No Brasil até pelo menos o XVIII o negro foi visto como inferior não com argumentos biológicos, mas culturais/religiosos. De fins do XVIII já podemos ver mudanças nesse discurso.
Em nosso território há uma longa duração nos discursos que associam mulheres negras a objetos sexuais, que as tratam de modo desrespeitoso e sempre traduzem gestos, modos, danças e até mesmo práticas religiosas como expressão da licenciosidade, como libidinosas, lascivas, promíscuas e correlatos.
Desde o início da polêmica sobre o programa do Jô onde entrevistado e entrevistador fizeram associações grotescas entre aspectos estéticos e vida sexual de etnias africanas em Angola eu tentei pontuar o quanto os discursos do entrevistado e do entrevistador se complementaram ao longo dos 10 minutos do programa. Faltou respeito, extrapolou-se, cometeu inverdades históricas, antropológicas, geográficas a serviço do preconceito.
Como mulher, educadora e cidadã me indignei e agi. Temos ainda muito a caminhar para reconstruir uma história do continente africano e 'seus mil povos', distanciando-o de uma construção colonialista e neocolonialista que o pintou de 'bárbaro' em oposição ao outro 'civilizado' e programas como esses não são bem-vindos.
Vivemos em um momento de embate, onde as lideranças negras de diferentes tendências colocaram em cheque as políticas públicas e avançam a trancos e barrancos à revelia de um discurso solidamente institucionalizado nos grupos de 'esquerda e de direita' em nosso país de que nosso problema não é racial e sim econômico.
O mínimo avanço de conquistas de bandeiras negras já provocam reações conservadoras e não raro preconceituosas.
Por isso, creio que precisamos estar atentos aos nossos próprios discursos, a maneira fácil e, às vezes, leviana de como tratamos o sentimento daqueles que são alvo constante do preconceito.
Uma sociedade não muda sua ética conservadora expressa na linguagem, nas piadas, na arquitetura física e social tão desiguais em relação à cor se os que estão entre os grupos beneficiados e têm condições cognitivas e informações para refletir negarem-se a esse exercício (que de fato não é fácil).
As ironias que por vezes li em alguns comentários sobre a questão, descontando o meio impessoal da rede, pareceram-me muito desnecessárias e contraproducentes para avançarmos sobre a reflexão da questão.

Espero que as representações negras em nosso país sejam reelaboradas e próximas à realidade de luta e conquista dos afrodescendentes.
Axé!
Conceição
A propósito, segue notícia de 19/12/2007 - 15:03:36
Combate ao racismo fica fora do Pronasci
Ana Luíza Pinheiro Flauzina, Mestra em Direito pela Universidade de Brasília e professora do UniCeub.analuiza@irohin.org.br
O projeto de lei orçamentária para 2008, que estima a receita e fixa a despesa da União para o exercício financeiro, está sendo apreciado pelo Congresso Nacional. Na área temática VII, que inclui matéria relativa à Justiça e à Defesa, o Pronasci – Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – figura como a “grande promessa” em termos de segurança pública, sendo uma diretriz da comissão a cargo da análise do projeto no Senado Federal evitar qualquer cancelamento das dotações orçamentárias destinadas ao cumprimento de suas ações, tendo em vista tratar-se de “... um programa da mais alta relevância para o país”.
Mas é claro que todos os cuidados em dar viabilidade ao programa desenvolvido pelo Ministério da Justiça não envolvem em qualquer nível o trato da questão racial. E o Congresso Nacional, na linha do que já fora proposto pelo Executivo, ratifica essa decisão. A Lei 11.530 de 24 de outubro de 2007, que institui o Pronasci, determina que uma diretriz do programa é a promoção dos direitos humanos em consonância com questões raciais, dentre outras elencadas. Esse é a única e mais próxima menção do programa no que tange ao enfrentamento do racismo no âmbito da segurança pública, sendo nítida a função meramente simbólica, tendo em vista o fato de a juventude negra não figurar entre os focos prioritários e não haver ações conseqüentes para o enfrentamento do racismo institucional.
Esse tipo de percepção, que poderia ser minimamente revista pelo Legislativo, ao que se vê está endossada. A relatoria, tão preocupada em não alterar as dotações financeiras destinadas ao programa, viu-se forçada a vetar uma única emenda. Alguma dúvida sobre o seu teor? Trata-se de emenda de remanejamento (nº 6003005) de autoria da Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania do Senado Federal que visava incluir um marco normativo para o enfrentamento do racismo institucional.
O tom espantoso com que se trata no relatório a existência de uma emenda dessa natureza na estrutura do Pronasci seria mesmo risível se não fosse a tragédia imposta pelas agências do sistema de justiça criminal à existência coletiva do contingente negro brasileiro. A argumentação para se rejeitar a iniciativa gira em torno de duas questões básicas. Em primeiro lugar, para a relatoria, a ação a qual se vincula a emenda – Apoio à implementação de Políticas Sociais, cuja finalidade é “garantir o acesso dos moradores de territórios de descoesão social, especialmente os adolescentes e jovens em situação de risco social ou em conflito com a lei, às políticas sociais do Governo”, não tem absolutamente nada a ver com o enfrentamento da desigualdade racial. Em segundo lugar, que, tecnicamente, o lugar adequado para se abrigar a emenda seria a SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), esta sim competente para a execução de ações dessa envergadura.
Esse tipo de percepção ilustra bem a forma como o institucional tem se posicionado frente às pressões do movimento negro. O engodo da tão aludida “transversalidade”, que deveria alcançar todos os Ministérios no que tange ao enfrentamento do racismo, é límpido e cristalino. Nessa perspectiva, a criação desses guetos institucionais à la SEPPIR cumpre um papel simbólico decisivo. A imagem transmitida é a de que a existência desse tipo de órgão já representa em si o enfrentamento ao racismo. É óbvio que não existem as condições para que a tarefa se realize e os quadros acionados para assumir a pasta são os que se contentam com esmolas institucionais. Mas, na fatura, qualquer tipo de censura mais conseqüente às omissões acabam se convertendo numa caricatura de um movimento negro imaturo e radical, que não reconhece qualquer das “benesses” concedidas pela casa grande.
É por esse tipo de estratégia que, acredito, já é hora de assumirmos o fracasso que as conquistas de cunho meramente simbólico representam para a luta contra as desigualdades raciais no país. Afinal, a SEPPIR já deu provas suficientes de que não desenvolve ações conseqüentes, não tem influência política para pautar a questão racial junto aos outros Ministérios e, ao contrário de sua missão expressa inicial, acaba servindo como uma espécie de “cala boca” para as pressões do movimento negro junto à opinião pública.
Quanto a nós, ficamos uma vez mais desconsiderados em nossas mais relevantes reivindicações. E não adianta gritar aos quatro ventos que o sistema de justiça criminal no Brasil é um espaço de perpetuação de violência e extinção da vida de centenas de pessoas, sendo o racismo o grande mote para a existência e manutenção desse tipo de prática. De nada servem pesquisas oficiais, dados coletados por Ong’s e organismos internacionais, fotos que expõem os corpos de meninos negros diuturnamente “caídos no chão” pela violência policial. O PRONASCI, entenda-se de uma vez por todas, não tem nada a ver com isso!!! Não cabe ao programa enfrentar e alterar essa realidade, argumentam Executivo e Legislativo irmanados. Como consta no relatório, “ as questões de igualdade racial, em princípio, não integram o contexto desse Programa”. Não. Coisa de preto não integra política pública que se pretenda conseqüente nesse país. E para os que insistirem em falar nesses temas sem importância? Recomenda-se que atravessem a rua, logo ali à direita construiu-se um cercadinho com fachada de Secretaria para vocês se distraírem... Entrem e fiquem à vontade.
Adailton da Silva- Consultor Técnico SCDH
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