cobre a própria mídia. Tirando as trocas de favores, que se dão em elogios públicos logo traduzidos em empregos ou nas resenhas laudatórias em que uns tentam garantir a venda de livros de outros, não há uma cobertura séria de um setor gigantesco da economia brasileira - que envolve emissoras de televisão, de rádio, jornais, sites da internet, TV a cabo e empresas de telefonia.
O curioso é que isso acontece justamente quando os meios fazem um papel cada vez maior de protagonismo na política brasileira. E em que uma revolução silenciosa acontece, com a disseminação de conteúdo em novas plataformas, como os aparelhos celulares. Sim, páginas e páginas serão utilizadas para descrever detalhadamente as qualidades e a tecnologia das novidades do setor. Mas não haverá debate sobre o conteúdo, assim como não houve em um episódio ainda hoje obscuro, que decidiu uma vaga para o Senado brasileiro. Aquele, em que milhares de eleitores foram bombardeados em véspera de eleição com mensagens denunciando Jandira Feghali pelo apoio ao aborto, um dos que fatores que levaram à derrota da candidata no Rio de Janeiro.
É certo que um grande número de jornalistas brasileiros já está desplugado faz tempo. Assinam qualquer texto, falam qualquer coisa que o chefe mandar. Fazem acordos diários com o diabo, por medo ou em troca de privilégios. Esses privilégios vão da garantia da participação em grandes coberturas, como as Olimpíadas, às promessas de emprego eterno e aos jabás - situações em que uma empresa jornalística recebe favores monetários (passagens, hospedagem, etc.) para cobrir algum "evento" que, caso contrário, não seria notícia.
A degradação dos meios, como um todo, passa por outros fenômenos: a utilização de novelas com objetivos político-eleitorais e de campanha ideológica; a obtenção de audiência a qualquer custo, com o superdimensionamento de problemas como a criminalidade, especialmente em São Paulo; a sobreposição de anúncios sobre o conteúdo editorial nas páginas de jornais; o fim da fronteira entre Jornalismo e entretenimento, que se expressa de forma ambulante na figura de um ótimo jornalista e animador, Pedro Bial.
De minha parte, decidi que não quero participar do iBest, que não leio mais conteúdo do IG e que dispensarei quaisquer serviços ligados ao provedor - inclusive telefônicos, se houver. Estou disposto a participar de outras iniciativas para protestar contra a forma com que se deu o episódio. Finalmente, decidi manter este site na Hostnet, hospedeiro independente do Rio de Janeiro que não interfere no conteúdo.
Terça-feira, Março 18, 2008
O IG passa a faca no conversa afiada
Quase três horas depois às 20:59 o ombudsman do IG, ainda atônito, dá satisfação aos leitores:
O leitor do iG foi surpreendido hoje, entre 16h15 e 16h30, com a retirada do ar do site “Conversa Afiada”, de Paulo Henrique Amorim. Oficialmente, a assessoria de imprensa do iG informa que “o contrato foi rescindido pelo iG e que todas as cláusulas rescisórias foram atendidas”.
Diz o iG que vem fazendo uma reestruturação do portal, o que inclui “a rescisão de contratos desvantajosos para a empresa”. Era o caso do site de Paulo Henrique Amorim, o qual, segundo o iG, não trazia “receita nem audiência”. Essa é, em essência, a manifestação oficial do iG.
Este ombudsman já criticou e elogiou o trabalho de Paulo Henrique Amorim no iG. O estranho é testemunhar a ruptura súbita, sem aviso anterior ou posterior aos leitores, afetando um site notoriamente controvertido.
Cobranças dos leitores
Mensagens de mensagens de internautas surpresos e confusos cobram maiores explicações do iG.
O leitor José Lima faz a pergunta óbvia:” O Paulo Henrique Amorim não escreve mais no IG? Não encontrei o blog dele hoje no site. Se isso é verdade, não deveria ter sido comunicado pelo IG aos leitores?”
A leitora Rosemeire Lima mostra-se surpresa: “Levei um tremendo susto quando acessei o iG hoje e não achei o "Conversa Afiada". o que aconteceu? Vocês o tiraram do ar? O PHA parou com o iG? Espero que estejam passando somente um problema técnico e amanhã já se resolva, mas mesmo isso deveria ter sido comunicado pelo iG. O Conversa Afiada é um dos poucos espaços da mídia brasileira em que se pode ler notícias e opiniões que não foram manipuladas pela grande máquina que algema e amordaça os meios de comunicação brasileiros. O Brasil precisa de democracia e isso só se faz com Imprensa realmente Livre e não com papagaios e macaquinhos prontos para repetir baboseiras e bater palmas para toda a besteira que um grupo de pessoas que dominam os meios de comunicação quer. Democracia é liberdade de opinião, é direito a discordar, é o sagrado direito do povo de cobrar dos que estão no poder honestidade e seriedade. O iG com seus Blogs, (Mino Carta, PHA, e Luís Nassif) é um dos poucos espaços onde ainda se respira democracia. Por favor, não cortem mais esse espaço, pois do jeito que estamos vamos chegar ao triste momento em que teremos que começar a ler os jornais internacionais para saber o que se passa pelo Brasil.”
Ou ainda o leitor Roberto Monico Júnior, que diz “O que o IG fez com o Conversa Afiada? Você consegue explicar (com a mágica retórica dos assessores de imprensa) sem queimar o site? O iG agora está fazendo parte do PIG?”
Os temas em torno
A favor de Amorim há o fato de ele defender opiniões únicas no panorama da grande mídia nacional. Contra ele há o fato de que essas opiniões às vezes vinham acompanhadas de ataques pessoais desnecessários.
Não se discutem opções empresariais que fazem parte das atividades de qualquer empresa. Caberia, porém, um esclarecimento público e voluntário do portal sobre a ruptura com Amorim e sobre sua relação com temas sensíveis, como o processo de compra, pela Oi, da Brasil Telecom, proprietária deste iG. Amorim é crítico radical desta compra e tem atacado os que a defendem.
De qualquer forma, o iG e, de resto, todos os grandes veículos brasileiros, devem informar sobre si próprios com a transparência que cobram das outras instituições, e como fazem os melhores veículos da mídia internacional.
Em tempo: este ombudsman solicitou contato com Paulo Henrique Amorim, para colher sua opinião.
Ainda em tempo: o iG informa que a saída do ar do Blog do Nassif hoje no início da noite deveu-se a trabalhos de manutenção anunciados pelo próprio blog.
Não costumo ler o PH.
Acho seu estilo exagerado e quando lembro do PH de uma década, vejo enormes diferenças de sua postura política de hoje, sua proximidade da Record e o que faz por lá também, em minha opinião, está distante de bom jornalismo.
Enfim, sou adepta de um jornalismo na blogosfera que eu efetivamente sinta confiança, que deixe claro as suas posições políticas, que seja de fato independente dos interesses de grandes grupos/corporações, que eu possa ver ética e respeito nas discussões.
A meu ver o excesso de ironias que vejo por vezes aclamado por alguns leitores pode descambar facilmente para a falta de respeito e pra criar a indiferenciação entre os críticos e aqueles que são alvo das críticas.
De todo modo o que ocorreu com o blog do PH é quebra de contrato e o IG tem de ser responsabilizado.
Pela primeira vez vou esperar seu novo site entrar no ar para ler o que PH tem a dizer em relação a tudo isso.
O novo endereço é www.paulohenriqueamorim.com.br
Sexta-feira, Março 14, 2008
Por que será que os conservadores estão se articulando?
"Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios."
Carlos Santana preside comissão sobre igualdade racial
O deputado Carlos Santana (PT-RJ) foi eleito ontem, presidente da comissão especial que vai analisar as propostas sobre igualdade racial em tramitação na Câmara, em especial o Estatuto da Igualdade Racial (PL 6264/05). De acordo com Carlos Santana, também presidente da Frente Parlamentar da Igualdade Racial, a expectativa é de que o Estatuto da Igualdade Racial possa ser aprovado ainda em 2008.
"Esse é um ano com muito simbolismo para os afrodescendentes, quando se completam 120 anos da abolição da escravatura no Brasil. Queremos que essa comissão promova um amplo debate sobre os temas relacionados à igualdade racial e vamos ouvir todos os setores envolvidos, porque essa é uma luta de toda a sociedade brasileira. O Estatuto será um instrumento para todos os afrodescendentes e espero que a Câmara faça justiça e aprove essa proposta", frisou Santana.
Estatuto - O projeto que trata do Estatuto da Igualdade Racial, é de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) e tem por objetivo estabelecer mecanismos de combate ao racismo e de inserir a dimensão racial nas políticas públicas do Brasil. O relator da comissão especial será o deputado Antonio Roberto (PV-MG). Também integram o colegiado os seguintes deputados petistas: Janete Rocha Pietá (SP), Vicentinho (SP), Dr. Rosinha (PR), e Gilmar Machado (MG).
A deputada Janete Rocha Pietá ressaltou a importância da comissão especial na medida em que "o Estado brasileiro tem uma dívida com os negros e negras que têm dado uma contribuição fundamental para a construção do Brasil, mas que sofrem, em sua maioria, com as piores condições de vida".
Esse ano comemoraremos os 120 anos da abolição legal da escravatura em nosso país. Mais de um século se passou e ainda temos enormes disparidades sociais que afetam diretamente a maioria da população negra e brasileira.Particularmente sobre o estabelecimento da política de cotas nas universidades eu gostaria de argumentar que como o polêmico tema do Bolsa- Família que já conta com uma bibliografia e estudos de mais de duas décadas, ressaltando que os primeiros programas de renda mínima e de transferência de renda direta foram implementados em 1995 e reorganizados a partir de 2003, também existem vários pesquisadores sérios estudando as universidades do país que implementaram a política de cotas.
É preciso conhecer esses estudos, eles são reveladores. De modo geral, os alunos cotistas AUMENTAM a média dos cursos que freqüentam ao invés de diminuir a qualidade dos cursos como costuma propalar os detratores e contrários às políticas de ações afirmativas.Vejamos:
Resultado afirmativo
(Fábio de Castro)
Agência FAPESP – Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) entre 2003 e 2005 revelou que estudantes provenientes de escolas públicas têm maior potencial acadêmico do que os das escolas privadas, demonstrando melhor desempenho ao longo do curso.
A pesquisa ajudou a orientar a criação do programa de ação afirmativa adotado pela Unicamp em 2004 e, desde então, os autores têm feito o acompanhamento semestral do desempenho dos alunos, utilizando a mesma metodologia.
A conclusão preliminar do acompanhamento é que a medida efetivamente aumentou a porcentagem dos egressos de escolas públicas na universidade, especialmente nos cursos de alta demanda, garantindo a presença de estudantes de pior condição socioeconômica e melhor potencial acadêmico.
(...)Eqüidade em estudo
O estudo começou em 2003, quando o debate público sobre políticas de ação afirmativa ganhava corpo diante da constatação de que a maior parte dos alunos das melhores universidades vinha de escolas privadas. Na Unicamp, a proporção de estudantes nessas condições era de cerca de 70%.
“A reitoria consultou a comissão responsável pelo vestibular, da qual eu faço parte, sobre a existência de estudos que justificassem academicamente as políticas de ação afirmativa. Como não havia estudos detalhados, coube a nós tomar a iniciativa”, disse Pedrosa.
Pedrosa e Carvalho avaliaram então o desempenho dos cerca de 7 mil estudantes que ingressaram na universidade entre 1994 e 1997 – a maioria dos quais, à época do estudo, em vias de formatura –, comparando a colocação dos alunos no vestibular à colocação alcançada na média total das notas ao fim do curso.
Segundo o professor do Imecc, a comparação indicou que os estudantes provenientes da rede pública melhoravam de posição ao fim do curso, em relação aos estudantes vindos de escolas privadas. Cada curso foi avaliado separadamente.
“Percebendo essa diferença favorável aos estudantes da rede pública, fizemos uma modelagem mais detalhada, transportando a experiência de Norberto Dachs na área de estatística em eqüidade em saúde para observar a questão da eqüidade em educação”, explicou.
Pedrosa ressalta que o programa de ação afirmativa, implantado já no vestibular de 2005, não foi diretamente derivado da pesquisa, mas serviu para justificar a adoção e determinar aspectos como, por exemplo, o número de pontos a ser acrescentado à nota do estudante egresso da rede pública.
“Nossa estimativa é que, com a variabilidade estatística da nota, os alunos cujas notas diferem em 10 ou 20 pontos estão, na prática, empatados. Por isso o programa acrescenta 30 pontos aos alunos de rede pública e mais 10 para os pretos, pardos ou índios nessas condições”, disse. (...)
A interpretação dos pesquisadores para esse fato é que esses alunos – da escola pública e de camada socioeconômica mais desfavorecida – tinham um potencial acadêmico não desenvolvido e, quando eram colocados em igualdade de condições, tinham desempenho acima dos demais.
“Seria possível também fazer uma interpretação antropológica, concluindo que o ambiente da escola pública, mais hostil e adverso, torna o aluno mais determinado a se superar ao chegar ao ambiente aberto da universidade”, sugeriu Pedrosa.
Trecho da matéria Resultado afirmativo. Boletim Agência Fapesp, 14 mar. 2008. Observação: O artigo Academic performance, students' background and affirmative action at a Brazilian research university, de Renato Pedrosa e outros, pode ser lido por assinantes da Higher Education Management and Policy (vol. 19 – nº3).
O estudo da Unicamp não é único, há vários outros que nos mostram que os alunos cotistas têm se saído melhor em seu desempenho acadêmico, basta a garantia da eqüidade no vestibular. Exemplos não faltam: o melhor aluno da turma de japonês em uma universidade pública do Rio de Janeiro ganha bolsa pra estudar no Japão e uma série de outros casos que mostram que esses meninos e meninas não estão de brincadeira.
A luta pela educação é secular na história da população negra de nosso território. Antes mesmo de os negros se organizarem em movimentos negros. Voltarei a discutir essa luta em outro momento. Também é equívoco achar que as ações afirmativas são cópias dos EUA, não são e ao conhecer minimamente as lutas negras de nosso país esse argumento se desfaz.
Desejaremos manter esse fosso incomensurável de desigualdades não apenas sociais, mas também étnico-racial?
Pois a pobreza e a morte neste país tem uma cor bem determinada. Falo da cor que empretece as estatísticas de exclusão social, quando vistas com a lupa do critério raça-cor-etnia (e por favor, não me venham com a cantilena de que não existem raças, todas as pessoas esclarecidas sabem disso, mas o racismo a inventou e enquanto ele existir, entendamos raça como uma categoria sociológica). Falo dos índices de IDH que melhoram no Brasil, menos para a população negra, como pode ser visto nas análises do economista Marcelo Paixão; da taxa de mortalidade da juventude negra brasileira; das mortes de mulheres negras (em sua maioria) provocadas em clínicas de aborto clandestinas, dos menores índices de escolaridade, evasão e retorno insistente de crianças e adolescentes negros que querem exercer o direito de estudar; das diferenças salariais para o mesmo tipo de trabalho desenvolvido etc.
Questiono aqueles que ainda são contrários às cotas: desejaremos perder a chance de enriquecer nossas universidades com as diferenças de perspectivas, pontos de vista, outros modos de pensar, agir e produzir?
Questiono-os: Desejaremos manter uma sociedade de estrutura colonial e escravagista em todos os espaços públicos e privados onde o simples fato de alguém ter um fenótipo não branco é sinal de suspeição?
Conceição Oliveira
Edir Macedo quer censurar Orkut e Youtube
Do blog do Caio Cristiano DEMOCRACIAJUSTIÇALIBERDADE
BISPO EDIR MACEDO NÃO RESPEITA O DIREITO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO!!
“Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e trasmitir informações e idéias por quaisquer meio e independentemente de fronteiras.”
Artigo XIX da Declaração Universal dos Diretios do Homem
"O digníssimo senhor Edir Macedo, proprietário da empresa Igreja Universal do Reino de Deus, move ação na “Justiça” para tirar do ar comunidades do Orkut e vídeos do Youtube que podem imacular sua imagem pública de político e de empresário de Deus, digo, de homem de Deus.
Em um desse vídeos, ele próprio, ensina a um grupo de gerentes religosos de sua empresa, como “arracar” dinheiro dos fieis. Veja o video (http://br.youtube.com/watch?v=My6_faauym8 ) e faça seu julgamento.
Aquele que ao ver este vídeo, sentir em seu coração flamejar a indignação, deve no mínimo divulgá-lo o máximo que puder e manter a si e aos seus distancia segura desse digníssimo homem de Deus, ou deveremos marchar aos gritos de Liberdade e Justiça! à porta desses templos...
Quanto a outras providências, aguarda-se que a comunidade acadêmica se manifeste, que a OAB se faça presente, que os partidos de esquerda lancem notas de repúdio, etc..
Bibliografia:
1 Edir Macedo ensinando a roubar. In: http://www.youtube.com/, 2008. Disponível em: http://br.youtube.com/watch?v=My6_faauym8 Acesso em: 13 mar. 2008.
2 Orkut terá de tirar do ar comunidades contra Edir macedo. In: http://www.gospelma.is.com.br/, 2008. Disponivel em: http://www.gospelmais.com.br/noticias/1372/orkut-tera-de-tirar-do-ar-comunidades-contra-edir-macedo.html Acesso em: 13 mar. 2008."
Quarta-feira, Março 12, 2008
Procura-se a menina que se negou a cumprimentar Figueiredo
Negando a mão ao general de plantão.
Publicado por Claudio Versiani at 8:31 am em fotografia, fotógrafos brasileiros, história
Eu comecei minha vida profissional no jornal O Globo em Belo Horizonte. O ano era 1978 e o Brasil ainda vivia a ditadura dos generais. Foi em O Globo que eu conheci Guinaldo Nicolaevsky. Eu era um estudante de jornalismo fazendo o primeiro trabalho frelance de minha vida e Guinaldo, um experiente profissional. Ele me recebeu de braços abertos, como se costuma dizer, e me ensinou as chamadas manhas da profissão. Guinaldo Nicolaevsky é daqueles amigos para toda a vida.Em 1979, acho, o general presidente e ditador de plantão, João Figueiredo, o que não gostava do cheiro do povo, esteve no Palácio da Liberdade. Guinaldo Nicolaevsky estava lá e fotografou.
© Guinaldo NicolaevskyE escreveu para o Bloco de Notas…
FIGUEIREDO, A MENINA E “O GLOBO”!!!
Lançamento do carro à álcool em Belo Horizonte. A imprensa mineira e a nacional estavam presentes e um grupo de crianças foi levado ao Palácio da Liberdade para cumprimentar o presidente Figueiredo. Deu zebra: a primeira da fila negou o aperto de mão ao Presidente da República, apesar dos pedidos dos fotógrafos. Percebi que não aconteceria o aperto e fotografei.Corri para a redação para revelar e transmitir a foto para o Rio. Para minha surpresa eles não publicaram a foto! Desconfiaram! Queriam o “cumprimento”. Fui ameaçado de dispensa caso não entregasse o fotograma. Foi exigido que mandasse o filme sem cortá-lo no primeiro vôo para o Rio. O que foi feito. Não publicaram nada… resolvi por minha conta, mandar para outros veículos, que publicaram com destaque até no exterior.Eu pedi mais uma e Guinaldo escreveu…
O BRINDE À “REDENTORA”!!!
Março, 1964. Cobrindo o Golpe, na Cinelândia, para a “Última Hora”, deparei-me com uma praça de guerra… gente caindo ferida e tiros que vinham do teto do prédio do SENADO FEDERAL. Procurei abrigar-me e corri para o primeiro prédio que encontrei, na rua Santa Lúcia com Av. Rio Branco… mal sabia que era o prédio do Clube Militar. Fui o último a entrar no elevador e para minha surpresa, cinco ou seis generais lá estavam, marquei no botão o andar do Clube. Eu, de máquina pendurada no pescoço os segui e saltei no mesmo andar. Muita gente no saguão e muita festa. Serviam champanhe para todos, e os generais, cinco ou seis, ergueram as taças e falaram para mim: _ Aproveita para fotografar a vitória da REVOLUÇÃO. Logo em seguida, um capitão deu a ordem: _ Agora entregue-me sua Rolleiflex, pois além da Última Hora, você trabalhou para um jornal comunista (IMPRENSA POPULAR). Agora suma daqui antes que leve umas porradas. E o filme que tinha o brinde à “REDENTORA” JÁ ERA!PS: Corria um boato na Cinelândia que os militares tinham prendido todos os jornalistas de lá (Última hora) e que tinham tocado fogo no prédio… eu não sabia aonde ir.
Pictura agradece ao Guinaldo por ter mandado a foto e as histórias. Eu agradeço o privilégio de tê-lo como amigo.
E a Frô agradece o privilégio de reproduzir fotos e notas por aqui.
Nova Campanha publicitária de Veja reforça velhos estereótipos do neocolonialismo
No blog de Luis Nassif de 12/03/2008 há uma longa matéria, pertencente à série na qual o jornalista vem fazendo denúncias ao jornalismo 'estilo Veja'. Nela, Nassif discorre sobre a linguagem de um dos articulistas e blogueiro da Revista Veja - Reinaldo Azevedo -, destaca e critica também o novo mote da Campanha publicitária da referida revista: A Cara de Veja
É preciso ter estômago para ler até o fim. Confesso que não tive. É impossível ler os discursos do blogueiro Reinaldo e seus comentaristas permeados por diferentes tipos de preconceitos: racial, de gênero, de classe, cultural, enfim, a meu ver é o caso de acionar o Ministério Público.
Agora, em relação à campanha publicitária da Revista Veja, penso que Nassif poderia ter feito uma análise mais acurada da propaganda, especialmente da composição fotográfica da peça publicitária de Veja que ele destacou para compor a sua matéria. Observe-a:

"Veja, indispensável para o país que queremos ser"
Esta oposição da criança de pele escura, descabelada, mal-ajambrada, pobre e suja versus uma criança negra vestida, limpinha e arrumadinha é bastante estereotipada, ela nos remete diretamente às propagandas dos missionários cristãos em África e Ásia de fins do século XVIII e do XIX, que mostravam, por exemplo, uma mulher de pele escura como as das etnias de Nova Guiné seminua toda descabelada e depois vestida até o pescoço, penteada, 'cristianizada'.As oposições tanto no imperialismo do XIX como no capitalismo defendido por Veja do século XXI têm a mesma função e ambas vendem dois estereótipos o de antes e o do depois. Estereótipos reforçados pela criança branca eleita por Veja pra representar o seu discurso de um 'novo Brasil que precisa ser construído'.
Aos olhos atentos, Veja faz uma releitura de Rudyard Kipling, reassumindo um 'novo fardo do homem branco'. Assim como o fardo que Kipling defendia em seu poema, Veja se considera portadora de uma 'verdade' a ser revelada para nós.
Veja, assim como os imperialistas do XIX, esquece-se que as populações negras de nosso país vêm se organizando e lutando não apenas para garantir seus direitos em uma sociedade de racismo velado e de extrema desigualdade social e étnico-racial, mas também contra estereótipos como os propagados na campanha de Veja.
Há muito os movimentos negros são protagonistas de propostas e mudanças efetivas neste país, mudanças essas as quais Veja sempre fez oposição, como ao projeto de Estatuto de igualdade racial, à política de cotas e uma série de outras ações afirmativas.
É bom que Veja saiba que, ao menos entre a população negra desse país, a cara do novo Brasil que queremos não é a vendida e defendida por Veja. Assim como os inúmeros povos africanos e asiáticos negaram a ideologia racista do imperialismo, há muito que os negros brasileiros vêm negando a tutela branca para falar por eles.
Por outro lado, essa nova campanha parece revelar que o Brasil propagado por Veja está tendo baixas. Quando se investe tanto tempo em uma propaganda televisiva em horário nobre é porque há necessidade. Pelo visto estão perdendo leitores e as estratégias de mandar, durante um mês, exemplares de Veja às residências para cooptar possíveis assinantes, parece que não está funcionando. Aqui em casa quando eles chegam não me dou ao trabalho sequer de tirar do saquinho, vão direto para o lixo.
Sexta-feira, Março 07, 2008
8 de março, abaixo a violência contra as mulheres


Atualizado em 08/03/2008.
As campanhas são opostas, uma trabalha com um imaginário bastante violento: mercantiliza o corpo feminino e sugere que é sexy a submissão da mulher por um homem, diante da observação de outros (essa cena lhe sugere algo?).
A segunda busca sensibilizar os homens, alertando que a violência doméstica não atinge só a mulher, mas a família inteira.
8 de março é a data oficial para o dia Internacional da mulher. Todos os dias deveriam ser dias de indígenas, negros, crianças, idosos, mulheres e homens operários e camponeses que lutam para sobreviver com dignidade.
Os movimentos sociais ao longo de suas lutas e para rememorá-las e reafirmá-las foram criando marcos comemorativos e reflexivos. O dia Internacional da mulher é um deles.
O 8 de março é uma data que está relacionada às lutas operárias. Segundo reza a tradição, foi nesse dia e mês, no ano de 1857, durante as manifestações de operárias por melhores condições de trabalho, como: redução de jornada para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário); equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho, que 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton, em Nova Iorque, cruzaram os braços e paralisaram os trabalhos na primeira greve nos EUA liderada unicamente por mulheres. Violentamente reprimidas pela polícia, as operárias, acuadas, refugiaram-se nas dependências da fábrica. No dia 8 de março de 1857, os patrões e a polícia trancaram as portas da fábrica e atearam fogo. Asfixiadas, dentro de um local em chamas, as tecelãs morreram carbonizadas.
Entretanto, a pesquisadora Eva Blay discorda desta versão:Dia Internacional da Mulher: fatos e mitos
O dia 8 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é constantemente associado a uma proposta da líder comunista alemã Clara Zetkin, feita em 1910, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, ocorrido em Copenhague, para lembrar operárias mortas num incêndio que teria ocorrido em Nova York, em 1857. Segundo a socióloga Eva Alterman Blay, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e coordenadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero (Nemge), "o acidente de 1857 não aconteceu" e, durante o Congresso, a líder comunista propôs um Dia Internacional da Mulher, porém, sem definir uma data precisa para as comemorações. "O dia 8 de março baseia-se em fatos históricos diferentes daqueles que são freqüentemente repetidos sem uma consulta adequada", afirma.
De acordo com Eva Blay, o incêndio relacionado ao Dia Internacional da Mulher é o que ocorreu no dia 25 de março de 1911, nos EUA, na Triangle Shirtwaist Company (Companhia de Blusas Triângulo), uma fábrica têxtil que ocupava o oitavo, o nono e o décimo andar de um prédio. A Triangle empregava 600 trabalhadores, a maioria mulheres imigrantes judias e italianas, com idade entre 13 e 23 anos. Fugindo do fogo, parte dos trabalhadores conseguiu alcançar as escadas descendo para a rua ou subindo no telhado. Outros desceram pelo elevador. Mas a fumaça e o fogo se expandiram, e muitos trabalhadores pularam das janelas para a morte. Algumas mulheres morreram nas próprias máquinas. Houve 146 vítimas fatais, sendo 125 mulheres e 21 homens. No funeral coletivo ocorrido dia 05 de abril compareceram cerca de 100 mil pessoas.
No local do incêndio está construída uma parte da Universidade de Nova York, onde consta a inscrição: "Neste lugar, em 25 de março de 1911, 146 trabalhadores perderam suas vidas no incêndio da Companhia de Blusas Triangle. Deste martírio resultaram novos conceitos de responsabilidade social e legislação do trabalho que ajudaram a tornar as condições de trabalho as melhores do mundo."
Segundo Eva Blay, é muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da comemoração do Dia Internacional da Mulher pela luta por elas travada. Mas o processo de instituição de uma data comemorativa já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há alguns tempo, e foi confirmado com a proposta de Clara Zetkin em 1910.
"O dia 08 de março passou a ser comemorado mais intensamente na década de 60, após o fortalecimento do movimento feminista, quando também passaram a ser discutidos problemas da sexualidade, da liberdade ao corpo, do casamento e dos jovens", relata. Embora não se conheça com precisão por que o dia 8 de março foi escolhido, o fato é que ele se consagrou ao longo do século XX.(...)"
Os pesquisadores estão de acordo em relação à 1910: durante a II Conferência Internacional de Mulheres, realizada naquele ano na Dinamarca, a famosa ativista pelos direitos femininos, Clara Zetkin, propôs um Dia Internacional da Mulher. Em 1911, mais de um milhão de mulheres se manifestaram na Europa. A partir daí, essa data começou a ser comemorada no mundo inteiro. Entretanto, só em 1977, a ONU (Organização das Nações Unidas) oficializou a data. De todo modo, o 8 de março nos remete ao foco na nossa luta por um mundo mais igualitário e melhor para todos, homens e mulheres.
Hoje, muitas mulheres no mundo todo conseguiram muitos avanços, no Brasil, por exemplo, ela têm mais estudos que os homens, lutam por equiparação social, estão presentes nas pesquisas científicas de ponta, casam-se com homens mais jovens, quebrando uma série de tabus sociais.
Mas nem tudo são vitórias. Muitas mulheres de baixa renda são vítimas em clínicas de aborto clandestinas, muitas estão expostas à violência doméstica. Fora daqui, em alguns lugares socialmente permeados pela violência, as mulheres são vítimas dos abusos da guerra, da ausência do Estado de Direito, são estupradas, é negada a elas a dignidade humana.Que nos próximos 8 de março não precisemos mais falar desses enormes problemas que afetam milhões de mulheres no mundo.
Que possamos, finalmente, rememorar as lutas e festejar as conquistas.
Para terminar, reproduzo aqui uma bela homenagem da ONG RADIALISTAS APASIONADAS Y APASIONADOS sediada em Quito, Ecuador.
Ouça as homenagens de mulheres e homens radialistas de vários países americanos, além da Espanha e França.
| |
2. PARAGUAY Pepe Ríos (descargar saludo)
3. ARGENTINA Evenlin (descargar saludo)
4. PERÚ Enriqueta Canales (descargar saludo)
5. ECUADOR Edgar Barros (descargar saludo)
6. MÉXICO Coco Bernal (descargar saludo)
7. ESPAÑA Ángela Millán (descargar saludo)
8. CUBA Rubén Suárez (descargar saludo)
9. ECUADOR Sonia Fernández (descargar saludo)
10. VENEZUELA Robert Soaréjola (descargar saludo)
11. NICARAGUA Gloria y Elizabeth (descargar saludo)
12. COLOMBIA Luís Alfonso Bayona (descargar saludo)
13. PARAGUAY Sara Fisher (descargar saludo)
14. BOLIVIA Rafael Alvis (descargar saludo)
15. COLOMBIA Jenny García (descargar saludo)
16. MÉXICO César Martínez (descargar saludo)
17. ESPAÑA Lidia (descargar saludo)
18. PERÚ Carlos (descargar saludo)
19. COLOMBIA Alexandra Daza (descargar saludo)
20. CUBA Efraín Judith (descargar saludo)
21. BRASIL Sonia Sobeh (descargar saludo)
22. PERÚ William Moisés (descargar saludo)
23. CUBA Mercedes Romero (descargar saludo)
24. ESPAÑA Juan la Torre (descargar saludo)
25. COSTA RICA María José Argüello (descargar saludo)
26. MÉXICO Abiser González Aguilar (descargar saludo)
27. ECUADOR Gabriela García (descargar saludo)
28. VENEZUELA José Naveda (descargar saludo)
29. FRANCIA Valentine Desclee (descargar saludo)
30. MÉXICO Emmanuel Rojo Ruiz (descargar saludo)
31. ECUADOR Marta Vaquero (descargar saludo)
Parabéns, Mãe Rosa!
denúncia: demolição de terreiro pelo poder público em Salvador
Parabéns à sociedade civil como um todo, que pressionou outros órgãos do Poder público como o MP, que foi acionado;
Parabéns às inúmeras instituições do movimento negro e de entidades religiosas do povo de Santo não apenas de Salvador, mas de todo o país.
Parabéns aos jornalistas e blogueiros que abriram espaços solidários em seus blogs pra denunciar este desmando e que não estão cegos aos desmandos no país.
Quanto ao prefeito lhe restou muito pouco a não ser reconhecer que, sob a sua administração, funcionários sem sua ordem cometem abusos, ou seja, ele pelo visto não manda em nada. E não esqueçamos, aproximam-se as eleições municipais: filme completamente queimado o do prefeito.
******************
Além do pedido de desculpas, João Henrique assinou termo que dá posse do terreno a mãe Rosa | ||
| Mariana Rios “Valeu a desculpa, mas minhas feridas não cicatrizam. A responsabilidade ainda é muita”. O desabafo de mãe Rosa veio depois da retratação pública do prefeito João Henrique, ontem à tarde, na sede do Executivo municipal e da assinatura do termo que passa para o nome da ialorixá a posse do terreno, no Imbuí. A concessão de direito de uso da terra será encaminhada à Câmara de Vereadores até a próxima quarta-feira. Na Praça Municipal, cerca de 200 adeptos do candomblé, que vieram em passeata do Campo Grande, ouviram do prefeito a garantia de que todos os terreiros em área pública terão regularizada a situação fundiária. Para isto, os vereadores deverão votar projeto que altera um artigo da lei orgânica do município, concedendo ao Executivo autorização para a regularização fundiária de imóveis de interesse social. “Estamos levantando todos os terreiros em área pública. Concluídos o georreferenciamento e a identificação, será feita a regularização do terreno”, confirmou o secretário de Governo, Gilmar Santiago. De acordo com o último mapeamento da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), realizado em 2007, dos 1.236 terreiros catalogados na capital, apenas 39,3% possuem escritura registrada. Ainda não se sabe quantos ocupam áreas públicas. Desde a noite de anteontem, o secretariado já havia garantido a uma comissão formada por entidades de defesa do culto afro a concessão da posse do terreno à mãe Rosa – ialorixá do terreiro Oyá Onipó Neto, demolido na semana passada por fiscais da Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom) sob o argumento de que ocupava uma área pública. Excessos - “Reconhecemos excesso por parte dos fiscais da Sucom e precisamos garantir que outros excessos não ocorram. Reiteramos de público o pedido de desculpa oficial e consolidamos a paz que buscamos diariamente”, declarou João Henrique na sala de reunião, com todo o secretariado reunido. Na solenidade, circulou uma nota pública atribuída à secretária municipal do Planejamento, Kátia Carmelo, que acumulava a superintendência da Sucom – de onde foi exonerada dois dias depois do episódio. No texto ela afirma ter se desculpado assim que viu as “fotografias da delicada situação criada”. No entanto, a secretária manteve uma postura intransigente, foi enfática e declarou no dia da destruição de parte do terreiro que a demolição é sumária para construções em área pública. A ialorixá do terreiro Unipó Filho, Ana de Oliveira Néry, que participou da reunião na Sucom, com o promotor de combate ao racismo, Almiro Sena, confirmou que em nenhum momento Kátia pediu desculpas. *** Greve de fome chega ao fim Após o encontro no gabinete, o prefeito foi até a escadaria da prefeitura e garantiu que demolições não voltarão a ocorrer. “O poder público está abrindo uma sindicância para apurar os fatos, punir os responsáveis e se desculpar com os atingidos pelo ato. A Sucom errou pelo excesso e pedimos as devidas desculpas”, afirmou o prefeito para a platéia na Praça Municipal. Com a atitude, o coordenador geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN), Marcos Rezende, suspendeu a greve de fome iniciada na última sexta-feira para pressionar a retratação do prefeito João Henrique. Rezende foi um dos que seguiram em passeata ontem, no protesto contra a intolerância religiosa e o racismo institucional. “Queremos tudo oficializado: a garantia da permanência, a reconstrução e ressarcimento dos danos causados. A orixá da casa, Iansã, pediu que quer ficar lá”, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro. O terreiro sofreu em 1997 ação parecida, quando foi demolido durante a gestão de Antonio Imbassahy. Na concentração da caminhada, mãe Rosa recebeu cumprimentos de representantes de diversos terreiros e de adeptos de outras religiões, como evangélicos, que estavam solidários à causa. “Podemos recuperar o terreiro, mas a ofensa continua”, disse mãe Rosa. “Viemos para pedir tolerância. O que aconteceu foi uma grande falta de respeito com nossa culto religioso, sem avaliar as conseqüências”, disparou Francisca Maria Conceição, do terreiro Ilê Axé Airabodê, do bairro da Caixa D’água. Quando a caminhada chegou à Praça Municipal, um manifestante que trazia um boneco com a imagem do prefeito (que possivelmente seria queimado), foi enxotado por mãe Rosa. | ||
Quarta-feira, Março 05, 2008
Um exemplo de mídia com humor e com vigor
MELLO: KAMEL DESCOBRIU QUAL É O GRANDE PROBLEMA DO BRASIL
Atualizado em 05 de março de 2008 às 12:50 | Publicado em 05 de março de 2008 às 12:47
por Antônio Mello, do blog do Mello:
O diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali, Lá ou Acolá (estou testando hipóteses) Kamel é um sabichão. Hoje, ele publicou em O Globo um artigo luminoso, que lança luz sobre as raízes dos problemas brasileiros.
Não, a origem de nossos problemas não está nos bilhões que despendemos com o serviço da dívida. Nem nos bilhões (mais de 70) de dívidas que produtores rurais não pagam, de calote em calote. Nem nos vários incentivos fiscais que oferecemos às grandes empresas e aos mega-especuladores, para que passeiem suas fortunas por nossa disneylândia financeira, e saiam daqui com o lucro gordo e livre de impostos. A origem de nossos problemas também não está na venda a preço vil de uma Vale do Rio Doce, nem nas privatizações feitas “no limite da irresponsabilidade”. Também não está no Proer, que salvou banqueiros pilantras e falidos, nem no bilhão distribuído, na época do Cacciola. Também não está nos incentivos que o governo dá a fundações de bancos, para que façam mecenato às custas do imposto abatido, sendo que algumas dessas fundações, como a Fundação Roberto Marinho, com sérias acusações pesando sobre elas.
Nada disso. O grande problema brasileiro, segundo Kamel, é que muitos dos beneficiados do Bolsa Família não estão gastando dinheiro com comida, mas com eletrodomésticos.
Isso mesmo, nada de arroz, feijão e carne...(...)o que tem sido comprado é geladeira, microondas, máquina de lavar, fogão, liquidificador, forno elétrico, televisão e DVD.
Vou fazer uma revelação aqui, que deve deixar o diretor da Globo ainda mais espantado: eles devem ter comprado também panelas, pratos, garfos, facas, colheres, colheres de pau, escorredores de macarrão, chaleiras... Mas, pelo visto, Kamel preferiria que essas pessoas preparassem a comida numa panela velha, em cima da lenha, numa fenda no chão.
É o que demonstra o exemplo que ele cita em seu artigo, de uma catadora de lixo, Rosineide dos Santos, mãe de três filhos. Ela diz que já tem geladeira, fogão, liquidificador, cafeteira e forno elétrico, e que, assim que saldar a dívida, vai comprar uma televisão.
Para Kamel, isso é um absurdo. Um desvirtuamento do Bolsa Família. Mas o problema não é esse não. É que Kamel está desinformado. Ele começa o artigo afirmando que o objetivo do Bolsa Família é matar a fome de 54 milhões de brasileiros. Está errado. Isso é o Fome Zero, Kamel. O Bolsa Família está explicado aqui.
Os dois programas já existem há um bom tempo e até hoje o diretor de jornalismo da maior rede de televisão do país ainda não aprendeu a diferença entre eles...
Mas não é só aí que Kamel desinforma. Indo à página do MDS onde ele leu o relatório você vai ver por que Rosineide comprou sua geladeira e, de quebra, ver como Kamel distorce o relatório para fazê-lo caber na sua tese.
Por isso, vou dar um conselho a dona Rosineide, a catadora de lixo. Ao liquidar a dívida, não compre televisão não, dona Rosineide. Compre um computador. Seus filhos encontrarão diversão a valer na rede e serão muito mais bem informados.
Terça-feira, Março 04, 2008
Lendo uma mídia sem ética, sem elegância, sem estilo e sem relevância
************
| MÍDIA & ÉTICA Por Ivo Lucchesi em 4/3/2008 | |
É lamentável, mas não menos necessário, que a presente escrita tenha de retornar a um tema cujo foco crítico possa parecer ao leitor falta de imaginação inventiva da parte do articulista. Contudo, não posso eximir-me de manifestar intenso repúdio a quatro fatos que, em menos de um mês, supostos renomados jornais doaram ao público um teor abaixo do deplorável. Em ordem cronológica, refiro-me às seguintes edições: Valor Econômico (19/2), O Globo (25/2), Jornal do Brasil (27/2) e Folha de S. Paulo (28/2). A perda da medida Desde a dramaturgia de Ésquilo e Sófocles, na antiga Grécia, e, adiante, com as precisas observações de Aristóteles em sua Poética, sabemos que o "herói trágico" incorre na "desmedida", na incontida ânsia de perseguir a verdade ou a defesa radical do que considera justo. Em razão do excesso do que julga ser uma virtude, o "herói" ultrapassa a barreira e cai na "desmedida", do que decorre sua dimensão trágica. Dando um salto de milênios, da tragédia grega à mídia contemporânea, logo perceberemos a inadaptabilidade dos fundamentos de uma época para a outra. Uma vez relatados os quatro fatos, o leitor compreenderá que o conceito de "desmedida" inerente ao perfil do "herói trágico" em nada tem a ver com a insensatez com a qual o jornalismo brasileiro parece estar em parceria. Vamos, pois, aos fatos. Fato 1 No seleto jornal Valor Econômico (19/2/2008), constava a seguinte matéria: "Carteiras que estavam pouco concentradas se destacaram". Eis que, na terceira linha do segundo parágrafo, lê-se a seguinte frase: "Acontece que o índice despirocou por conta da forte alta de dois papéis /.../". Como? Sim, exatamente essa é a redação. Quem o escreveu não se sabe, pois a matéria não está assinada. Todavia, o aval do editor foi dado, seja por haver lido, seja por haver ignorado. Nas duas opções, não há como saber qual delas mais depõe contra o editor. A questão é: por que optar pelo grosseiro vocábulo ("despirocou"), em lugar de "desequilibrou", "enlouqueceu", "ensandeceu"? E mais: esse jargão em texto de análise econômica, num jornal destinado a um público-receptor mais exigente? É de estarrecer. Fato 2 Na primeira página de O Globo (25/2/2008), o foco visual conduzia o leitor a uma frase na qual era realçada a "dança do créu na vitória do Flamengo" e, abaixo, a foto dos jogadores, com a coreografia da dança. Lembro que, na manchete de O Globo, "créu" não continha aspas, negrito ou itálico. Frise-se, ainda, que, na coluna, à esquerda do leitor, constavam duas notícias de densidade dramática: uma, referente a denúncias de tortura na polícia; outra, relativa a mais uma vítima assassinada, na Barra da Tijuca, por haver parado em sinal. A justaposição de tais fatos só revela a total perda de respeito à dimensão humana e ao sentido do que querem dizer cultura, notícia e ética. Tento, por minutos, imaginar-me um familiar da vítima assassinada, vendo e lendo, ao lado, a "dança do créu". Sinto muito: isto é inaceitável; é repugnante e deveria ser repelido por todo e qualquer jornalista que sabe quanto é belo e digno o ofício diário dessa profissão. Um jornalista, Sr. Editor de O Globo, é, acima de tudo, um "vigilante dos acontecimentos", em favor dos cidadãos. Um jornalista, por isso, não se pode converter em "insensível promotor de eventos", modelo no qual se banaliza a tragédia humana e entroniza-se a vulgaridade. Fato 3 O Jornal do Brasil (27/2/2008) elegeu a seguinte manchete: "Lula: `Porrada não educa!´". Supostamente, a frase teria sido pronunciada pelo presidente da República, num discurso, durante uma visita às obras da ThyssenKrupp CSA, um complexo siderúrgico em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. O caso em questão está revestido do mais alto grau de deformação. Vale lembrar ao leitor que a manchete destacava, entre aspas, a frase "porrada não educa" como tendo sido aquela pronunciada pelo presidente. Indo à matéria, a frase é: "Se porrada educasse, bandido saía da cadeia santo". Tudo bem: o presidente poderia ter evitado o uso do termo "porrada"? Sim, poderia. Mais grave, porém, é o jornalista que transforma, em manchete, uma frase entre aspas, impronunciada. E mais: a frase que, efetivamente, foi dita contém nível de argumentação diferente da "secura grosseira" transformada em manchete. Houve, portanto, intenção em expor negativamente a figura do presidente? Tudo indica que sim. No mesmo evento, o presidente também declarou: "Não posso errar porque, quando encerrar o mandato, não vou a Paris ou Londres" – frase à qual o JB deu relevância na página A3, embora, na mesma página a manchete fosse, outra vez, "Para Lula, porrada não educa". Que é isto? Será jornalismo? O leitor avalie. Fato 4 Diferentemente do tom das três situações anteriores, esta, publicada na página C4 do caderno "Cotidiano" (Folha de S.Paulo, 28/2/2008), é da ordem do grotesco. Em matéria assinada por Vinícius Queiroz Galvão, o leitor era convidado pelo seguinte título: "Justiça suspende demissão por excesso de flatulência". No tocante ao presente fato, diferentes considerações se mostram necessárias. Dentre elas, situam-se: 1) o perfil insólito do fato em si; 2) a decisão do processo; 3) a cobertura jornalística. Em relação ao primeiro, cabe a indagação: o fato mereceria registro num jornal que se pretende de primeira linhagem na imprensa nacional? Para melhor situar o leitor, reproduzo a matéria, respeitando a paragrafação original: "A demissão por justa causa de uma funcionária que, segundo a empresa, excedia-se em flatulência no ambiente de trabalho foi pelos ares. Juízes da 4ª. Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo decidiram pela readmissão da funcionária e pelo pagamento de R$ 10 mil por danos morais. Para basear o voto, o relator do processo, juiz Ricardo Artur Costa e Trigueiros, recorreu a um artigo em que o médico Drauzio Varella afirmava que a emissão de gases intestinais não é doença. `O organismo tem que expandir os flatos, comum a todos. Nem sempre pode haver controle´, diz a decisão. O juiz cita ainda uma passagem do livro Jô Soares `O Xangô de Baker Street´, em que o imperador Pedro II soltava gases na corte." O fato em si, a decisão judicial, a fonte na qual o relator fundamentou a sentença e a matéria jornalística são recortes primorosos para compreendermos a reinante mediocridade brasileira. Ela tem a propriedade de revelar ao leitor a rede de sutilezas com a qual se monta uma "peça de horrores humorísticos". Por partes, tentemos seguir o roteiro: 1) o ridículo do litígio entre empresa e funcionária, por conta da "flatulência". De um lado, a inabilidade da empresa e contornar o fato grotesco; de outro, a insensibilidade da portadora do problema, em não buscar soluções medicinais; 2) a atuação da justiça que, convocada a pronunciar-se, fundamentou sua decisão num artigo do "médico-midiático global" que, por sua vez, com tantos argumentos científicos, recorre a uma fonte "literária" (?), igualmente global (o "escritor" Jô Soares), a fim de justificar o direito de a funcionária expelir gases impunemente, já que o imperador também o fazia. Será que todos os "atores" desse risível roteiro (empresa, funcionária, juiz e médico) enlouqueceram? Por fim, acresça-se ao elenco o jornalista, relator da matéria. Já imaginaram se os quase 7 bilhões de habitantes do planeta liberassem, livremente, seus "gases intestinais", em função de errados hábitos de alimentação e de educação? O ar e a convivência seriam insuportáveis. E mais: se os quase 7 bilhões de habitantes do planeta aprenderem a lição de que, liberando seus gases, será recompensado pelo ganho da quantia equivalente, em moeda nacional, a R$ 10 mil. Conclusão: flatulência também é investimento. Como arremate, a figura do jornalista (e do jornal), em, sem nenhum tom humorístico ou irônico, narrar o "acontecimento" com a mesma postura de quem oferece ao leitor uma matéria de política, economia, ou seja lá do que for. Quatro faces do horror O painel, em quatro faces, aqui exposto indica o cenário de horrores em que nos encontramos. A questão é sabermos se ainda tudo pode ficar pior. Só o tempo revelará. Uma vez mais, reitero que as raízes da deformação do caráter brasileiro não têm a ver nem com presidentes eleitos nem índices econômicos (inflação, crise, ou crescimento e desenvolvimento). O problema não é político e, menos ainda, econômico. O fator que, no pano de fundo, desfigura e fragiliza o vigor da nação diz respeito ao modo como cada cidadão se relaciona com a cultura e o conhecimento. Nesse interstício, tem responsabilidade o modelo vigente do sistema midiático (impresso e eletrônico), considerando que, há décadas, é sobejamente sabido o apego da majoritária população ao recorte oferecido pela mídia. Que tal, num esforço em prol do soerguimento da inteligência nacional, a mídia realinhar o sentido de responsabilidade social, redefinindo o arco de suas importância e prioridade? A barbárie evolui bem mais rapidamente do que se supõe. Se chegarmos ao estado da irreversibilidade, nem a mídia sobreviverá. [Texto concluído em 2/3/2008] | |


